Entre muros, reclusas veem no cinema uma janela para o mundo

Através do projeto Claraboia, a associação cultural XX Element Project leva sessões de cinema à ala feminina do Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo. No final de cada filme, debatem-se os temas abordados nos vídeos. Fala-se de violência doméstica, visitas íntimas, homossexualidade.

"Quando saímos para fora da sala, temos a noção de que estamos na cadeia. Mas, enquanto estamos aqui, é como se a realidade lá de fora entrasse cá dentro". Helena Carvalhinho, de 62 anos, está há um ano e meio a cumprir pena na cadeia de Santa Cruz do Bispo, onde assistiu na quarta-feira à visualização de quatro curtas-metragens. "Gostei, apesar de nos trazer alguma nostalgia, porque nos faz pensar fora deste contexto. Faz-nos refletir sobre o que fazemos e pensamos lá fora". Olhar carregado, conta que terá de passar mais quatro anos e meio privada de liberdade. Até lá, aproveita tudo o que lhe permite quebrar a rotina da prisão, matar o tempo. "Quero sentir-me ativa". E não esconde um carinho especial pelo cinema: "O meu filho é realizador".

É na sala dos computadores do Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, que se abrem as janelas para o mundo. São "pequenos fragmentos do cinema entre muros", promovidos pela XX Element Project, uma associação cultural que pretende divulgar o trabalho realizado por mulheres, com enfoque no cinema. Com o projeto Claraboia, a equipa espera "através do cinema, contribuir para a reeducação e para a reintegração na sociedade da comunidade reclusa". Para isso, vai promover um total de seis sessões de visualização de filmes, com um debate no final de cada uma.

O cenário pode não ser o ideal, mas apagam-se as luzes e faz-se silêncio - como no cinema. "Só faltam as pipocas", reclama uma das doze reclusas presentes na sala, provocando risos e gargalhadas. Apesar do ambiente descontraído, há quem, no entanto, nunca esboce um sorriso. Há mulheres que estão em reclusão há pouco tempo, enquanto outras não sabem o que é a liberdade há vários anos. Realidades distintas, fechadas no mesmo espaço, à espera que a narrativa cinematográfica as transporte para longe daquelas quatro paredes.

Antes do início da sessão, Rita Capucho, membro da direção da XX, apresenta o projeto e as quatro curtas que se seguem, enfatizando as "viagens" que é possível fazer através do cinema, a possibilidade "de nos colocarmos no lugar do outro". Há burburinho na sala, muita vontade de intervir, de partilhar histórias. "Podemos fazer o filme das nossas vidas? Eu já fui sequestrada, violada, vítima de violência doméstica", diz uma reclusa. Talvez venha a ser possível, como veremos mais à frente. Há outra mulher que intervém: "Eu estou a escrever um livro: Amores e desilusões. É chocante".

A agitação inicial passa assim que as luzes se apagam. Olhares fixos na tela, mãos juntas sobre o colo, as mulheres começaram por assistir a duas curtas-metragens - Prisioneiros e Celas - sobre mães reclusas. Uma temática que se reflete em semblantes sérios e até em algumas lágrimas. Mas também há interjeições carinhosas e sorrisos na plateia, sobretudo quando passam imagens de bebés. No final, discute-se a presença das crianças na prisão.

"Há a parte negativa e a positiva. Há crianças que aqui sentem mais a presença da mãe, que passa o dia com elas. Há crianças felizes aqui, que têm coisas que não tinham lá fora", diz Helena Carvalhinho. Já passou pela ala das mães, sabe do que fala. "Mas, se para nós isto é complicado, é ainda mais para as crianças. Há crianças que dizem 'eu vou de precária'. Há de tudo. Algumas vão com os pais e não querem voltar, outras voltam. Fui professora, e isto faz-nos refletir sobre o drama de ser criança".

A ideia é que haja uma reflexão sobre os temas abordados nos filmes. "Pretendemos abordar diversas temáticas através do cinema. O filme é o mote para a conversa. Ao refletir sobre o que se passa consigo e com o mundo que as rodeia, há uma maior participação e proatividade quer aquando da sua estadia no estabelecimento prisional, quer na sua inclusão na comunidade", explica Rita Capucho. Na primeira sessão, por exemplo, visualizaram o documentário "Três horas para amar", da realizadora Patrícia Nogueira, que aborda o tema das visitas íntimas - assuntos com os quais se identificam.

