Quem é o ex-padre que faz exorcismo em Fátima e foi detido por violação

Segundo a PJ, a atividade de exorcista do arguido era amplamente divulgada.

Um homem de 79 anos é suspeito de se ter aproveitado de um suposto exorcismo para violar uma mulher em Fátima. O ex-padre foi detido pela Polícia Judiciária e é também investigado pela eventual prática do crime de burla qualificada. Segundo fonte da polícia, o homem é conhecido como padre Gama.

Em comunicado, a PJ revela que o crime de violação terá ocorrido na quarta-feira. "O arguido, aproveitando a sua atividade de exorcista e explorando a fragilidade da vítima, especialmente vulnerável, constrangeu-a à prática de atos sexuais de relevo, após a ter colocado na impossibilidade de resistir." A vítima foi levada para o hospital, onde foi assistida.

O ex-padre que foi candidato autárquico

Não é a primeira nem a segunda vez que o "padre" Gama é acusado de abusos sexuais a mulheres durante sessões de supostos exorcismos, tendo sempre negado qualquer agressão - as primeiras queixas conhecidas remontam a 2004. Ao longo destes 14 anos o famoso ex-padre, afastado pela Igreja católica, continuou sempre a dar consultas em vários pontos do país, começando por Fátima.

Marcelino Humberto Gama, que segundo a PJ faz-se "ainda passar por padre", chegou mesmo a ser ordenado sacerdote em 1965, tendo pertencido à Congregação Marianos da Imaculada Conceição. Sete anos depois foi afastado, "por motivos graves", segundo a Igreja, quando se encontrava em Inglaterra, ao serviço daquela instituição. Continuou, no entanto, a usar as vestes sacerdotais - a vestir o cabeção (o colarinho branco) à volta do pescoço - e praticar ritos religiosos, algo que em 2011 a diocese de Leiria-Fátima considerou abusivo. Costumava também exibir uma foto com o Papa João Paulo II, para mostrar a sua legitimidade.

Mas a história deste antigo padre, também conhecido por Doutor Gama, começa no final da década de 30 do século passado em Trás-os-Montes. Tem direito a uma entrada no Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses, onde se pode ler que nasceu em Mascarenhas, concelho de Mirandela, "de um lar com grandes dificuldades".

Estudou no seminário, tal como o irmão mais novo José Gama, e chegou a ser ordenado. Depois do afastamento foi para os Estados Unidos, onde diz ter sido professor, e quando voltou ainda tentou uma carreira na política: foi candidato à Câmara de Mirandela no início dos anos 90, na altura como candidato independente do PS, tendo perdido para o irmão. Voltou a concorrer à presidência de uma câmara anos depois, mas desta vez em Murça e pelo CDS, duas vezes.

A certa altura começou a receber pessoas para fazer exorcismos, tendo estas histórias dado a origem a pelo menos um livro e algumas reportagens, que lhe deram notoriedade.

Em 2004 o seu nome é ensombrado por queixas de abusos, de duas mulheres e outra novamente em 2006. O Público escrevia na altura que as queixas pareciam tiradas a papel químico: depois de uma série de "consultas" iniciais para diagnosticar o problema, o tratamento teria culminado com uma sucessão de "beijos na boca", "apalpões" e a introdução "de dedos na vagina", além de outros avanços. Humberto Gama nunca se revelou incomodado, quando confrontado com estas denúncias, considerando que as queixas vinham de pessoas "malucas" e que lhe mereciam "risadas".

Segundo a PJ, o detido irá ser presente a tribunal para interrogatório judicial, com vista à aplicação das medidas de coação.

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