Suicídio nas polícias é duas vezes superior à população em geral

Condições de trabalho, pressão e apoio psicológico insuficiente, ajudam a explicar a conclusão de um trabalho agora publicado

Carlos Ferro
Miguel Rodrigues estudou 90 casos de suicídios nas forças de segurança | foto PAULO SPRANGER/Global Imagens

A taxa de suicídios na PSP e GNR é quase duas vezes maior do que na população em geral, tendo 137 polícias colocado termo à vida entre 2000 e 2017, o que dá uma média de 16,9 casos por 100 mil habitantes. Na restante população, e utilizando dados entre 2000 e 2016, a taxa de suicídios foi de 9,7 por 100 mil habitantes.

Esta é o principal alerta feito no livro Os polícias não choram, da autoria de Miguel Rodrigues, que disse ao DN ter tentado com esta edição fazer com que a "sociedade pudesse perceber melhor a vida de um polícia em contexto nacional". Doutorado em Educação, e chefe da PSP, Miguel Rodrigues avança neste trabalho com outros dados que mostram a realidade com que se debatem os agentes e militares da PSP e a GNR: de 2000 a 2016 foram instaurados 18 mil processos disciplinares - 12 699 e 5924, respetivamente. Destes, no caso da Polícia de Segurança Pública, 76% foram arquivados enquanto na Guarda Nacional Republicana o número é de 63%. Já nos 18 anos referidos nas estatísticas que analisou, morreram 27 polícias e militares em serviço (18 na GNR e 9 na PSP). Ou seja, morrem, em média, 13 anos mais cedo que a população em geral.

As condições de trabalho - baixo salário, a exposição a traumas, stress, pressão da profissão - são exemplos de situações que podem contribuir para depressões e suicídios que se registam nestas forças. A quase totalidade dos suicídios ocorre com a arma de serviço.

Mesmo com o conhecimento adquirido ao longo da vida profissional, Miguel Rodrigues diz ter sido surpreendido pelos resultados da sua investigação - onde analisou 90 casos. "Apesar da experiência de longos anos como polícia, por questões ético-deontológicas foi necessário colocar-me numa posição externa à minha experiência policial, assumindo a posição de investigador, o que me facultou igualmente a independência e a autonomia de análise. No entanto, mesmo "recalcando" essa posição policial, fui amplamente surpreendido por alguns dos resultados alcançados em temas mais sensíveis e até fraturantes, particularmente dos casos de polícias mortos e feridos em serviço e dos suicídios, que ocorrem de forma muito mais vincada nestes profissionais do que na população em geral", frisou ao DN.

Documentos públicos

Todos os dados estatísticos a que recorreu para escrever este livro estão em documentos públicos, portanto são do conhecimento nomeadamente das associações da PSP e GNR. Paulo Rodrigues, presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, não ficou surpreendido com os resultados publicados. "Nos últimos anos temos sentido que é verdade. Aliás, se olharmos para a faixa etária dos 20/21 anos até aos 55, altura em que poderão estar reunidas as condições para a pré-aposentação, e se compararmos com a população em geral vamos encontrar essa situação", reconhece. Porém, não acha que seja por ser polícia que a pessoa decide suicidar-se. "Há um conjunto de situações por trás. A questão é que o ser polícia acelera essa questão". Acrescenta: "Acho que a PSP devia fazer mais. É uma instituição fria, onde os recursos humanos tratam os polícias como números e raras vezes há a sensibilidade para olhar para a situação de cada um. Temos casos de polícias que pediram para ir para ao pé da família por causa de operações ou doenças e que só receberam a resposta quando a situação já estava resolvida".

