Ricciardi: "Ricardo Salgado não tinha direito a fazer o que fez"

Almoço com José Maria Ricciardi, banqueiro e acionista da Optimal Investments

Joana Petiz

Aos 64 anos, e apesar dos tempos atribulados que têm sido os últimos, José Maria Ricciardi é um homem de convicções fortes com três grandes compromissos assumidos: um novo desafio profissional à frente da Optimal Investments - uma boutique financeira cuja sociedade partilha com Jorge Tomé (ex-Caixa BI), Miguel Geraldes (ex-Bolsa) e Luís Paulo Tenente (ex-Banif e Bankinvest) -, ajudar a resolver a crise do Sporting e recuperar o nome da família. Há de falar-me desses e de outros assuntos que o preenchem durante o nosso encontro no Madeirense, onde somos recebidos com a habitual cortesia do dono, Manuel Fernandes, que nos encaminha para uma mesa sossegada no piso superior do restaurante mais antigo das Amoreiras.

Num canto da sala quase cheia, pedimos água e vinho rosé, espargos frescos com maionese para começar - "tenho de ter algum cuidado com o que como", diz-me, como uma espécie de justificação para a omelete que lhe servirá de almoço. Escolhendo eu o lombo de atum e feitos os pedidos, é pela banca, atividade a que dedicou toda a vida, que começamos a conversa, mais concretamente com a sua saída do Haitong (ex-BESI), que deixou em rutura com o chairman. Uma divergência profunda quanto à estratégia de desenvolvimento do banco de investimento e às necessidades de capital para suportar essa estratégia ditou o afastamento mas ainda assim garante que foi sempre "muito bem tratado" pelos acionistas do grupo chinês que em 2015 comprou a instituição por 379 milhões de euros. Um negócio em que esteve profundamente envolvido e que, a par do seu papel enquanto "elemento decisivo para o crescimento do Haitong Bank no mercado dos bancos de investimento globais", lhe valeu a segunda distinção de Banqueiro Europeu do Ano pela revista britânica World Finance em 2016 (a primeira fora em 2013), o mesmo ano em que viria a desvincular-se do banco.

Há ainda alguma mágoa na saída do antigo BESI, onde passou quase um quarto de século e que liderou desde 2003, mas admite que não havia outro caminho - nem sequer havia como contornar a venda. Conta que mesmo nos tempos mais difíceis da queda do Grupo Espírito Santo, ele, que teve um papel fundamental na denúncia das irregularidades, foi "sempre bem recebido por toda a gente, mesmo pelo primeiro-ministro, pela ministra das Finanças, pelo Banco de Portugal, pelos sucessivos presidentes do que restou do Banco Espírito Santo (hoje Novo Banco). Essas pessoas sabiam bem da minha seriedade." Sublinha que nunca lhe foi retirada a idoneidade e que foi o seu banco de investimento que assessorou a venda da ANA à Vinci "e conseguimos 3 milhões, quando se esperava que os aeroportos rendessem apenas 2 milhões de euros". E acredita que uma prova dessa confiança que nele e na sua gestão depositavam foi o facto de o nome BESI se manter até à entrada dos novos acionistas, enquanto o BES foi obrigado a mudar de nome.

Porque é que a venda era inevitável? "O país era governado nessa altura pelo Fundo de Resolução - e nós também aqui estávamos, pelo que tínhamos de nos submeter às regras. Ora eu não me importava nada de reduzir o meu salário para os valores máximos então impostos, mas as regras diziam que ninguém no banco podia ganhar mais do que determinado valor, e isso não era possível - em Londres e Nova Iorque, onde o banco estava, havia quem recebesse várias vezes mais do que eu. É questão de mercado e eu não podia pagar 1 milhão por ano a ninguém, mas se não pagasse essas pessoas iam-se embora. Por isso, para salvar o BESI, tínhamos de vender."

Sublinha que "o BESI nunca foi intervencionado, nem capitalizado, nem teve problemas". Mas a falar sobre o passado, prefere contar-me os desafios que tem pela frente e que visivelmente o entusiasmam. "O período de non competing agreement que tinha acabou no final de 2017, por isso pude voltar a fazer o que melhor sei e mais gosto." Com os três sócios e uma sede nas Amoreiras que já é curta para as 15 pessoas com que contam na equipa, há novos partners a caminho ("ainda não posso revelar quem são") e está a "ganhar mandatos", por isso está contente. "Acho que podemos fazer aqui uma revolução interessante."

A frase é boa deixa para o conduzir a outro assunto que lhe tem roubado serenidade e a troca dos pratos já vazios de espargos pelos principais ajuda. Quando fala do Sporting e dos "terríveis últimos tempos" vividos pelo clube fundado pelo seu tio-avô, a voz ganha-lhe um tom que não tem noutros assuntos, os olhos avivam-se, as mãos inquietam-se de angústia. O que me disse há tempos justifica-o: se o clube acabasse, seria a segunda instituição centenária da família que via desaparecer.