Alina Bernardo, terapeuta ocupacional que coordena a ação na cadeia, destaca a importância de as reclusas "se identificarem com as histórias", mas também de serem "levadas para outros contextos, outras realidades através do cinema". "Estão privadas de liberdade, mas não de pensamento", sublinha, destacando que é trabalhada "a parte cognitiva e de socialização, uma vez que estão inseridas num grupo".

"Eu revi-me neste filme"

A terceira curta é chocante - avisam as mentoras do projeto. Chama-se Índios e cowboys e é sobre uma criança que vê o pai matar a mãe, suicidando-se de seguida. Primeiro pelas expressões, depois pelos comentários, percebe-se que o tema toca várias mulheres presentes na sala. "Estou sem palavras. Eu revi-me neste filme. Estive à beira daquela situação. Só estou aqui graças a uma vizinha que chamou a polícia. E os meus filhos assistiram a tudo", conta uma reclusa, a que se encontra a escrever um livro.

Maria Gonçalves, de 57 anos, também se identifica com a história. "Só não morri", diz, com uma acentuada pronúncia do Norte. Está detida desde o dia 1 de agosto do ano passado e tem julgamento marcado para o dia 7 de maio. O que a trouxe cá? "Estou acusada de ter ateado fogo a carros, embriagada". Foi o álcool, recorda, que lhe destruiu a vida. Foi vítima de violência doméstica e, quando o ex-marido morreu, a sua vida desmoronou-se. "Perdoei-lhe tudo. Quando o vi no caixão, fiquei muito revoltada".

Maria tem cinco filhos e nove netos, mas só comunica com uma das filhas. Perdeu tudo. "Comecei a beber cada vez mais. As coisas deterioraram-se até chegar aqui". A participar num programa de desintoxicação, assume as suas fraquezas, com esperança no futuro. "Isto faz-me mulher. Até aos 56 anos, não tinha crescido, porque a minha vida foi quase só degredo". Ali, no cinema, encontrou um fuga - ainda que momentânea - da prisão. "É muito bom. Desperta o nosso lado mais criativo. Faz-nos despertar para a vida. E é bom estar com pessoas de fora".

A sessão terminou com a visualização da curta brasileira Bodas , que é sobre a prisão do casamento, a anulação em função do outro. No final, Helena Nuta, romena, de 28 anos, disponibiliza-se para falar. Conta que via muitos filmes quando estava em liberdade, pelo que as sessões na cadeia lhe trazem um pouco do que era a vida no exterior. "É muito interessante vermos estas realidades de dentro e fora da prisão", afirma. Está trancada há três anos e cinco meses, condenada por roubo. Assistir aos vídeos, trouxe-lhe recordações da filha, que não vê desde que foi detida. "Ela não sabe que estou presa. Falamos ao telefone. É difícil".

As observações das reclusas surpreendem as mentoras do projeto. "Achei que elas iam ficar mais inibidas para falar, mas participam bastante", destaca Luísa Naia, membro da XX, que organiza o Porto Femme - Festival Internacional de Cinema. Foi dela a ideia de levar o cinema à ala feminina do EP de Santa Cruz do Bispo: "Vi o caso de um comediante americano que andou nas prisões a fazer stand up e que isso melhorou imenso o comportamento das mulheres. E pensámos: Porque não levar o cinema às reclusas? São uma classe a que geralmente ninguém liga muito e é preciso apostar nelas, com vista à reinserção".

Ana Castro, que também faz parte da direção da XX, adianta que a ideia é que as realizadoras também estejam presentes nas sessões, tal como aconteceu na primeira iniciativa. Além da visualização dos filmes e dos debates, será feita uma introdução à linguagem cinematográfica. Havia um projeto para a realização de uma curta-metragem com as reclusas, mas a falta de financiamento poderá impedir que se realize. Se não avançar, não será, certamente, por falta de histórias. Nem de vontade.

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