"Existe uma zona mais perigosa do que todas as outras"

De norte a sul do país, são muitas as zonas em risco de arder. De fora só ficam as zonas que arderam no ano passado, porque até as que foram devastadas em 2017 já podem arder novamente. Mas é factual: há distritos com menos risco de incêndio do que outros. Especialistas explicam porquê.

Este ano já arderam mais de 18 mil hectares de floresta. Só no fim de semana, com o incêndio que deflagrou em Vila de Rei e se estendeu a Mação, o país perdeu 9631 hectares de floresta, quase metade do que tinha perdido desde o início do ano, que estava abaixo da média anual.

Mas o verão ainda não terminou e são vários os fatores que contribuem para o risco de incêndio, como as condições climatéricas e aquilo que os especialistas designam como o capital de combustível - vegetação e material lenhoso.

Não importa se há zonas que há muito não ardem e que podem ser uma preocupação, como as as serras do Caldeirão, que ardeu em 2003 e está completamente regenerada, e a da Malcata, que ardeu na década dos anos de 1980. O que importa é que estas, que são de facto zonas com grande capital de combustível, tenham fatores de descontinuidade. Ou seja, fatores, elementos, mecanismos, que permitam travar um fogo quando deflagra, quer seja através de vigilância apertada, quer seja pela limpeza das matas.

Na verdade, "qualquer área do país está em risco de arder. As que correm menor risco são as que arderam no ano passado, porque até as áreas ardidas em 2017 já estão em risco de novo, porque os eucaliptos já cresceram", responde prontamente o engenheiro florestal João Branco, dirigente da Quercus. E reforça: "Há muitas áreas em risco de arder e nas quais podem ocorrer incêndios de grande perigosidade - ou seja, que podem provocar danos elevados. Estas áreas estão espalhadas por todo o lado".

Perigo maior na faixa litoral norte e centro

No entanto, reconhece,"existe uma zona mais perigosa do que todas as outras". O engenheiro florestal fala da faixa de 100 quilómetros ao longo da costa, mas para o interior, que abrange a zona norte e centro do país. "Apesar de ser uma zona mais húmida é também onde a vegetação cresce mais, onde há mais zonas de eucaliptos e também mais pessoas".

Aliás, um dado adquirido, apesar de os fogos serem um fenómeno complexo, é o facto de fogos estarem mais associados a zonas mais povoadas. As zonas despovoadas, como o Alentejo, sobretudo o Baixo Alentejo, têm sido poupadas aos fogos.

Um dado adquirido, apesar de os fogos serem um fenómeno complexo, é o facto de estarem mais associados a zonas mais povoadas. As zonas despovoadas, como o Alentejo, sobretudo o Baixo Alentejo, têm sido poupadas.

Por exemplo, refere este especialista, se compararmos esta região do sul com toda a faixa da zona centro que abrange os concelhos de Castelo de Paiva, Penacova, Viseu e até Coimbra, percebe-se que estes últimos correm maior risco de incêndio. Porquê? "Por que têm uma grande carga de combustível (vegetação e lenha), pois quanto mais combustível existe mais há risco de arder e maior é a energia libertada. E quanto mais energia é libertada mais o incêndio se torna perigoso e com o risco de se propagar a outras zonas", explica.

O incêndio deste fim de semana, que deflagrou durante três dias e de forma descontrolada, tendo sido dado como extinto só esta terça-feira, atravessou dois distritos, indo de Vila de Rei, Castelo Branco, até Mação, Santarém. O mesmo aconteceu em 2017, com os fogos que começaram em Pedrógão Grande e foram até Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos. Aqui, as chamas galgaram estradas pela energia libertada e pela projeção, devido ao vento.

Braga, Porto, Lisboa e Setúbal com menos risco

Mas, segundo João Branco, há de facto distritos que correm menor risco de incêndio. O engenheiro enumera Braga, Porto, Lisboa e Setúbal. O primeiro até pode causar estranheza estar neste lote, mas é assim por ser "um distrito com muita agricultura, em que os campos estão limpos, e onde existe grande descontinuidade, o que pode travar um incêndio assim que ele deflagra."

As áreas que têm uma carga de combustível elevada, como muita vegetação e madeira, elevado índice de secura e falta de limpeza, sem qualquer tipo de descontinuidade, como campos agrícolas, estão em risco de arder.

Porto, Lisboa e Setúbal integram este lote de menor risco por serem distritos mais urbanos. "Até podem registar focos de incêndio, mas quase sempre são de pequenas dimensões, porque são distritos com áreas de floresta, mas onde há grande descontinuidade."

O engenheiro refere ainda o distrito de Aveiro como sendo um dos que se encontra dividido entre o baixo risco e o risco elevado. "Se pensarmos na área de Estarreja, tem baixo risco, mas se olharmos para os concelhos de Arouca e de Águeda o risco já é elevado, por haver grande capital de combustível e pouca descontinuidade".

Os distritos de Bragança, Vila Real, Viana do Castelo ou outros da zona Centro, como Leiria e Castelo Branco, que têm zonas que recorrentemente são fustigadas com fogos, integram à cabeça o grupo das áreas com risco mais elevado.

O dirigente da Quercus relembra que todas as áreas que têm uma carga de combustível elevada, como muita vegetação e madeira, elevado índice de secura e falta de limpeza, sem qualquer tipo de descontinuidade, como campos agrícolas, estão em risco de arder.

Não há que enganar: "Tudo arde se não houver forma de descontinuar ou travar um fogo", dizem os especialistas.

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