Jovens bebem cada vez mais. "O preço das bebidas alcoólicas é demasiado baixo"

Os jovens têm cada vez mais comportamentos de risco em relação ao álcool e à droga, principalmente no consumo de canábis. A aposta na prevenção tem vindo a diminuir e o preço das bebidas também não é dissuasor.

Os portugueses até aos 18 anos estão a consumir cada vez mais canábis, maiores quantidades de bebidas alcoólicas e a ter comportamentos de risco como a ingestão de cinco ou mais bebidas numa só ocasião e a ter bebedeiras cada vez mais severas.

Este retrato do comportamento dos jovens foi feito com base nas respostas de 66 mil dos 103 mil participantes no Dia da Defesa Nacional do ano passado e as conclusões divulgadas esta quarta-feira - Dia Internacional de Luta Contra o Uso e Tráfico Ilícito de Droga - pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) mostram que até aos 18 anos os hábitos de consumos de risco estão enraizados e têm mostrado um aumento desde que foi feito o primeiro inquérito em 2015.

Dos dados recolhidos um dos mais preocupantes diz respeito à relação com as bebidas alcoólicas, como reconhece o diretor-geral do SICAD, João Goulão. "As substâncias que constatamos serem mais utilizadas no campo das ilícitas são a canábis, de longe, e os produtos de canábis. Já no caso das lícitas é o álcool e com padrões de consumo em alguns casos mais intensivos do que era habitual. A ocorrência de bebedeiras, de binge drinking, é talvez o problema mais significativo que encontramos", adianta.

Uma preocupação que o subdiretor-geral do SICAD reforça. "O que preocupa é o aumento sistemático quer do consumo da canábis [em 2015, 22,5% dos inquiridos assumiram que tinham consumido recentemente esta substância e no ano passado esse número passou para 26,7%] quer de bebidas [dos 18,5% de há quatro anos para os 21,1% de 2019]", explica Manuel Cardoso.

Para este responsável o facto de a lei ter sido alterada e só permitir a compra de bebidas alcoólicas a partir dos 18 anos torna "compreensível que se houve alguma contenção antes dos 18 anos depois aumenta o consumo. Mas se pensarmos que um em cada dois jovens teve um consumo binge no último ano, isso é já um valor tremendo". Isto num panorama em que 89% dos jovens que responderam ao inquérito assumiram que já tinham experimentado bebidas alcoólicas pelo menos uma vez.

Uma das explicações para a subida constante do consumo está, segundo Manuel Cardoso, no facto de "o preço do álcool ser hoje baixo quando comparado com outras bebidas, inclusive a água. A facilidade de acesso é grande e os preços baixos, no último ano nem houve a atualização dos impostos [neste setor] e isso é indutor destes padrões de consumo".

Além do valor baixo há ainda a questão das "festas, do marketing, da sponsorização cada vez maior de eventos por parte de bebidas alcoólicas, inclusivamente ousam propor a venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios. Há facilitismo e ninguém parece preocupado com as consequências. Há apenas a vontade de querer vender", sublinha Manuel Cardoso.

"Não se pode ser tolerante quando em Portugal em 40% dos acidentes de viação há uma taxa de alcoolemia de 0.5 gramas de álcool por litro de sangue e desses 70% têm mais de 1.2 g/l. Temos de assumir que quem anda com mais de 1.2 g/l, que é uma taxa crime, tem de ter uma penalização. Temos de perceber que entre 20% e 24 % das mortes entre os 18 e os 24 anos têm que ver com álcool. Isto é tremendo, temos de pensar nisto seriamente para termos uma longevidade mais saudável", salienta.

"Enorme complacência" e "pouca prevenção"

Estes consumos elevados, a que se junta o reconhecimento por parte dos jovens que responderam ao inquérito que muitas vezes juntam o consumo de álcool e drogas, principalmente canábis, têm explicação na forma como a sociedade olha para estas questões. "No que diz respeito às substâncias ilícitas, o consumo de canábis tem também que ver com a enorme complacência social que existe quanto ao seu uso e o ambiente na praça pública de discussão política em torno da sua legalização, primeiro que tudo para fins terapêuticos e que veio introduzir alguma confusão entre as pessoas - falarmos de produtos tão bons que até servem para tratar doenças torna complicado desaconselhar ou apontar os riscos desse consumo. A confusão aumentou quando surgiram propostas no sentido da legalização para uso recreativo sem ter ficado claro que o grande objetivo para uma eventual regularização do mercado tem necessariamente, do nosso ponto de vista, de passar por estratégias que reduzam os riscos para a saúde individual e coletiva desse uso", acrescenta João Goulão.

Além desta questão, o diretor do SICAD frisa que "há claramente uma diminuição da intensidade da intervenção preventiva por dificuldades várias, por exemplo, alterações estruturais introduzidas nas respostas aos problemas relacionados com drogas, mas também com reformulações curriculares ao nível do Ministério da Educação que levaram à diminuição de áreas não curriculares onde era desenvolvida a atividade preventiva".

"Os eSports podem ser um problema"

As respostas ao inquérito permitiram aos técnicos detetar uma outra tendência: o aumento do uso da internet e da adição do jogo. Um terço dos 66 mil jovens que responderam disse ter começado a utilizar a internet antes dos 10 anos e um quarto reconheceu ter problemas associados à utilização da net. "A nossa preocupação atual é conhecer aquilo que pode vir a ser uma dependência. A facilidade de acesso é também cada vez maior e por isso temos de passar mais mensagens sobre a forma de controlar o acesso e a utilização [da internet]", destaca Manuel Cardoso.

O subdiretor-geral do SICAD refere que mesmo sem ser com apostas a dinheiro o jogo pode criar dependência - "a simples vontade de passar de nível e ir mais além no jogo pode ser viciante" - mas que a legalização das apostas online pode facilitar essa adição. "O próprio marketing dessas apostas devia estar regulado para não ser apresentado a qualquer hora. Acabámos por não passar essa mensagem".

Manuel Cardoso alerta para o que poderá vir a tornar-se um problema: os eSports. Os jogos desportivos online estão a ter cada vez mais adeptos e o facto de os jogadores passarem muito tempo sentados pode trazer consequências ao nível físico. "Tem de haver um trabalho preventivo, no mínimo informativo para que não haja consequências negativas. A dependência do ecrã é um problema que temos de trabalhar", conclui.

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