Porque é que os homens cometem mais crimes do que as mulheres?

As explicações vão desde o facto de as mulheres serem mais astutas a cometer crimes aos diferentes papéis que os géneros ocupam na sociedade. Mas os especialistas dizem que não é correto tirar conclusões, porque os crimes envolvem diferentes variáveis.

A população prisional em Portugal é maioritariamente do sexo masculino: 93,6% dos reclusos são homens, de acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2017. São estes que cometem mais delitos, quer os menos graves quer os mais violentos. Uma percentagem que segue a tendência mundial. Dados do Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime, publicados em 2014, revelaram que 95% dos assassinos a nível mundial são homens. Não admira, por isso, que casos como o homicídio de uma professora no Montijo, alegadamente cometido pela filha e o genro, choquem o país. Mas, afinal, porque é que os homens cometem mais crimes do que as mulheres?

Há várias décadas que o assunto é estudado por investigadores, e as teorias vão desde as questões biológicas às de ordem cultural e social. "Não há uma resposta única, exata. Mas existem várias considerações sobre o facto de existir uma percentagem muito reduzida de mulheres nas prisões. Há algumas teorias que se aplicam mais do que outras em determinados casos", diz ao DN Raquel Matos, professora associada da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa.

Com investigação na área do género, criminalidade e reclusão, a docente diz que existe desde sempre uma "desproporção enorme" entre géneros no que diz respeito à população prisional. Uma das explicações, avança, é da área da psicossociologia e prende-se com o facto de "as mulheres serem mais conformadas com as normas: comportam-se mais de acordo com as regras, ponderam mais", o que está relacionado "com a forma como são educadas". Isto faz que não seja expectável que cometam crimes, sobretudo os mais violentos.

Mulheres mais perversas?

Carlos Poiares, especialista em psicologia criminal, diz que "a maior força física dos homens" também tem sido apontada desde sempre como explicação, "mas, por si só, não é suficiente".

No século XIX, prossegue o vice-reitor da Universidade Lusófona, acreditava-se que "os homens estavam mais sujeitos aos locais de vício, como o alcoolismo", e que grande parte dos crimes ocorriam nesse contexto. Por outro lado, existiam teorias que "diziam que as mulheres eram mais perversas e cometiam os crimes de maneira mais dissimulada, nomeadamente os homicídios com veneno, enquanto os homens iam mais pelo exercício da força".

Nenhuma destas teses parece, no entanto, explicar as estatísticas. Raquel Matos sublinha que "as mulheres, tal como os homens, cometem todo o tipo de crimes previstos no código e não existe um padrão relativamente ao método".

Condicionantes socioculturais

A esmagadora maioria dos delinquentes, indica Carlos Poiares, "são do sexo masculino, quer na criminalidade mais pequena quer na mais pesada e organizada. Mas isto não quer dizer que não apareçam crimes de extrema violência que envolvam mulheres como protagonistas".

Segundo o docente, há "condicionantes socioculturais" que também parecem ajudar a explicar o facto de a maioria dos criminosos serem homens, nomeadamente "o facto de haver uma grande divisão de tarefas, de conceções. Há muita separação nas brincadeiras, por exemplo. Quando era moda dar armas às crianças, davam-se aos meninos".

Entre as várias razões pelas quais as pessoas cometem crimes o especialista diz que o poder está quase sempre envolvido, seja económico, político, social ou relacional. "Os homens, por via das atividades que exercem e que foram socialmente construídas, são colocados em posições nas quais o crime aparece quase como consequência inevitável das funções que exercem. Numa sociedade em que as mulheres só recentemente começaram a ter poder a nível social e económico, a criminalidade é maioritariamente cometida por homens", refere Carlos Poiares.

80% das vítimas são homens

De acordo com os dados do Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime, 80% das vítimas dos homicídios também são do sexo masculino. Contudo, no contexto da violência conjugal, a realidade altera-se. "No contexto familiar ou relacional, a maioria das vítimas são do sexo feminino e os autores são do sexo masculino." Segundo o RASI, 80% das vítimas de violência doméstica em Portugal são mulheres e 84% dos denunciados são homens.

Como os crimes cometidos por mulheres são pouco comuns, Raquel Matos refere que os discursos raramente são "neutros". Há tendência, por exemplo, para dizer que a ideia foi de outra pessoa, ou que foi da mulher porque esta é mais maquiavélica. "Estranha-se menos ser um homem a cometer um crime. Este é um fenómeno mais raro. Neste último caso mediático, se fosse um homem a matar a mãe, provavelmente não se faria esta reportagem", diz a investigadora.

O assassinato da professora, no Montijo, chocou não só pelos autores - ao que tudo indica a filha e o genro - mas também pelos contornos em que foi cometido. Diana Fialho, de 23 anos, fez apelos nas redes sociais e deu entrevistas sobre o suposto desaparecimento da mãe, quando esta já estaria morta. E a frieza com que proferiu as declarações, as contradições e as provas recolhidas terão sido cruciais para a sua detenção e a do marido, Iuri Mata, de 27 anos.

"Este é um caso grave, mas não me choca mais por estar uma mulher envolvida", frisa Raquel Matos. Ao DN, os especialistas destacam que não será correto tirar conclusões sobre as razões pelas quais as mulheres cometem menos delitos do que os homens. Cada crime diz respeito a uma situação, influenciada por diferentes fatores.

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