Hells Angels. "Foi uma machadada na organização do grupo", diz PJ

PJ diz que os crimes alegadamente cometidos pelos 56 membros detidos "não tiveram motivação político-ideológica", mas confirma que o grupo motard tem muitos skinheads

"Foi uma machadada na organização do grupo", sorriu Manuela Santos, a coordenadora da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária (PJ), que esteve ao comando da megaoperação esta quarta-feira contra os motards Hells Angels, no âmbito da qual já foram detidos 56 pessoas.

Em conferência de imprensa esta tarde na sede da PJ, esta responsável, que tinha ao seu lado o novo Diretor Nacional da PJ, Luís Neves, revelou que os detidos estão indiciados por vários crimes graves e violentos, como tentativa de homicídio, ofensas graves à integridade física, posse ilegal de armas, roubo, danos e associação criminosa. A investigação, afirmou Luís Neves, teve o apoio dos Serviços de Informações de Segurança (SIS) , que já tinham identificado esta "ameaça à segurança", da GNR e da PSP.

Questionada sobre as ligações dos Hells Angels à extrema-direita, Manuela Santos assinalou que os crimes visados nesta operação específica "não tiveram motivação político-ideológica". No entanto, confirmou que há alguma ligação entre os Hells Angels e extrema-direita, pelo facto de "muitos dos seus elementos também pertencerem a grupos de skinheads".

Os detidos têm idades entre os 30 e os 50 anos e entre eles estão cinco estrangeiros, nomeadamente alemães e um finlandês. As autoridades também emitiram vários mandados de captura europeus e são esperadas mais detenções de elementos visados nos mandados de detenção, mas que não se encontram de momento em Portugal.

Entre os detidos, disse a coordenadora, há pessoas que pertencem a empresas de segurança privada, mas nenhum elemento de forças de segurança.

"É uma questão de liberdade"

"É uma questão de liberdade", assinalou Luís Neves logo na abertura da conferência de imprensa: "A Polícia Judiciária nunca o permitirá que a liberdade não seja um acento tónico em qualquer ponto do território nacional". No final do encontro com os jornalistas, Luís Neves salientou que os Hells Angels estavam a adquirir, pela violência, supremacia entre os grupos motards e, "coagindo-os" a criar "um clima de terror e medo". Nesse sentido, "foi restituída a liberdade a todos os grupos que se estavam a sentir condicionados para que possam continuar a participar livremente e sem medos os seus convívios".

A PJ admitiu que a realização, nos próximos dias 19 a 22 de julho, da concentração de motards em Faro acabou por acelerar esta operação. "Não seria bom haver esta oportunidade para mais conflitos", afirmou Manuela Santos. A responsável revelou que os Hells Angels são alvo de atenção da PJ "há vários anos", com diversos inquéritos abertos, mas que foi o caso do Prior Velho "a primeira manifestação tão poderosa e em força como associação criminosa. Foi a primeira vez que 100 elementos atuaram em grupo com o objetivo comum de eliminar a concorrência".

Este episódio aconteceu em março passado, num restaurante daquela localidade. Estavam ali reunidos membros dos "Bandidos", outra organização de motards que pertence aos fora-da-lei "Bikers 1%" e são rivais dos Hells Angels, a preparar a criação de um clube em Portugal. À cabeça estava Mário Machado, que tem um historial de conflitos com os Hells Angels, do tempo em que liderava a fação mais violenta dos "cabeças rapadas" no nosso país, os Portuguese Hammerskins.

Acabado de sair da prisão, em liberdade condicional, depois de condenado por vários crimes graves (extorsão, agressões, posse ilegal de arma), o também fundador do movimento Nova Ordem Social, que foi candidato à liderança da Juve Leo, reuniu os "Bandidos" para criar um núcleo português e conquistar território aos negócios dos Hells Angels. Um dos seis feridos pelas alegadas agressões seria um alemão, líder dos Bandidos naquele país, que, contou o Correio da Manhã, ali se encontrava para apadrinhar o evento.

Manuela Santos afiançou que os Hell Angels estão instalados em Portugal desde 2002 e que tem sido acompanhado pela PJ desde sempre. "É um fenómeno que tem vindo a crescer em número de pessoas e em manifestações mais violentas", sublinhou a coordenadora da UNCT.

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