Papa protege patriarca português na polémica dos recasados

D. Manuel Clemente mandou traduzir para italiano nota que gerou intensa controvérsia e enviou-a para o Vaticano. Agora Francisco respondeu.

O Papa Francisco mandou uma carta ao cardeal-patriarca de Lisboa em que diz que o "encheu de alegria" a nota de D. Manuel Clemente aos seus sacerdotes sobre a exortação apostólica Amoris Laetitia (Alegria do Amor). A carta foi relevada hoje pela Rádio Renascença e pela agência Ecclesia, depois de publicada no site do Patriarcado.

Em causa está a polémica dos chamados recasados (católicos que não são casados pela Igreja, situação que geralmente se segue a um primeiro divórcio).

Em fevereiro deste ano, Clemente fez uma nota aos sacerdotes sobre "o acompanhamento, o discernimento e a integração a prestar aos casais que não vivem em matrimónio sacramental [casamento pela Igreja]". Essa nota, embora escrita para os padres, foi publicada no site do Patriarcado e o seu conteúdo foi interpretado como conservador. Isto porque, num dos pontos, D. Manuel Clemente sugeria que estes católicos, na sua situação matrimonial não sacramental, deveriam tentar viver "em continência" (sem relações sexuais) de forma a assim poderem continuar a ter acesso aos sacramentos (por exemplo, comungarem ou poderem confessar-se perante um padre ou ainda terem direito à extrema-unção).

Dito de outra forma: os católicos casados apenas pelo civil seriam confrontados com uma opção: ou terem vida sexual com o(a) cônjuge; ou acesso aos sacramentos.

"As situações da vida conjugal constituem, hoje, um dos campos onde tal acompanhamento [pelos sacerdotes] é mais necessário e delicado."

A posição de D. Manuel Clemente suscitou intensa polémica, ainda para mais porque as suas palavras foram interpretadas como não correspondendo ao sentido liberal da Amoris Laetitia. Aqui o Papa Francisco abriu de facto a porta à possibilidade de os católicos casados em segundas núpcias terem acesso aos sacramentos, nomeadamente à comunhão na missa, dependendo isso de avaliações caso a caso de sacerdotes no terreno (posição que mereceu críticas dos setores mais conservadores do catolicismo).

Na sequência da controvérsia, D. Manuel Clemente mandou traduzir para italiano a sua nota aos sacerdotes. E depois enviou-a para o Vaticano, para que o Papa a interpretasse por si próprio, sem filtros mediáticos.

Agora - numa carta datada de 26 de junho - Francisco respondeu e D. Manuel Clemente mandou divulgá-la. Protegendo (implicitamente) o cardeal-patriarca dos ataques de que foi alvo, o Papa disse reconhecer nele "o esforço do pastor e pai que, consciente do seu dever de acompanhar os fiéis, quis fazê-lo começando pelos seus presbíteros para poderem cumprir da melhor forma o ministério". É que - acrescentou - "as situações da vida conjugal constituem, hoje, um dos campos onde tal acompanhamento é mais necessário e delicado".

"Ao exprimir-lhe a minha gratidão aproveito o ensejo para encorajar o irmão cardeal e seus colaboradores no ministério pastoral - in primis os sacerdotes - a prosseguirem, com sabedoria e paciência, no compromisso de acompanhar, discernir e integrar a fragilidade que, de variadas formas, se manifesta nos cônjuges e nos seus vínculos", escreveu ainda o Papa.

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