Agora as coisas estão mais bem encaminhadas, mas "se não fosse o presidente Sousa Cintra, as rescisões iam todas para a frente". Explica que não foi só o episódio de Alcochete, "a página mais negra da vida do Sporting", mas todos os factos que levaram os jogadores a invocar que não tinham condições de segurança para exercer a sua profissão. "E há hipótese de Bruno de Carvalho ser o autor moral, porque andou a espicaçar... Se ele não tivesse caído, a probabilidade de os jogadores não ganharem seria mínima; e se ganhassem, o Sporting não perdia só o valor dos jogadores, seria obrigado a pagar o valor dos contratos até ao fim da sua duração, o que pelas nossas contas seriam mais de 60 milhões de euros só em ordenados daqueles nove jogadores."

Sem Bruno de Carvalho à frente, a causa torna-se menos desfavorável ao clube, portanto. Até no que respeita a negociações diretas com os jogadores que já permitiram recuperar Bruno Fernandes e Bas Dost, um "milagre" que atribui a Sousa Cintra. "Enfim, as coisas estão melhores, porque se tudo continuasse como estava íamos para a insolvência, não tenho dúvidas disso."

Porque ele próprio chegou a ser apoiante de Bruno de Carvalho, explica-me que não o conhecia quando venceu as primeiras eleições do Sporting. "Foi o Carlos Vieira - que era amigo de um tipo seríssimo que trabalhou comigo durante anos, o Pedro Ventaneira - que mo apresentou e eu achei que ele estava a fazer um trabalho meritório. O BESI assessorou-o na restruturação da dívida do Sporting e eu acabei por aderir à candidatura quando foram as eleições, até aceitei estar no Conselho Leonino e na Comissão de Honra. Depois ele teve aquela maioria absoluta e não sei o que se passou - com ele, com o Carlos e com os outros cinco. Eu não faço análises do foro pessoal - não sei se foi por causa do casamento ou das coisas que se dizem dele, nunca fui íntimo dele para perceber se são verdade e ainda que o fosse não o diria publicamente. O que sei é que Bruno de Carvalho começou a perder cada vez mais o norte."

A mudança incomodou-o e Ricciardi diz que por várias vezes falou com o ex-presidente do clube e em todas elas acabou por condescender. Até ao episódio das mensagens enviadas aos jogadores depois de perderem com o Atlético de Madrid (2-0) para a Liga Europa. "Eu estava a andar em Nova Iorque e nesse momento decidi deixar de apoiá-lo e demitir-me - ao contrário de outros que diziam mal mas iam ficando... Ele tentou demover-me, pediu-me para me "desdemitir", que não existe, enfim, um filme." Dessa vez, o banqueiro não voltaria atrás, mas prometeu que também não falaria sobre o assunto nem pediria eleições. "A não ser que ele perdesse a cabeça. E depois aconteceu Alcochete e foi o fim da linha."

Jorge Jesus, de quem Ricciardi é "muito amigo", já lhe contara que o ambiente estava pior do que mau. O presidente "odiava os jogadores, achava que ganhavam de mais e ele de menos, tinha ataques de fúria, um filme de terror". E por isso decidiu intervir. Não se arrepende, porque o resultado foi a destituição de Bruno de Carvalho, apesar de admitir que teve de se conter para não responder aos insultos que ouviu quando foi votar na assembleia geral extraordinária - "apesar de mais de 70% terem votado para ele sair, os apoiantes dele votavam e ficavam ali, a tentar amedrontar as pessoas, e parecia que estava muita gente do lado dele".

A Ricciardi, dirigiam insultos, diziam que estava a tentar ficar com o Sporting - o que mais o desgosta é que haja sportinguistas que acreditem nisso."É tudo mentira, são invenções delirantes de que eu estou feito com o Álvaro Sobrinho... O clube é dos sócios e quando se puser o problema de ter de avaliar uma mudança de estrutura para competir internacionalmente a um certo nível serão os sócios a decidi-lo. Eu nunca tive a pretensão de ficar com SAD nenhuma e tenho a certeza de que o Álvaro Sobrinho também não. Ele o que fez, numa altura em que os jogadores rescindiriam todos porque não havia dinheiro para os ordenados, foi emprestar milhões ao clube, com garantias de partes dos passes, e depois aceitou transformar isso em capital e libertar os passes."

Seja como for, não acredita numa recandidatura de Bruno de Carvalho: "Não tem hipótese. A comissão de fiscalização está devidamente homologada e vai obviamente suspendê-lo a ele e aos outros; e suspenso, não pode candidatar-se. Depois, eventualmente, haverá até uma assembleia geral para o expulsar." E nem quer ouvir dizer que é pouco democrático impedir Bruno de Carvalho de ir a eleições: "Quem diz isso é idiota, porque o que é indigno para um clube da importância do Sporting - como seria para o Benfica ou o Porto - é aceitar como candidato uma pessoa que violou os estatutos desta maneira. E já nem falo de ser o autor moral, se for só isso, de Alcochete ou de outras histórias como o Cashball. Alguém que nomeou conselhos fiscais que não podia, que trouxe pessoas como aquela Elsa Judas, que nem sócia era - aliás foi ele que lhe pagou as quotas, a ela e a uma data de gente, para irem votar... e com dinheiro do Sporting! E que foi destituído com mais de 70% dos votos."

