Populações em zonas de risco de fogos "estão mais desprotegidas"

A Associação dos Profissionais da Guarda (APG) alerta para a falta de militares nos postos territoriais dos concelhos de maior risco de incêndios

Em plena rota de colisão com declarações que têm vindo a ser feitas pelo Governo, segundo as quais o país "está mais preparado do que alguma vez esteve" para enfrentar os incêndios florestais, a APG, a mais representativa associação socioprofissional da GNR, vem declarar isso não é verdade: "É necessário dizer com clareza, com frontalidade, sem mascarar dados que as populações que residem em zonas de risco de incêndio estão hoje mais desprotegidas no que respeita à intervenção da GNR do que estavam o ano passado e, mais do que conteúdos de relatórios virem corroborar o que temos vindo a afirmar, esperemos que novas tragédias não venham ilustrar as nossas palavras da pior forma", denuncia a APG num comunicado publicado esta terça-feira.

Em reação a um relatório interno, parcialmente divulgado pela comunicação social, que indicia a falta de recursos humanos da Guarda nos fogos de Pedrógão Grande, a APG "não ficou, de todo, surpresa com conclusões que sempre considerou como evidentes". Por um lado, "a inoperacionalidade do SIRESP e a falência de todo o tipo de comunicações interferiram de forma directa no socorro prestado às populações pelos profissionais da Guarda e na sua evacuação, já que, por exemplo, nunca chegou informação para corte da EN 236-1, onde vieram a perder a vida dezenas de pessoas".

Por outro lado, assinala ainda a associação de guardas, "constata-se que a falta de meios humanos foi preponderante. Não é demais relembrar que, no dia dos incêndios, no Posto de Pedrógão estavam três profissionais, um de atendimento e dois de patrulha, cenário que se repetia nos Postos dos outros concelhos que foram afetados pelos fogos".

O DN já solicitou este relatório ao comando-geral da GNR e está a aguardar resposta.

Miserabilismo e malabarismo

A APG acusa o governo de estar a "camuflar" a realidade "com o reforço do Grupo de Intervenção Prevenção e Socorro (GIPS) à custa de valências operacionais, designadamente do serviço Territorial, em vez de investir na prevenção e segurança das populações". A associação lamenta que se aposte num "funcionamento miserabilista dos Postos Territoriais, muito aquém dos requisitos mínimos necessários à prevenção e segurança das populações".

Sublinha a "irresponsabilidade e as potenciais consequências trágicas da falta de investimento em meios humanos e materiais, que subsistirá independentemente do malabarismo falsificado de números que o governo quer forçar, contabilizando formandos de um Curso de Formação de Guardas, que só ingressarão nos quadros da GNR em Setembro".

Conforme o DN já noticiou, em reposta a uma pergunta do PSD, o ministério da Administração Interna reconheceu que este verão o país iria contar com menos militares da GNR nos postos territoriais, embora o GIPS e o SEPNA tivessem sido reforçados.

"Quem faz a prevenção e tem que proteger as populações de qualquer incidente natural, como os fogos, ou criminal, é quem está nos postos territoriais e o que nos mostra a realidade é que o interior estava e continua sem guardas suficientes", sublinhou na altura ao DN César Nogueira, presidente da APG. "O que existia no verão passado, será pior este ano, pois não houve reforço nos postos territoriais", critica este dirigente associativo.

A APG acusa o governo de não aprender com os "erros" e não sentir "o peso das dezenas de mortes infelizmente ocorridas, nem das perdas materiais nestes concelhos", estando "sempre esteve mais preocupado em dar respostas mediáticas aos acontecimentos".

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