Bastonário dos Engenheiros. "Receio que continuem a existir infraestruturas em risco em Portugal"

A derrocada do troço da antiga EN 255, entre Borba a Vila Viçosa, podia ter sido evitada, diz o bastonário da Ordem dos Engenheiros. Bastava terem "encerrado a estrada", porque os sinais do perigo estavam bem à vista. "É de uma evidência que é trágica", defende Carlos Mineiro Alves

"O que choca é que é uma situação que está identificada há quatro anos e era um acidente anunciado", lamenta o bastonário da Ordem dos Engenheiros. Ao DN, Carlos Mineiro Alves recorda que "foi com estupefação" que soube do aluimento de terra que fez ruir parte do troço de cerca de 100 metros da antiga estrada nacional 255, que liga Borba a Vila Viçosa.

Mal viu as primeiras imagens do que tinha acontecido ao início da tarde desta segunda-feira, 19 de novembro, não teve dúvidas: não foi a chuva a grande culpada pela tragédia. "Aquilo tinha de acontecer. A pedreira foi até aos limites. A estrada nem berma tinha. A estrada por baixo não estava fundada em rocha, naquele maciço calcário, mas sim na terra. Portanto, a terra um dia havia de cair e deslizou com mais chuva. A chuva não tem culpa, só acelera processos que estão em desenvolvimento. O que houve ali foi um deslizamento de terras e a estrada a cair, infelizmente", analisa. "É de uma evidência que é trágica".

Duas pessoas morreram e há, pelo menos, três desaparecidos na sequência do deslizamento de terra que fez desaparecer uma parte da antiga estrada nacional 255. Ao ruir, a estrada arrastou para o poço da pedreira duas viaturas. "Temos vítimas e é o que me custa mais nisto, porque a vida humana não tem preço".

O bastonário da Ordem dos Engenheiros não consegue compreender como é que se chegou a esta tragédia. "Há uma coisa elementar que é o bom senso. Qualquer engenheiro, qualquer técnico, qualquer pessoa conscienciosa não pode obviamente explorar uma pedreira até uma berma ou até à proximidade de uma estrada", defende. Mesmo que existisse uma margem de segurança, acredita que não se estava imune a um acidente, ainda assim "não tinha acontecido com as consequências que teve", considerou.

Receio de que haja "muitas infraestruturas em risco"

Para Mineiro Alves, a antiga estrada nacional 255 "devia ter sido encerrada, obviamente". "O que sucede ali é que não houve uma decisão de interditar a circulação naquela estrada", lamenta.

E admite:"Receio que continue a existir infraestruturas em risco em Portugal", tanto públicas como privadas, afirma. Isto ao mesmo tempo que lamenta a falta de informação disponibilizada pelas entidades competentes sobre o que se passa no país. "Devia haver uma base de dados sobre o que está a ser feito, o que está a ser observado, como é feita a monitorização, o acompanhamento. Nós vamos, por exemplo, ao site da Infraestruturas de Portugal, e não temos essa monitorização", diz. "Não estou a dizer que não haja informação, mas devia estar disponibilizada. Se se for ao site das Águas de Portugal sabe-se qual é a qualidade das águas. Há muita informação já até em relação ao clima. Sobre as infraestruturas há pouca informação e o cidadão tem direito a ter informação sobre a se a sua vida está em risco ou não".

Lamenta também a falta de fiscalização no país. "Ultimamente, em Portugal tem-se perdido um bocado a capacidade de fiscalizar, de intervir e de acompanhar as atividades e situações de risco", diz Mineiro Alves, referindo-se a "uma poupança falsa". "Essa ideia de poupar nas instituições, de fechar instituições, de deixar de ter quadros adequados", como sendo uma solução "não pode ser", assegura o bastonário. "Um país seguro, um Estado que é seguro tem de acautelar os direitos dos seus cidadãos. E neste caso acautelar os diretos é ter técnicos adequados, engenheiros adequados e não é o que se passa", afirma.

"Repensar tudo"

Considera que por falta dessa visão, desse investimento, "as instituições deixaram-se enfraquecer", porque, afirma, "ter quadros técnicos e engenheiros parece que é uma coisa que se foi esquecendo a pouco e pouco e esqueceu-se o papel que a engenharia tem na prevenção destes acidentes".

É nesse sentido que é fundamental "repensar nisto tudo" de forma a evitar a tragédia de Borba. "Não podemos estar constantemente a queixar-nos do que acontece e consecutivamente pensar que é a partir de agora que vamos corrigir as coisas", sublinha Miineiro Alves, que se recusa a apontar a apontar responsáveis para a tragédia de Borba. Assume, porém, que faltou engenharia e não só neste caso. "Ultimamente, temos assistido no país que há falta de engenharia, de instituições fortes, de intervenções do próprio Estado a esses níveis e depois queixámo-nos dos resultados", lamenta.

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