Cresceu e multiplicou-se. "Está tudo cheio de sardinha de norte a sul do país"

Os pescadores já andam no mar mas só a partir de junho podem lançar a rede à sardinha. Bruxelas mantém restrições, o Governo está a negociar um aumento da quota, e os armadores dizem que há muito não havia tanta sardinha no mar.

Quando voltou de Bruxelas na semana passada, o presidente da Associação Nacional das Organizações de Produtores da Pesca do Cerco (Anopcerco) demorou para digerir as notícias: "há muito que quem anda no mar está consciente de que o recurso de sardinha recuperou, como aliás nos mostram os números dos cruzeiros científicos mais recentes. Por isso não se compreende que a Comissão Europeia insista em não aumentar a quota".

A proposta da Comissão Europeia era de 10 300 toneladas. Portugal e Espanha [juntos neste mar de sardinha] contrapropuseram com 10 799, tal como revelou na semana passada o secretário de Estado das Pescas, José Apolinário. "Bruxelas propôs uma quota que permitiria a recuperação em 5% da biomassa, os dois países contrapropõem com 4,5%". Mas quem anda no mar faz outras contas: há condições para atingir as 15 mil toneladas. "E não somos nós que o dizemos, são os dados dos último cruzeiro científico", que termina esta quarta-feira, 15 de maio, tal como disse ao DN Humberto Jorge.

"Quem anda no mar vê o aumento de recurso, e percebe que os sacrifícios que fizemos nos últimos anos estão a dar frutos", acrescenta o responsável da Anopcerco. "É revoltante para as nossas embarcações pediram-nos mais sacrifícios", adianta. Humberto fala de mais de 1100 postos de trabalho diretos nas diversas embarcações, sem contar com os indiretos, que serão milhares.

No entanto, o setor tem esperança de ver a quota revista no decorrer do período autorizado de pesca, porque ainda acredita que a Comissão Europeia "consiga estabelecer aqui um equilíbrio, altere o modelo de avaliação, e perceba que não se pode olhar só para um lado", refere o porta-voz da frota pesqueira.

Jorge Humberto preside à associação que representa 115 embarcações de todo o país, correspondentes a 90% da pesca da sardinha em Portugal. Da sede da Anopcerco avista-se o cais e boa parte do porto de pesca de Peniche, de onde partem os barcos que, a 3 de junho próximo, vão ao mar buscar sardinha. E não são apenas os cruzeiros científicos que atestam essa abundância. Nos últimos dias quem anda no mar depara-se com uma realidade que há muito não via: "está tudo cheio de sardinha, de norte a sul do país". Carlos Pacheco, 42 anos, dos quais 30 no mar, é um dos mais jovens armadores de Peniche mas com experiência o bastante para conseguir fazer essa avaliação.

E o que vem à rede é...sardinha

"Neste momento, quanto lançamos as redes (na pesca da cavala e do carapau) vem imensa sardinha. Algumas passam pela malha da rede, têm à volta de 5 cm", conta ao DN Carlos Pacheco, que presencia este cenário no último mês e meio.

As restrições impostas por Bruxelas nos anos recentes justificavam-se pela escassez. Ultimamente anos os armadores têm trabalho apenas para "quatro ou cinco meses, no máximo". Entre 2018 e 2019 estiveram oito meses parados. "Já era altura de pelo menos nos aliviarem um buraco do cinto", considera Carlos Pacheco.

"Ninguém consegue sobreviver assim. E se nós, no mar, vemos que se reproduziu o recurso, está na altura da Comissão Europeia trabalhar com números recentes e não com dados de 2017", sustenta.

Nascido e criado em Peniche, Carlos Pacheco encarna como muitos por ali a expressão "filho de peixe sabe nadar". Aprendeu com o pai, que também ainda por ali anda, a ajudar nas tarefas em terra. Para quem começou na faina aos 15 anos, e conhece o mar como a terra que pisa, as notícias sobre as quotas soaram estranho. "Isto é uma tremenda desilusão" desabafa o mestre Pacheco, ao leme do "Avô Varela", que regressou este mês ao mar. Passaram oito meses, tempo suficiente para o peixe desovar e vingar. E vingou, pela amostra. "Concentramos a pesca no verão e tentamos rentabilizar esta espécie, que é o que torna as empresas viáveis. Se nos tirarem a sardinha, é o descalabro", conclui.

"Adoro esta vida, a vida do cerco. E que quer que lhe diga? Eu conheço um bocadinho a situação da pesca a nível mundial. Quando os portugueses falam, a este respeito, os outros países têm de se por em sentido. Porque nós percebemos disto", diz, convicto, o mestre Pacheco. "Eu não gostava de ver acontecer à nossa pesca o que já aconteceu à carpintaria naval portuguesa, que dava cartas no mundo e foi por água abaixo".

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