"Os países do ocidente vão precisar cada vez mais de imigrantes"

Em Fátima - onde preside à peregrinação aniversária de agosto - D. Arlindo Ventura, bispo de Santiago (Cabo-Verde), apontou o dedo aos países "que produzem emigrantes forçados". E apelou à reflexão de países como Portugal, sobre as consequências do colonialismo

"Um problema global deve ser resolvido também de uma forma global. Devemos olhar para aqueles que acolhem mas também para os que governam países que produzem emigrante forçados", disse este domingo em Fátima D. Arlindo Gomes Ventura, o bispo cabo-verdiano que preside à peregrinação aniversária de agosto, dedicada ao migrante e refugiado.

"Essa situação de grande dor, de grande drama para todos, deve fazer-nos refletir também sobre o nosso passado. Porque se não o fizermos teremos muita dificuldade em construir um futuro mais sólido", sublinhou D. Arlindo, sem isentar de responsabilidades países como Portugal, no que toca ao passado colonial. " Toda a história colonial e mesmo pós colonial, dos países que emitem emigrantes, deve ser alvo de reflexão. E ver o que houve de errado para não repetir no futuro, para que esse seja mais equilibrado". O bispo falava sobretudo dos países do ocidente, "que vão precisar cada vez mais de imigrantes, mas devem regularizar cada um, para que tenhamos cidadãos de corpo inteiro e não equivocados e ambíguos. Que as forças celestes nos ajudem a fazer essa caminhada", sustentou.

O prelado está certo de que muitos países ocidentais "não pensaram nas consequências" dos seus atos. Primeiro com a colonização. "Durante muito tempo desestabilizaram o processo natural de dinamismo social". E quando compara a situação de África (hoje) com a da Europa, D. Arlindo conclui que faltou à primeira a oportunidade de se unir como a segunda. "A Europa teve muitas guerras, até chegar a uma consciência de colaboração mútua, até ter a União Europeia. Houve uma luta até chegar a esse ponto. E África não teve essa oportunidade de ter as suas lutas internas e fazer o percurso de uma integração. Isso foi muito devido à colonização que a fragmentou", disse.

Nessa viagem no tempo que o bispo quis fazer, antes de qualquer celebração, lembrou que durante muito tempo "os países ocidentais tentaram explorar África com compra a bom preço de matérias primas, de venda de armas, de por e depor os governantes, com favorecimento de grupos coniventes com determinadas políticas". E por isso África teve durante muito tempo "dirigentes políticos que são uma espécie de mandatários dos grandes patrões políticos europeus. Ainda hoje há situações dessas", advertiu. Por isso defende que agora os africanos "devem ser adultos, seres pensantes, responsáveis para dizer "nós precisamos da vossa ajuda. Não para mandar comida e dinheiro, mas para ajudar a organizar os países e a desenvolver setores profissionais, através de técnicos que, no terreno, ajudem a conhecer a nossa realidade e descobrir o processo de fazer a reintegração".

"Os países ocidentais tentaram explorar África com compra a bom preço de matérias primas, de venda de armas, de por e depor os governantes"

Quando questionado sobre essa ideia de abandono de áfrica que passou na conferência de imprensa, D. Arlindo Ventura foi perentório: "Não quero atirar culpas, mas ao menos a partir dessa experiência dramática todos possamos tirar conclusões".

Antes dele, também o cardeal D. António Marto, bispo da diocese de Leiria-Fátima, expressou as preocupações da Igreja com o drama dos refugiados. "É um exército de pobres que aqui chega, após dois anos de viagem pelo norte de África. Não estão em causa os números, mas pessoas concretas, com uma história, uma cultura, uma família, sentimentos, dramas e aspirações", disse, lançando também o mesmo olhar crítico sobre o colonialismo das potências ocidentais europeias, que "explorou e roubou" África, mantendo-a numa "condição de guerra permanente".

"Assim se destrói a vida de milhões de pobres, obrigados a partir para não morrerem vítimas da miséria, da fome e da guerra. Crianças sem país, e pais e mães sem filhos. Sabemos tudo isto e não nos podemos calar", disse.

Integrar os emigrantes de segunda geração

Durante a conferência que reuniu os responsáveis do Santuário de Fátima, da Diocese, da comissão episcopal para a pastoral social e mobilidade humana e da Obra Católica Portuguesa para as Migrações, outra preocupação ficou expressa: a integração da segunda geração. "Um problema muito complexo e delicado", no dizer de D. Arlindo Ventura. "Eles não se sentem bem nem no país onde nasceram e cresceram, nem no país de origem dos pais. E essa integração é muito importante para termos uma sociedade cada vez mais saudável", considerou. Nessa altura já o recinto do Santuário de Fátima se enchia de emigrantes portugueses que, 12 e 13 de agosto, integram uma das maiores peregrinações do ano. Eugénia Quaresma, diretora da Obra Católica para as Migrações, fez questão de sublinhar "a diáspora cabo-verdiana , com quem Portugal e a Igreja têm aprendido tanto". E recordando o mote desta semana que agora começa em Fátima - "cada forasteiro é ocasião de encontro - migrantes e refugiados ao encontro de Cristo" - lembrou que forasteiro "é todo aquele que vem de fora, pode ser cada um de nós, em qualquer altura da história, em qualquer circunstância da vida". "É preciso modificarmos atitudes, modificar políticas, aprofundar a cooperação, colocar verdadeiramente em prática aquilo que já se colocou por escrito, nomeadamente na doutrina social da igreja", enfatizou.

Eugénio Quaresma acredita que "já fazemos muito, mas a razão de ser desta semana é recordar que há ainda muito por fazer": atuar no trabalho em rede, nos países de origem, nos países de trânsito e de destino. "É preciso navegar em territórios perigosos, ousar políticas arrojadas", de forma a recentrar a economia "na dignidade humana". " É preciso promover verdadeiramente o direito a emigrar e o direito a não emigrar", disse.

A diretora da OCM lembra que "está muito por fazer a nível do acolhimento e da integração". A propósito, recordou, por exemplo, "os nossos irmãos que vêm da Venezuela. Os filhos e filhas de emigrantes da nossa diáspora mais antiga".

Combater a xenofobia

No dia em que o DN trouxe a público a notícia dos grupos de xenofobia a crescer em Portugal, Eugénia Quaresma admitiu que é preciso olhar de frente para o problema, que existe. "Não é uma hostilidade explícita, cara a cara, olhos no olhos, mas percebemos que existe muita xenofobia e muito racismo. E isso preocupa-nos. E a nível da igreja é preciso dar uma resposta", sublinhou. Mas advertiu que não se trata apenas de uma questão de pele: "É de ser estrangeiro, porque também os portugueses lá fora sentem a hostilidade. Por isso a nível da igreja é preciso combater por dentro, porque o crescimento dos partidos radicais e extremistas parte da eleições dos cidadãos".

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