"Retaliação ou vingança". O que se sabe sobre o atropelamento na Moita

Autoridades suspeitam que o homem que atropelou um grupo de jovens durante as festas da Moita, este sábado, e que resultou na morte da irmã de Yannick Djaló, uma jovem de 17 anos, o fez propositadamente, após desacatos num bar

Açucena Patrícia, de 17 anos, irmã mais nova do futebolista Yannick Djaló, estava com um grupo de amigos a participar nas Festas da Nossa Senhora da Boa Viagem da Moita. Já regressava a casa quando foi colhida por um carro que furou a barreira de segurança da rua e levou à frente várias pessoas que se encontravam na travessa do Açougue. A adolescente morreu ainda a caminho do hospital, pouco passava das duas da madrugada deste sábado. A GNR coloca a possibilidade do atropelamento ter sido intencional. O suspeito, um jovem de 21 anos, está preso preventivamente.

O condutor do carro que partiu para cima do grupo de jovens está "indiciado em doze crimes: um de condução perigosa; dez de homicídio qualificado na forma tentada e um de homicídio qualificado". Onze pessoas estavam a passar na travessa do Açougue, cortada ao trânsito, "é esse o número de crimes [de homicídio] dos quais o suspeito está indiciado", confirmou ao DN o Major Carocha Gonçalves, do Comando Territorial da GNR de Setúbal.

"Sabemos que houve desacatos anteriores [nas imediações de um bar] que envolveram esses indivíduos, mas é demais dizer que eram grupos rivais e que foi um ajuste de contas. O relatos das testemunhas levam-nos a crer que poderá ter sido uma retaliação ou uma vingança", disse a mesma fonte, que não confirma que o suspeito estivesse alcoolizado, embora relatos de testemunhas o indiquem. "Fez os testes para álcool e substâncias psicotrópicas no hospital, mas os resultados ainda não estão disponíveis", revelou Carocha Gonçalves.

O Major disse ao DN que "acontecem sempre desacatos durante as festas, mas nunca com esta gravidade".

Na Tailândia, onde se encontra a jogar no Ratchaburi Mitr Phol Fc, clube da primeira liga do país, Yannick Djaló reagiu em choque à morte da irmã. "Minha Açu... palavra nenhuma consegue descrever a dor que sinto e quão pesado está o meu coração... minha Açu... minha menina", escreve Yannick Djaló na sua página de Instagram.

Numa outra publicação, a 1 de agosto, quando Açucena completou 17 anos, Djaló dizia que a irmã tinha "um caráter incrível", que o enchia "de orgulho", de "todas as vezes" que pensava nela.

Após o atropelamento e ainda durante o dia de sábado, 15 de setembro, o Comando Territorial de Setúbal, através do Destacamento Territorial do Montijo, emitiu um comunicado onde revelava ter detido em flagrante "um homem de 21 anos por ter atropelado um grupo de pessoas no recinto das festas da Moita, o que resultou na morte de uma jovem de 17 anos".

GNR foi obrigada a proteger suspeito do atropelamento mortal

A nota contava como, cerca da 1H50, "um condutor avançou a alta velocidade por um arruamento de acesso às referidas festas, tendo embatido violentamente nas guardas de madeira de proteção, utilizadas para as largadas de touros, as quais não impediram que o veículo colidisse com as vítimas, provocando cinco feridos leves e uma vítima mortal".

No comunicado, é ainda descrito que o condutor tentou fugir, mas os militares da GNR que se encontravam nas imediações evitaram a fuga. A GNR foi obrigada a criar um perímetro de segurança, uma vez que dezenas de pessoas que assistiram ao atropelamento tentaram fazer justiça pelas próprias mãos, como confirma a GNR.

O condutor da viatura que investiu contra o grupo já tem cadastro na polícia e foi presente, na manhã deste domingo, a 1º interrogatório judicial, no Tribunal Judicial do Barreiro, tendo-lhe sido aplicada a medida de coação de prisão preventiva.

Esta segunda-feira o Ministério Público irá nomear a força que irá investigar o atropelamento, se a GNR ou a Polícia Judiciária.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.