Pedro Felício: "O crime organizado é a maior ameaça à segurança dos cidadãos da UE"

Pedro Felício, português que dirige unidade na Europol, alerta que máfias movimentam mais 110 mil milhões de euros por ano a nível europeu

"São grupos cada vez maiores, mais organizados, até conectados uns aos outros, que podem roubar, extorquir, lavar dinheiro, vender mercadorias contrafeitas, manipular apostas em jogos de azar." É assim que Pedro Felício, o português que dirige a unidade de crime económico e contra a propriedade no Centro Europeu do Crime Altamente Organizado da Europol, lança o alerta para um problema que considera estar a ser desvalorizado na União Europeia. Os números mostram que tem subido: de 2013 até agora haverá um aumento de 40% de grupos criminosos transnacionais.

As declarações do investigador português, que, em 2014, deixou a Polícia Judiciária, onde coordenava a Unidade Nacional de Contra-Terrorismo, foram feitas em Madrid, onde participou numa conferência de imprensa de balanço sobre a operação Kus, uma das maiores a nível europeu e que levou à detenção de 132 pessoas, a maioria delas de nacionalidade arménia e com ligações à máfia russa. Sete dos detidos são considerados líderes do crime organizado. Felício, em comissão de serviço de cinco anos, esteve até fevereiro passado como especialista no Departamento de Operações de Contra Terrorismo e de Inteligência Financeira, tendo assumido então a chefia da unidade que ataca o crime organizado na Europol.

110 mil milhões por ano

"O crime organizado é a maior ameaça à segurança dos cidadãos da UE", assegura Pedro Felício, com a evidência dos números. Em 2013, estimava-se em 3600 grupos mafiosos na Europa, em especial as máfias russas, chinesas, arménias e georgianas. Hoje, revela o investigador português, há mais 5000, o que significa uma subida de quase 40%.

"Estimamos que movimenta 110 mil milhões de euros à escala europeia, dos quais só conseguimos confiscar 1,1%", apontou. Significa que a maioria do dinheiro do crime organizado continua a escapar às autoridades europeias. "É um ciclo interminável: o dinheiro gera mais dinheiro, crime mais crime e violência mais violência. Imaginem quantas drogas, quantas armas podem ser introduzidas na economia legal, quantas pessoas podem ser compradas ", diz Pedro Felício, que na PJ foi o responsável pela investigação de vários casos importantes, como foi a detenção do rei Ghob, condenado à pena máxima de 25 anos pelo homicídio de quatro jovens.

No caso da investigação espanhola, foi um ajuste de conta entre arménios e georgianos, em 2016 em Barcelona, que permitiu à Policia Nacional e aos Mossos, com o apoio da Europol e outras polícias europeias, iniciar a investigação que culminou agora com o desmantelamento da rede. Foram dois anos de investigação e 50 dos detidos ficaram em prisão preventiva. Alguns dos líderes da organização procuravam mesmo entrar no sistema, como cônsules honorários na zona de Levante, onde já tinham comprado propriedades. Sete deles são classificados como chefes da máfia russa 'Thieves in Law' (Ladrões na Lei), uma das principais redes criminosas com ligações ao contrabando, tráficos de armas e drogas, apostas ilegais, entre outros. "Este grupo de criminosos arménios era simplesmente o maior e mais perigoso a atuar na Europa neste momento", disse Pedro Felício, em Madrid.

Portugal não escapa

Em Portugal, estes grupos criminosos também atuam. O caso mais recente é a acusação pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) a 36 arguidos (15 estão presos), na sua maioria cidadãos da República da Geórgia, pelos crimes de furto qualificado, furto qualificado na forma tentada, associação criminosa, branqueamento e recetação, cometidos entre finais de 2015 e março deste ano.

Segundo o Ministério Público, os arguidos aproveitaram-se das fragilidades de fiscalização policial e judicial, decorrentes da livre circulação de pessoas no espaço Schengen. Em Portugal, a estrutura criminosa dedicou-se essencialmente à prática de furtos em residências, contando com o apoio de operacionais residentes, incumbidos de "toda a logística, nomeadamente a procura de alojamento, a disponibilização de viaturas e a indicação de locais para escoarem os objetos" roubados. Parte do dinheiro foi transacionado para fora do país, através do serviço de transferências internacionais disponibilizado por entidades financeiras a operar em Portugal.

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