"Hoje, viver na floresta significa correr risco de vida. Chega"

O presidente da câmara de Monchique, Rui André, diz que, agora que os políticos saíram, começou o dia zero da reconstrução da sua terra

Destes sete dias de incêndio, qual é a memória mais forte que vai guardar?

Há duas coisas que nunca me esquecerei. Uma é o momento em que as chamas chegam pela primeira vez ao perímetro urbano da vila. Aquela aflição das pessoas, aquela sensação de que estava a assistir a algo inimaginável. Depois houve o momento em que passei pela primeira vez pela estrada nacional 266 para visitar as aldeias afetadas. Um vento terrível, as chamas ao fundo, um cenário de apocalipse, com árvores queimadas e a terra fumegar. É uma coisa de filme, não da realidade - e muito menos na nossa terra.

Calculava há dois dias 10 milhões de euros de prejuízos diretos. Nos últimos dias foi visitado pelo primeiro-ministro e pelo Presidente da República. Teve as garantias de que precisava?

Estes dez milhões são para as coisas básicas, as emergências. Recuperar casas, placas sinaléticas, contentores de lixo e estradas. Não estou a contabilizar nestes valores as perdas que as pessoas sofreram. Nos últimos dias tivemos aqui políticos, jornalistas, representantes de tudo e mais alguma coisa. Mas hoje é o primeiro dia de solidão, é o dia zero em que começa o processo da cura. Espero que não seja um processo solitário, que consiga ter acesso a reuniões urgentes e eficientes com as várias pastas do governo. Sobretudo, espero que deixem lá fora a habitual mochila de burocracia. O incêndio de Monchique foi um acontecimento excecional, então merece medidas excecionais também.

Qual é agora a prioridade?

Claro que temos de cuidar dos problemas emergentes das pessoas, mas para mim o mais importante agora é criar um plano de restruturação da serra de Monchique. Quero juntar-me com os municípios vizinhos para concertarmos os esforços. Hoje, viver na floresta significa correr perigo de vida. E chega, isto não pode continuar a ser assim.

Mas esse discurso existiu depois dos incêndios de 2003 e 2016. E não resultou.

Depois disto, penso que toda a gente tem a noção de que esta é a última oportunidade para a serra.Temos de diversificar a nossa floresta, apostar em espécies autóctones resilientes aos fogo. Não podemos continuar a explorar uma monocultura porque as consequências estão à vista. Há eucaliptais ordenados, sim, mas também os há nas margens dos ribeiros, nos lugares dos medronhais. Isto tem de ser travado. Se for preciso, arrancaremos eucaliptos.

O seu concelho tem 500 produtores florestais, quase todos de eucalipto. Como é que os vai convencer a arrancar árvores?

Não o quero fazer sozinho, um plano destes tem de envolver todos os municípios da serra e as autoridades centrais. Mas, depois deste fogo, estou disposto a ir até às últimas consequências. Ainda para mais, este é o meu último mandato à frente da autarquia. Não me importo de tomar medidas impopulares, se elas significarem que o povo pode viver seguro na floresta.

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