Fogo em Monchique agravou-se e obrigou a deslocar mais habitantes

O incêndio que há mais de 24 horas lavra na Serra de Monchique agravou-se durante a tarde, obrigando à deslocação de mais habitantes, embora as autoridades ainda não consigam avançar quantos

O presidente da autarquia, Rui André, disse à Lusa que existem alguns aglomerados populacionais situados junto à zona onde lavra o incêndio com habitações em risco, mas também não precisou quais, adiantando apenas que um casal de idosos foi deslocado para a escola EB 2,3 de Monchique.

Segundo a Proteção Civil, o incêndio obrigou hoje a deslocar cerca de 100 pessoas para "locais de segurança", 29 no concelho de Monchique e as restantes em localidades do distrito de Beja afetadas pelo fogo.

O Comandante Distrital de Operações de Socorro (CDOS) de Faro, Vaz Pinto, fez pouco depois das 20:00 um ponto de situação do incêndio e explicou que a retirada dessas pessoas foi apenas "feita por precaução" e cumprindo o objetivo estratégico de proteger primeiro vidas.

A mudança de direção do vento está agora a propagar o incêndio para sul, na direção da Estrada Nacional 266, que liga Monchique a Odemira, no Alentejo, à beira da qual estava instalado o Posto de Comando das autoridades, entretanto deslocado para as proximidades do centro da vila.

Segundo o presidente da autarquia, durante a manhã, o combate "estava a evoluir favoravelmente", mas as circunstâncias alteraram-se durante a tarde, com as altas temperaturas e o aumento da intensidade do vento, o que está a dificultar as operações de combate.

Às 19:00, o incêndio, que deflagrou às 13:30 de sexta-feira, continuava a ser combatido por 719 operacionais, apoiados por 193 viaturas e sete meios aéreos.

Na sexta-feira, as autoridades procederam, por precaução, à retirada de alguma população de zonas afetadas pelo incêndio, primeiro no sítio das Taipas, e depois, ao início da madrugada, deste sábado, na Foz do Carvalhoso.

O incêndio já consumiu uma área de cerca de mil hectares e há ainda zonas inacessíveis a meios terrestres.

Face à dimensão do incêndio, o Plano Municipal de Emergência de Monchique foi ativado.

Prioridade é deslocar as pessoas "com muita antecedência"

O incêndio continua a com "duas frentes ativas, uma delas totalmente dominada e em ações de consolidação de extinção e vigilância", e a "outra muito ativa, que lavra numa zona inacessível a meios terrestres" e onde "os meios aéreos são pouco eficazes", por se tratar de um "vale encaixado" em que as descargas de água não são totalmente eficazes, precisou.

Durante a tarde, as equipas de combate depararam-se com "instabilidades atmosféricas muito fortes, que originaram várias reativações em todo o perímetro do incêndio", mas "a maioria foi rapidamente extinta", disse ainda o comandante distrital.

Vaz Pinto frisou que na zona inacessível aos meios terrestres, "houve projeções a muita distância" e "o incêndio tomou ali comportamentos muito evolutivos" que dificultaram os trabalhos e obrigaram a retirar as pessoas.

As pessoas retiradas de casas no concelho de Monchique foram levadas a escola E.B 2.3. de Monchique, precisou o presidente da Câmara, frisando que há três casos de pessoas acamadas que foram para a Santa Casa da Misericórdia local.

Vaz Pinto garantiu que as equipas de socorro estão a "deslocar as pessoas muito antes de o incêndio chegar" perto das suas povoações e que a "prioridade é deslocar as pessoas preventivamente com muita antecedência".

Durante a tarde, o vento muito forte tornou "impossível debelar a situação", mas Vaz Pinto disse que o plano estratégico de combate está definido e adiantou que pode haver durante a noite "algumas janelas de oportunidade que estão a ser estudadas a analisadas em conjunto com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera" para decidir a melhor forma de atuação e poder ajudar a debelar o incêndio.

A chuva que se faz sentir em algumas zonas do Algarve não animou o Comandante Operacional, que lamentou: "Chove aqui, mas no local do incêndio não está a chover".

Vaz Pinto não disse não ter dados sobre a quantidade de área ardida, mas afirmou que é já "muito maior" do que os 1.000 hectares que tinham sido reportados no ponto de situação do final da manhã.

O secretário de Estado da Proteção Civil, Artur Esteves, participou no ponto de situação depois de, durante a tarde, ter estado no terreno e disse que se deslocou à zona do incêndio para "acompanhar os técnicos" e manifestar o "apoio institucional" do Governo.

"Quero sublinhar a excelente articulação de todas as entidades no terreno, superiormente dirigidas pelo comandante Vaz Pinto, quero também destacar o trabalho da Câmara Municipal e do senhor presidente da Câmara", afirmou o governante.

Artur Neves destacou o trabalho das múltiplas entidades envolvidas na operação, considerou que a "coordenação é fundamental para que eventos complexos como este" e disse "confiar no trabalho dos técnicos que estão no terreno".

O governante alertou que houve hoje, pelo país, "várias ignições por trabalhos no campo, que estão totalmente proibidos" por causa dos alertas lançados pelas autoridades devido ao calor extremo que se faz sentir.

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