Nazaré, a menina guineense que bebeu soda cáustica, já está no São João

Nazaré é uma das quatro crianças guineenses, com idades entre os três e os 11 anos, que chegaram hoje à ala pediátrica do Hospital de São João, no Porto, para serem tratadas

São quatro crianças da famílias diferentes e que não se conheciam até há poucos dias, não falam português - apenas crioulo da Guiné, chegaram só com a roupa no corpo, e de início até vão estranhar a comida. Um iogurte pode ser uma novidade para Nazaré (3 anos), Bidansata (4), Janice (3) e Maria Augusta (11) mas no Hospital de São João, no Porto, onde chegaram este domingo de manhã e ficarão em tratamento nos próximos meses, beneficiam de uma equipa médica e auxiliar com experiência no acolhimento de crianças e jovens da Guiné-Bissau que vêm receber tratamentos a Portugal.

Nazaré é a que chega mais debilitada. Como o DN contou, esta criança de três anos ingeriu soda cáustica há dois anos e sofre de estenose do esófago. Só consegue ser alimentada com uma sonda e, após internamento no Hospital Pediátrico de São José em Bôr, nos arredores de Bissau, poderá ter o seu problema de saúde resolvido. "Ela é a que chegou mais debilitada, está muito magra, mas esperamos que corra tudo bem, é possível a sua recuperação", contou ao DN Maria José Ferreira, enfermeira que faz parte da Missão Saúde para a Humanidade (MSH), uma organização não governamental (ONG) baseada em Aveiro que há dez anos atua na antiga colónia portuguesa.

O problema de Bandisata, quatro anos, é semelhante ao de Nazaré, deriva da ingestão de soda cáustica. "Ele está melhor e é um rapaz muito traquina, já deu para ver", conta Maria José Ferreira. As outras duas meninas têm um diagnóstico comum - problemas cardíacos que exigem cirurgia cardiotorácica.

Todo um mundo novo

Chegaram a Lisboa durante a madrugada e às 09.00 aterraram no Porto, na companhia de Solange Tchuda coordenadora das evacuações da AIDA, a ONG guineense parceira da portuguesa. Neste momento já estão na ala pediátrica do Hospital de São João. Todo um mundo novo. "Uma das nossas voluntárias, a Elsa, uma estudante de medicina guineense que está em Portugal, é importante nesta fase. Fala crioulo e é a única forma de falar com elas. A mais velha, a Augusta, sabe português mas está muito fechada e, para já, só comunica em crioulo", explica Maria José Ferreira, que nos dez anos de contacto com os guineenses já sabe algumas palavras de crioulo, o que ajuda. E depois, diz a experiência, "ao fim de algumas semanas, as crianças começam a aprender o português naturalmente."

Na bagagem não traziam nada. A MSH é que irá providenciar essa ajuda social. "Temos os pijamas, a roupa interior e tudo o que for preciso." O Estado português, através da Direção-Geral da Saúde, assegura a parte hospitalar. Os contactos com as famílias na Guiné são também garantidos pela MSH. "Enviamos relatórios para a nossa parceira e eles transmitem aos pais. Se a família tiver um telefone, também proporcionamos contactos por essa via com as crianças", diz Maria José Ferreira.

Agora é a equipa do Hospital de São João que irá avaliar as crianças. Hoje foi dias de análises e de instalação na nova casa. "A equipa do São João já tem grande experiência em receber crianças e jovens dos PALOP e sobretudo da Guiné. Na alimentação já sabem o que eles não comem e aquilo a que estão habituados. De início só gostam de arroz, sempre, e carne. Gostam de enlatados e fruta. Não aceitam sopa nem peixe. Um iogurte, seja sólido ou liquido, é uma novidade para eles. No hospital acabam por ter também uma educação alimentar, habituam-se com o tempo", explica a enfermeira que no trabalho na MSH já viu 58 crianças e jovens da Guiné-Bissau serem tratados em Portugal. "Além destes quatro há três que ainda estão cá a receberem cuidados médicos. Os outros ficaram bem e regressaram a casa. Houve dois óbitos, mas por razões que não tinham nada a ver com os problemas. Estavam bem mas foram vítimas de acidentes na Guiné."

O tempo médio de permanência em Portugal é de um ano. "O caso mais rápido foi de três meses mas já houve um de três anos. Mas, por norma, após o internamento, muitos ficam em período ambulatório no nosso centro de acolhimento. Quem decide é a equipa médica do hospital, o regresso deles à Guiné será certamente diferente para cada uma destas crianças", adianta Maria José Ferreira que passou o dia com as quatro crianças no Hospital de São João.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Brexit

"Não penso que Theresa May seja uma mulher muito confiável"

O diretor do gabinete em Bruxelas do think tank Open Europe afirma ao DN que a União Europeia não deve fechar a porta das negociações com o Reino Unido, mas considera que, para tal, Theresa May precisa de ser "mais clara". Vê a possibilidade de travar o Brexit como algo muito remoto, de "hipóteses muito reduzidas", dependente de muitos fatores difíceis de conjugar.