O paraquedista que voltou da missão mais perigosa de sempre e conta como foi

"Não trazemos taças nem medalhas, mas o respeito e admiração", disse ao DN o tenente-coronel paraquedista João Bernardino, no seu último dia na República Centro Africana, onde está há seis meses. Acredita que os portugueses fizeram a diferença naquele país, preservando "o direito à vida de quem só por si não tem capacidade de se defender"

O Tenente Coronel regressa de uma missão que foi, provavelmente, das mais perigosas dos últimos tempos, com quase duas dezenas de ataques aos nossos militares. Teve medo de morrer na República Centro Africana (RCA)?
O treino dos militares é orientado para poderem estar o mais preparados possível para situações de combate onde a hipótese de se ser ferido ou morto é uma constante. Como paraquedista sempre que salto em paraquedas tenho receio, medo, sim é verdade, mas o treino, a coesão e camaradagem entre nós, faz-nos enfrentar esses receios. Como comandante obviamente que tive receio de poder a vir a ter baixas durante os 6 meses de missão. Não senti grande receio pessoal, mas isso deve-se à responsabilidade de ter 158 militares que dependem das minhas orientações e decisões. Principalmente devido aos intensos e variados contactos que tivemos com os elementos de grupos armados. Outro receio foi os militares poderem apanhar malária pois é uma das doenças responsável por elevadas baixas na RCA.

Como é que se motivam os militares para situações destas de alto risco? Há quem queira desistir?
Os militares em geral e os paraquedistas em particular, como tropa especial, são treinados para enfrentar este tipo de situações e sobreviver no campo de batalha, transformar as fraquezas em forças e vencer. Disciplina, treino e motivação foram os pilares em que os militares da 3ª Força Nacional Destacada Conjunta se baseou para a sua missão ao longo dos 6 meses de treino em Portugal. Depois, acrescentou-se a flexibilidade, a adaptabilidade e a resiliência durante os meses em operações na RCA, como Força de Reação Rápida de MINUSCA. A coesão, a camaradagem, o espírito de corpo e de apoio mútuo, foram fatores responsáveis para que nenhum militar quisesse desistir da missão, mesmo nos momentos mais complexos e difíceis que vivemos.


Num tempo em que se tem falado muito na dificuldade de recrutamento para as Forças Armadas, como podem estas missões motivar os nossos jovens?
Os jovens necessitam de referenciais. Todos nós necessitamos. As Forças Armadas são um fator de coesão do povo de uma nação. Não conseguimos separar a história de Portugal da nossa história Militar. Há valores que a instituição militar é o fiel depositário: lealdade, disciplina, camaradagem, coesão, espírito de corpo, honra, dever. Todos eles são incentivados e aplicados no nosso dia-a-dia para que possamos exercer a nosso missão com proficiência em nome de Portugal e de todos os portugueses. Nas Forças Nacionais Destacadas os militares portugueses têm demonstrado o seu valor, com muita dedicação e profissionalismo e, ao mesmo tempo, nas missões de apoio à paz, a sua capacidade de interagir e de relacionar com as pessoas que têm como missão proteger. Não trazemos aos portugueses taças nem medalhas, mas o respeito e admiração, e demonstramos o orgulho de ser português. Colocamos o nosso sangue, suor e lágrimas no cumprimento das tarefas que nos são confiadas, porque um dia jurámos que cumpriríamos a nossa missão mesmo com o sacrifício da própria vida. Felizmente não foi necessário nesta missão.
Conhecer outras gentes e terras, aventura, poder confraternizar com outras pessoas, conhecer outras realidades, faz parte da nossa idiossincrasia como portugueses. São bons motivos para que os jovens ingressem nas Forças Armadas.

Qual foi para si o momento mais difícil destes seis meses de missão? O momento que não apaga da sua memória...
Tive alguns. Não na altura em que é necessário tomar decisões complexas e das quais poderão resultar baixas. Nessas alturas o treino e a disciplina tomam conta de nós e reagimos de acordo com o que calculamos ser melhor de acordo com as circunstâncias. Mas depois, quando a tensão passa e refletimos sobre o que efetivamente se passou, aí temos aquele "click" que nos alerta para as decisões tomadas e temos a perceção que não dominámos todas as variáveis da equação e que podia ter corrido menos bem em alguns casos. Mais marcante, a Operação Sukula no 3º distrito em Bangui quando fui informado pelo rádio, durante a parte mais intensa da operação - em que o comando e controlo são essenciais e o Comandante tem que ter todos os seus sentidos devidamente apurados - de que um nosso militar tinha sido ferido, mas felizmente sem gravidade. Também aquele dia tivemos 11 contactos com elementos dos Grupos Armados na cidade de Bambari.

Como foi o convívio com a população?
Muito cordial, amigável e afável. Exceto com alguns elementos da população (felizmente muito poucos) que apoiavam os elementos dos grupos armados. Durante a nossa preparação em Portugal, fizemos uma campanha de solidariedade em que recolhemos material escolar e equipamento desportivo para trazermos para a RCA. Queríamos que fosse distribuído nas escolas, para que os jovens pudessem ter melhores condições e desviá-los da adesão aos grupos armados, pois um dos nossos maiores receios era ter que enfrentar "meninos armados". Começámos com uma campanha na Região de Tomar, local onde estamos aquartelados, no Regimento de Infantaria 15, mas rapidamente espalhou-se por todo o país devido às redes sociais. Foram muitas as entidades, coletividades e cidadãos anónimos que aderiram à campanha o que fez com que tivesse sido um sucesso. Trouxemos muito equipamento material escolar e desportivo ( 750 Kg) o que nos permitiu fazer várias campanhas de entrega nas escolas e coletividades, na cidade de Bangui e fora dela (8 ações) onde a situação é ainda mais critica, e portanto transportar um pouco do calor humano , carinho e solidariedade do povo português para as pessoas da RCA. Conseguimos doar material a cerca de 2.000 jovens. Foi muito bom para os nossos militares.