No seu trabalho, Miguel Rodrigues, apurou, no seguimento da análise que efetuou aos dados disponibilizados pelos estudos requisitados pela tutela das polícias sobre o problema, um apontar a fatores externos às forças de segurança como possíveis justificações para potenciar os suicídios: problemas económicos, sentimentais, familiares e o consumo de álcool. No entanto, numa análise mais abrangente e recorrendo a literatura especializada, a explicação para a elevada taxa de suicídio entre polícias deve ser sempre analisada como consequência de uma complexa interação entre fatores ocupacionais (nomeadamente as características da profissão), organizacionais e individuais e/ou interpessoais, ou seja, o problema nunca poderá ser observado de forma individualizada, e, muito menos, rejeitando a sua vertente laboral. Ou seja, os tais pontos que Paulo Rodrigues refere como não sendo uma situação exclusiva das forças de segurança, mas que são potenciadas pelo stress a que os agentes e militares estão sujeitos.

Também César Nogueira, da Associação dos Profissionais da Guarda, reconhece que a questão dos suicídios é um problema que afeta a instituição, apesar de atualmente ter menos impacto que "durante os anos de crise, quando tivemos cortes salariais". Acusa a GNR de ter dificuldade em reconhecer este problema pois quando acontece um suicídio esse assunto é "sempre tratado como uma questão pessoal. Mas, todas as questões estão, de uma forma, ou de outra, relacionadas com o trabalho, pois passamos o dia a trabalhar", frisou em declarações ao DN.

Tal como a ASPP/PP, também a associação que lidera tenta dar apoio psicológico aos militares que procuram essa ajuda e reconhece que a própria Guarda Nacional Republicana "está melhor nesse aspeto [apoio]. Mas, ainda falta muito."

Suicídios entre os 30 e 34 anos

No livro que apresentou recentemente, Miguel Rodrigues apresenta os resultados do estudo em 90 casos ocorridos entre 2000 e 2017. Dessa análise concluiu que a média de idades das pessoas que se suicidaram era de 38 anos, sendo a faixa etária entre os 30 e 34 anos com mais situações (22%), são elementos da base da hierarquia (agente/guarda, 88,9%), e a grande maioria escolha a residência ou local de trabalho para pôr termo à vida (38% em cada um). Setembro é o mês onde ocorreram mais situações (15%) e fevereiro e abril os com menor prevalência.

Neste estudo também concluiu que pode haver ligação para a tomada desta decisão devido ao afastamento das origens, família, cônjuge e filhos. Além, do já referido baixo salário e dos fatores de risco inerentes à profissão.

18 mil processos disciplinares

Um dos sete capítulos do livro é dedicado às queixas contra os polícias. Nesse ponto, o autor de Os polícias não choram, refere que nas duas forças de segurança foram instaurados 18 mil processos disciplinares entre 2010 e 2016, correspondendo a uma média anual de 2660 - 1814 na PSP e 846 na GNR.

No que diz respeito às penas aplicadas, no caso da PSP 64% foram penas de multa aos agentes, seguida de repreensão escrita (21%), suspensão (12%) e pena de demissão (3%). Na GNR, a suspensão lidera (55%), seguida pela repreensão escrita (27%), repreensão escrita agravada (11%), a reforma compulsiva (5%), a separação de serviço (1,1%) e a suspensão agravada (0,9%).

Por outro lado, e para o mesmo espaço temporal (2010-2016), a grande maioria das queixas que chegam à Inspeção Geral da Administração Interna (4919 no conjunto das duas forças de segurança) a maior parte dos processos diz respeito a "ofensas à integridade física" (39,1% dos casos) e depois em menor escala surgem, por exemplo, violência doméstica, abuso de autoridade, utilização de arma de fogo (ferimento e/ou ameaça com arma).

Vertente social

A edição deste livro não se limita à análise dos dados estatísticos e de casos de suicídios nas forças de segurança. Os direitos de autor a que Miguel Rodrigues terá direito das vendas da primeira edição vão ser entregues a três elementos das forças de segurança (PSP e GNR) que se encontram em dificuldades financeiras devido a problemas que sofreram. De acordo com o autor esta foi uma decisão que pretende dar uma vertente social à edição do livro e chamar a atenção para as dificuldades que estes profissionais enfrentam quando enfrentam "adversidades da vida".