Cova da Moura: Bombeiros contradizem-se em tribunal

A sessão de julgamento desta segunda-feira, sobre o caso que levou o Ministério Público a acusar 17 agentes da PSP de agressão e racismo contra seis jovens, ficou marcada por depoimentos contraditórios entre as equipas de socorro chamadas ao local naquele dia.

Ana Sofia e Valéria. Andreia e Vítor Hugo. Formam duas das equipas de bombeiros que no dia 5 de fevereiro de 2015 se dirigiram à esquadra de Alfragide para socorrer seis jovens, alegadas vítimas de racismo, tortura e difamação por parte de 17 agentes da PSP. Andreia Casanova, de 25 anos, era a única dos quatro que ainda não tinha sido ouvida em tribunal como testemunha do que teria acontecido naquele dia. Com ela, chegaram mais depoimentos contraditórios, à semelhança do que se conseguiu apurar na última sessão.

Há sensivelmente duas semanas, questionado pelo coletivo de juízes se o doente que socorreu, Rui Moniz - que aos sete anos sofreu um AVC e ficou com problemas de mobilidade para a vida, obrigado inclusive a usar uma tala no braço todos os dias - tinha alguma particularidade física, Vítor Hugo Silva, 42 anos, bombeiro desde 2001, disse que não. "São muitos serviços, talvez esteja confuso", tinha justificado. Contudo, Andreia Casanova, que seguiu com Vítor na ambulância neste dia, entre as falhas de memória que a assaltam mais de três anos depois deste episódio, recorda-se bem das limitações do jovem.

"Fomos os primeiros a chegar", começa por contar. "Já tínhamos a indicação de que iríamos transportar jovens vítimas de possíveis agressões. Eu fiquei a avaliar o Rui e o Vítor Hugo era o meu motorista", conta. Lembra-se de ver Rui sem algemas e com "um braço engessado (com uma tala)". "Disse-me que era de uma doença a priori que já tinha".

"Pode ter sido má comunicação. Não posso afirmar o que aconteceu"

Na sessão anterior, a versão de Vítor Hugo foi, contudo, diferente. O bombeiro não só afirmou que era Andreia quem conduzia a viatura, e ele era o tripulante, como garantiu ter sido quem assistiu Rui Moniz. Esta segunda-feira, quando questionada, mais do que uma vez, sobre o tema, sublinhou em todas essas vezes: "quem analisou o Rui fui eu".

"Lembro-me que se queixava de dor no braço esquerdo, naquele em que não tinha o gesso. Aconselhamos a ir ao hospital para fazer um raio-X e ver o que se passava. Tinha um batimento cardíaco mais baixo do que o normal devido à sua doença", conta Andreia, bombeira desde 2010 na Amadora. Todas estas ocorrências a que assistiram e possíveis queixas do doente devem ficar por escrito num verbete - como já garantiram várias vezes em tribunal os profissionais de socorro que se dirigiram à esquadra naquele dia. Este deve, inclusive, ser assinado sempre pelo tripulante da ambulância, normalmente a pessoa que socorre a vítima, e nunca pelo motorista da mesma. Mas, neste caso, é a assinatura de Vítor que está no documento, com informações anotadas que Andreia não soube explicar ao coletivo de juízes.

No pequeno papel, está escrito que Rui Moniz referiu que os seus ferimentos ligeiros se deviam a uma queda acidental e que esta tinha sido referida pelo próprio doente, mas a bombeira da Amadora, que diz ter ditado o que o colega deveria escrever no verbete, estranhou o facto de essa informação, que desconhece, estar lá presente. "Pode ter sido má comunicação. Não posso afirmar o que aconteceu", continua.

Conta ainda que examinou o jovem da Cova da Moura no interior da ambulância, enquanto Vítor Hugo ficou dentro da esquadra de Alfragide, juntamente com Valéria de Souza, à espera do INEM que iria transportar outras vítimas.

Bombeira desmentida

Na sessão de julgamento desta segunda-feira, também Luís Alves, 40 anos, técnico do INEM, foi ouvido em tribunal pela primeira vez. Garantiu ao tribunal que quando são chamados a socorrer uma vítima não necessitam dos seus documentos. Tudo o que devem levar consigo, para efeitos de registo, é apenas o nome e a data de nascimento. Informação que vem agora contradizer um depoimento prestado por Valéria na penúltima sessão.

No início de outubro, Celso Lopes, uma das alegadas vítimas, recordava em tribunal a chegada dos paramédicos à esquadra onde se encontrava detido, destacando uma profissional brasileira. Essa, vir-se-ia a saber, era Valéria. Foi, desde logo, descrita pelo jovem como alguém com "grande cumplicidade com os agentes". A bombeira viria até a admitir em tribunal conhecer todos os 17 arguidos, devido à sua profissão. Celso falava de um momento em específico daquele dia em que a socorrista terá sido chamada ao gabinete do chefe da esquadra, saindo de lá "com uma postura completamente diferente", mais serena e menos preocupada, perante os assistidos.

No entanto, Valéria garantiu não ter tido qualquer contacto adicional e privado com os agentes naquele dia. No mesmo dia, a colega de serviço, Ana Sofia Moreira, tinha já dito em tribunal que há um momento em que a bombeira está fora do alcance da sua vista, quando permanece dentro da esquadra com Vítor Hugo, os agentes e as restantes vitimas que esperavam o INEM. Valéria admitiu que a única conversa que teve com os autoridades foi quando se dirigiu a uma sala para pedir os documentos dos jovens, o que descreve como um procedimento normal.

Questionado pelo procurador do Ministério Público, Manuel das Dores, o técnico de INEM Luís Alves garantiu em tribunal que os documentos nunca são pedidos pelos profissionais socorristas.

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