Rui Rosinha: bombeiro queimado em Pedrógão dá ajuda a Monchique

Um ano depois da tragédia de Pedrógão Grande, Rui Rosinha, um dos quatro bombeiros feridos na sequência dos incêndios, juntou um grupo de pessoas para enviar ajuda para quem combate as chamas no Algarve

Ana Bela FerreiraCatarina Reis
Rui Rosinha sofre de 85% de invalidez© Henriques da Cunha / Global Imagens

É como ver-se ao espelho. Mais de um ano depois da tragédia que o deixou com 85% de invalidez, Rui Rosinha, que sofreu queimaduras graves durante o combate aos incêndios de 2017 em Pedrógão Grande, quis fazer com os outros o que fizeram consigo.

Assim que teve conhecimento do incêndio que deflagrava em Monchique, não hesitou em juntar um grupo de pessoas de Castanheira de Pêra responsáveis por enviar mantimentos para o corpo de bombeiros e para os locais da vila de Faro. Roupa, água ou comida: ainda não sabe ao certo o que é necessário, mas "tudo será feito para os ajudar", garante o ex-bombeiro.

Da tragédia que mudou a sua vida, nasceu a vontade de mais ajudar quem passa por aquilo que Rui já passou. Conta 25 anos como bombeiro e, aos 40, vive entre consultas e exames às marcas que o fogo de Pedrógão Grande deixou.

Já foi submetido a 14 cirurgias, mas mesmo que as suas condições físicas melhorem, não tenciona voltar ao ativo para combater as chamas. Quer, contudo, continuar ligado aos bombeiros e às suas causas. Bombeiro uma vez, bombeiro para a vida. Rui não pensa duas vezes antes de desabafar: "Nunca se deixa realmente este ofício, mesmo que seja apenas na forma como se vive."

O incêndio que já destruiu entre 15.000 e 20.000 hectares em Faro é, para Rui, como abrir um álbum de memórias daquele verão de 2017. "Nenhum meio de combate no mundo estava preparado para aquilo", frisa.

Desta vez, vê tudo apenas através da sua televisão, mas garante: "Monchique é a prova de que estamos a melhorar." Não demora a defender que tudo está a ser feito, ou "jamais se conseguiria evacuar o local em perigo como se evacuou". A mudança começa mesmo ao seu lado, em Castanheira de Pêra, onde Rui reside e testemunha que os seus vizinhos já se comprometem a fazer a limpeza dos seus terrenos pela terceira vez desde o início do ano.

Comparar cenários é, de acordo com o antigo bombeiro, também apontar à preparação psicológica dos bombeiros como uma das maiores falhas do sistema português. "É preciso formação psicológica no antes, no durante e no depois", propõe.

Na semana em que se registaram níveis históricos de calor a nível nacional, Rui vive à sombra do seu telhado e apenas sai para as habituais idas ao hospital. "Também já não gostava muito de praia", brinca, mas lamenta que os passeios e as brincadeiras com os filhos, de 7 e 10 anos, já praticamente não existam.

A recuperação não está para breve, mas "a esperança nasce todos os dias".