Racismo na PSP: se forem absolvidos aqueles polícias "passam a ser heróis"

José Semedo, advogado dos seis jovens que o Ministério Público diz terem sido violentamente agredidos na esquadra de Alfragide, lamenta que a PSP esteja em "estado de negação"

Existem três motivos que levam o advogado José Semedo a acreditar que "grande parte" dos 17 polícias que estão a ser julgados por tortura, agressões, sequestro e racismo contra seis jovens da Cova da Moura, vão ser condenados pelo tribunal. Semedo, um dos elementos da equipa de advogados dos ofendidos deste processo, está convencido que se "fará justiça".

O primeiro deles, que elencou numa entrevista ao site de informação online "Fumaça", prende-se com "a oportunidade" dada pela acusação "histórica" do Ministério Público (MP) de "afastar o sentimento de impunidade" que era a regra em casos semelhantes. "Tem que ser dada uma mensagem firme. Se não o fizerem não estão a criar um 'monstro', porque ele já existe, mas vão libertar esse 'monstro'. Essas comunidades que já sofriam, vão sofrer o dobro ou o triplo", sublinha.

A segunda razão, avançou, é porque "absolvendo estas pessoas - que até agora não assumiram nenhum dos crimes pelos quais estão acusados - dá-se a ideia que passam a ser heróis". No entender de José Semedo "o efeito multiplicador que esse fenómeno pode gerar e a amplificação do sentimento de impunidade será difícil de suster".

Por último, o terceiro motivo que faz este advogado acreditar que se "fará justiça" para os seis jovens que o MP alega terem sido torturados e injuriados pelos polícias de forma racista e cruel, "é a acusação estar muito bem fundamentada". Semedo lembra que a investigação "foi feita pela Unidade de Contraterrorismo da Polícia Judiciária" e que "as provas que estão no processo têm um cunho científico". Ou seja, sustenta, "para se ter avançado para uma acusação é porque existe uma probabilidade muito grande desses arguidos virem a ser condenados".

Nesta entrevista, José Semedo disse esperar que este processo é "um momento histórico" para a PSP passar "uma mensagem para dentro" sobre os limites de atuação dos seus agentes. Depois de ter dado alguns exemplos de situações de alegada violência e tortura contra detidos, que chegaram ao seu conhecimento, o advogado sublinha que há "problemas graves" naquela força de segurança. "Há vícios que lembram as ações pidescas", assinala.

"O problema que temos neste momento, desde que a acusação foi tornada pública, assemelha-se ao de uma pessoa a quem é dada a notícia de que padece de uma doença grave e que entra em estado de negação", declara. José Semedo salienta que "a indignação não é contra a PSP ou a GNR, mas sim contra os seus maus elementos" e que "havendo uma atuação firme, estaremos a melhorar as instituições e a sociedade. A impunidade como regra tem que desaparecer".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

Conhecem a última anedota do Brexit?

Quando uma anedota é uma anedota merece ser tratada como piada. E se a tal anedota ocupa um importante cargo histórico não pode ser levada a sério lá porque anda com sapatos de tigresa. Então, se a sua morada oficial é em Downing Street, o nome da rua - "Downing", que traduzido diz "cai, desaba, vai para o galheiro..." - vale como atual e certeira análise política. Tal endereço, tal país. Também o número da porta de Downing Street, o "10", serve hoje para fazer interpretações políticas. Se o algarismo 1 é pela função, mora lá a primeira-ministra, o algarismo 0 qualifica a atual inquilina. Para ser mais exato: apesar de ela ser conservadora, trata-se de um zero à esquerda. Resumindo, o que dizer de uma poderosa governante que se expõe ao desprezo quotidiano do carteiro?

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A escolha de uma liberdade

A projeção pública da nossa atividade, sobretudo quando, como é o caso da política profissional, essa atividade é, ela própria, pública e publicamente financiada, envolve uma certa perda de liberdade com que nunca me senti confortável. Não se trata apenas da exposição, que o tempo mediático, por ser mais veloz do que o tempo real das horas e dos dias, alargou para além da justíssima sindicância. E a velocidade desse tempo, que chega a substituir o tempo real porque respondemos e reagimos ao que se diz que é, e não ao que é, não vai abrandar, como também se não vai atenuar a inversão do ónus da prova em que a política vive.

Premium

Marisa Matias

Penalizações antecipadas

Um estudo da OCDE publicado nesta semana mostra que Portugal é dos países que mais penalizam quem se reforma antecipadamente e menos beneficia quem trabalha mais anos do que deve. A atual idade de reforma é de 66 anos e cinco meses. Se se sair do mercado de trabalho antes do previsto, o corte é de 36% se for um ano e de 45%, se forem três anos. Ou seja, em três anos é possível perder quase metade do rendimento para o qual se trabalhou uma vida. As penalizações são injustas para quem passou, literalmente, a vida toda a trabalhar e não tem como vislumbrar a possibilidade de deixar de fazê-lo.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

O planeta dos sustentáveis 

Ao ambiente e ao planeta já não basta a simples manifestação da amizade e da esperança. Devemos-lhes a prática do respeito. Esta é, basicamente, a mensagem da jovem e global ativista Greta Thunberg. É uma mensagem positiva e inesperada. Positiva, porque em matéria de respeito pelo ambiente, demonstra que já chegámos à consciencialização urgente de que a ação já está atrasada em relação à emergência de catástrofes como a de Moçambique. Inesperada (ao ponto do embaraço para todos), pela constatação de que foi a nossa juventude, de facto e pela onda da sua ação, a globalizar a oportunidade para operacionalizar a esperança.