Que género de recordações acha que estas pessoas vão ter dos militares portugueses?
Das pessoas que ajudámos a proteger, os mais indefesos e carenciados, vão ter um sentimento de agradecimento, de respeito e gratidão para com os portugueses. Por parte das entidades governamentais da RCA e da MINUSCA, parte civil e militar, fruto do profissionalismo da nossa maneira de ser, executada por todos os militares que compuseram os contingentes portugueses que cumpriram missão na RCA, os portugueses são reconhecidos e muito respeitados, posso mesmo dizer admirados.

Sente que fizeram a diferença para aquela população?
Claro que sim. Sem dúvida, preservámos o mais alto valor da humanidade, o direito à vida de quem por si só não tem capacidade de se defender.

E como vai ser agora o regresso? Depois de terem passado por tantas situações complexas e perigosas, o que mais querem fazer os militares?
Regressar para junto das famílias e amigos. O regresso tem sido preparado com muita atenção e cuidado. Fruto das experiências de outras missões como Forças Nacionais Destacadas, as Forças Armadas e em particular o Exército, têm hoje um conjunto de experiencia adquirida que lhe possibilita por exemplo o envio de elementos do Centro de Psicologia Aplicada do Exército que durante as ultimas três semanas têm preparado os militares para o seu regresso a Portugal.

E o tenente-coronel do que mais sente falta? Qual é a primeira coisa que vai querer fazer?
Do carinho da família. Embora hoje as tecnologias e as capacidades técnicas que Portugal coloca à nossa disposição durante a missão nos aproxime dos nossos entes queridos, diminuindo ou pelo menos fazendo parecer diminuir a distancia entre nós e os nosso familiares e amigos, mas não é a mesma coisa. Confesso que sinto falta do mar, do cheiro a maresia. A RCA está no centro de África sem qualquer contacto com o mar.

Voltaria outra vez?
Depende: da missão, da tarefa, do grupo de trabalho. Considero que o sucesso da 3ª Força Nacional Conjunta deve-se em primeira instância ao excelente grupo de pessoas que me acompanharam. Grupo coeso, amigo. Pessoas sempre disponíveis e na dobra para se ajudarem mutuamente nos momentos difíceis e decisivos. Foi uma honra e um elevado privilégio ter sido abençoado por poder liderar este grupo de militares que tendo como base o 1º Batalhão de Infantaria Paraquedista e portanto Paraquedistas, com quem já trabalho à algum tempo, ter recebido militares especialistas em áreas cruciais para o sucesso da missão, que rapidamente souberam adaptar-se com a restante Força, tendo sido bem recebidos e acarinhados pelos "Páras". Honra-se a pátria de tal gente.

22 anos em teatros de guerra

O Tenente-coronel João Francisco da Costa Bernardino nasceu em Luanda, Angola, e tem 51 anos. Entrou no Exército em 1987, na Escola Prática de Infantaria, tendo ingressado na Academia Militar em setembro de 1989, obteve a licenciatura em Ciências Militares do Curso de Infantaria no ano de 1994.

A sua primeira missão foi em 1996 na Bósnia e Herzegovina, onde participou na missão IFOR /SFOR. Em setembro de 1999 foi colocado no 1º Batalhão de Infantaria Paraquedista nas funções de oficial de Informações. Foi oficial de Informações na Missão UNTAET em Timor-Leste entre fevereiro a agosto de 2000.

Entre 2000 a julho de 2002 assumiu o Comando da 11ª Companhia de Paraquedistas do 1º Batalhão de Infantaria Paraquedista, sendo projetado para o Teatro de Operações do Bósnia e Herzegovina (missão SFOR) .

Entre agosto de 2006 a fevereiro de 2007 assumiu funções como Oficial de Ligação e Chefe do Centro de Operações Tático para a missão QRF/ISAF no Teatro de Operações do Afeganistão.

No ano seguinte, 2008, voltou ao espaço europeu, tendo sido colocado no 1º Batalhão de Infantaria Paraquedista, como Oficial de Ligação para a missão KFOR, no KOSOVO, onde voltou a estar entre setembro de 2010 a fevereiro de 2011.

Foi de novo em missão para o Teatro de Operações do Afeganistão, nas funções de Officer Advisor Team, no 8º Contingente Nacional ISAF, no período compreendido maio de 2014 a novembro de 2014;

Desde 19 de dezembro de 2016, assumiu as funções de Comandante do 1ºBatalhão de Infantaria Paraquedista.

Foi distinguido com três medalhas NATO: pelos serviços prestados na IFOR e SFOR na Bósnia e Herzegovina, na International Security Assistance Force (ISAF) no Afeganistão e no teatro de operações do Kosovo. Tem ainda uma medalha das Nações Unidas, pelos serviços prestados à Administração Transitória das Nações Unidas em Timor-Leste (UNTAET) e condecorações estrangeiras - uma italiana e outra francesa - relativa à sua missão no Afeganistão.

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