Enfermeiros dizem que só receberam 115 mil euros de anónimos

Para acabar com suspeitas da greve ser financiada por privados, gestores do crowdfunding apelaram aos doadores para irem à plataforma PPL retirar a condição de anónimos. E muitos têm ido.

Os enfermeiros angariaram através do crowdfunding 784 mil euros para financiar os custos da greve no bolso de cada profissional que decida paralisar. Mas, deste bolo, só 115 mil euros (14,6%) foram doados de forma anónima, segundo os gestores do fundo solidário.

Os enfermeiros pediram a quem os quisesse ajudar um mínimo de 20 euros para conseguir dinheiro que pagasse 42 euros diários de salário ou complemento aos grevistas. Os montantes estabelecidos nos dois crowdfunding foram sempre ultrapassados - o donativo mais elevado foi de 2 700 euros, doado por enfermeiros de um serviço que se decidiram juntar.

As contribuições que inicialmente foram feitas de forma anónima têm vindo a diminuir desde que na madrugada de sábado os enfermeiros pediram que os doadores fossem à plataforma PPL, onde está alojado o crowdfunding, alterar essa condição. No final desta segunda-feira, pelo menos, 1500 pessoas tinham ido ao site colocar os seus dados, perdendo assim o anonimato.

Quanto deram os anónimos?

Com isto, os enfermeiros querem pôr cobro às suspeições de que a greve cirúrgica - que já levou o governo a decretar a requisição civil e que um dos sindicatos pedisse para o tribunal a invalidar - estaria a ser financiada por grupos privados da área da saúde. A forma de financiamento da greve está também a ser investigada pela ASAE.

Na primeira greve aos blocos operatórios - que decorreu entre 22 de novembro e 31 de dezembro de 2018 - os enfermeiros conseguiram angariar 360 mil euros através do crowdfunding, 61 mil euros foram doados por anónimos. Nesta greve, havia 2983 contribuinte anónimos nas na segunda-feira à noite eram 2297.

Na paralisação que começou a 31 de janeiro e se prolonga até 28 de fevereiro, os donativos de contribuintes anónimos ficou-se pelos 54 mil euros, segundo Catarina Barbosa uma de cinco enfermeiros que gere o crowdfunding. Neste caso, o número de anónimos desceu de 2318 para 1438.

A ironia sobre a origem do dinheiro

Os gestores do crowdfunding garantem que os donativos têm origem sobretudo na classe, familiares e amigos. Na página de Facebook, os enfermeiros mostram através de gráficos como foi financiada a primeira greve: "Mas se dúvidas podiam existir, por ser possível brincar com o 'volume' de contribuições por parte dos privados, por exemplo se o Grupo Mello Saúde, Luz Saúde, Trofa Saúde ou Lusíadas, numa só contribuição pagassem cada um 25% do financiamento requerido, essas dúvidas serão dissipadas de seguida, com os restantes dados. O gráfico mostra o peso relativo muito reduzido que foram os contributos dos que voluntariamente ficaram como "Não Conhecidos", com menos de 17% do total, sendo os dos "Conhecidos" superior a 83%."

E ironiza com a situação: "Portanto estes financiadores privados não foram lá muito generosos nem muito menos decisivos!"

O PS já anunciou, pela voz de João Paulo Correia, que iria encetar um processo de diálogo com outras forças políticas com vista à apresentação de um projeto que proíba fazer donativos anónimos através do crowdfunding. O vice-presidente da bancada socialista considerou essencial serem conhecidos "os interesses que existem" subjacentes ao financiamento da "greve cirúrgica" dos enfermeiros. O PSD também defende medidas de transparência sobre o crowdfunding,

E a ASAE pediu entretanto à PPL, a plataforma que aloja o crowdfunding de apoio aos enfermeiros, que forneça os dados de quem contribuiu para ajudar à greve dos enfermeiros. Mas, como o DN noticiou, a PPL decidiu, antes disso, questionar a Comissão Nacional de Proteção de Dados sobre a legalidade de dar essas informações.

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