Entristece-o admitir que um dos problemas do Sporting - "que o Benfica não tem e o Porto também não" - é a falta de união. "Supostamente, é um clube de elites; e eu, que não sou de esquerda, sinceramente acho que o que há de pior hoje em Portugal são as elites. Quando se desce socialmente as pessoas são melhores e conforme se sobe a proporção de gente má, aldrabona, vigarista aumenta. As nossas elites - a que eu pertenço - são uma porcaria." Justifica assim que quando surgem problemas no Benfica os adeptos se unam. "É um clube diferente. Dizem que é porque ganha - e se o Sporting ganhasse mais ajudava, mas não é isso." O verdadeiro problema, acredita, é a falta de coesão, são as elites em que "a vaidade impera" e que tornam especialmente difícil gerir o Sporting, "que sempre foi um clube com um conjunto de valores, mas está tomado pela mesma escumalha que os outros". "Fazem-se essas distinções do croquete... Eu estou-me nas tintas para isso! Um dos fundadores do clube é José Alvalade, meu tio-avô, que era um croquete. Então se não fossem os croquetes não existia o Sporting.

Vê as claques com preocupação e teme que um dia se tornem um problema grave. "Em nenhuma parte da Europa as equipas rivais chegam aos estádios em caixas!" Lamenta que as famílias não possam ir pacificamente ao futebol, porque está "tomado por bandidos" e identifica esse problema como transversal ao futebol. "O governo tem de começar a ter aqui intervenção, a tomar medidas, ou isto vai acabar mal."

Em relação ao que aí vem, espera que cumpra as necessidades do clube, que precisa de uma direção com experiência e capacidade. Diz que um clube de futebol é muito mais difícil de gerir do que uma empresa, porque às responsabilidades acresce a paixão, as emoções, e isso requer uma preparação gigantesca. E as novas regras da Champions vão dificultar ainda mais as coisas, porque vão aumentar o fosso entre os que se apuram para a Liga dos Campeões e os que não conseguem lá chegar, garantindo mais dinheiro conforme sobem no ranking. "Essa diferença pode chegar aos 75 a 100 milhões por ano e nós só vamos ter duas equipas a subir. O risco é grande e Portugal não tem uma economia forte o suficiente para ter três grandes, por isso a direção terá de ser extremamente capaz. Não compro aquela ideia de ter só jovens, é preciso experiência. E vê-se bem que isso tem resultado com o presidente Sousa Cintra. Mas até agora não vejo nenhuma candidatura que reúna estas capacidades", lamenta.

"Eu nunca perdi uma eleição no Sporting." E estaria agora disposto a avançar? "Não digo um não definitivo, mas sempre disse e mantenho que é pouco provável." A razão? A vida que quer continuar a ter e o trabalho que verdadeiramente o apaixona, que é a banca de investimento. Qual seria o tipping point que o faria candidatar-se? "Se vir que não há outra solução tão boa ou melhor do que eu. Tenho muito respeito e consideração por todos os que estão a avançar - tirando Bruno de Carvalho e Carlos Vieira, que acho indignos -, mas acho que nenhum deles reúne as condições para essa tarefa tão difícil. Posso enganar-me, ainda não vi os programas, as equipas. As eleições são a 8 de setembro mas até 8 de agosto têm de ser apresentados os programas e então verei melhor ao que vêm."

Não sendo candidato - e, sublinha, a possibilidade de chegar a avançar é remota -, também é pouco provável que apoie uma das candidaturas existentes. "Vou manter-me equidistante de todas porque não quero continuar a alimentar esta fama injusta de ser o presidente-sombra, aquele que faz e desfaz presidentes, que manda sem assumir." Diz que sempre se interessou pelo clube, ajudou no que podia, e essa imagem que lhe colam é falsa e maldosa. "Nunca decidi sobre treinadores ou jogadores, nem percebo nada disso, tirando o pouco que o Jorge Jesus me ensinou. Sou adepto de bancada e não tenho nenhuma pretensão de ser outra coisa, nem acho que tenha essa capacidade."

Para o clube de Alvalade, prevê tempos difíceis: além dos motivos já expostos, porque tem de conseguir retomar os empréstimos obrigacionistas. "Os bancos estão pressionados para sair dos clubes, por isso eles terão de desintermediar o seu financiamento e a parte do mercado de capitais é fundamental. E retomá-los não será fácil por causa dos danos reputacionais e por não se ter pago este empréstimo que era devido, de 30 milhões."

Há porém um lado que compensa tudo. Conta que foi à final da Taça de Portugal - "fui com o Rogério Alves e antes fomos a uma churrascada que o Jorge Jesus faz sempre (apesar de não estar presente, porque estava com a equipa), uma coisa ótima e divertidíssima, com a mulher dele, amigos, o Quim Barreiros, tudo no Jamor" -, que se previa já ser um jogo difícil, viu muitas crianças a chorar a derrota do Sporting. "É uma coisa que me impressiona: um clube que não ganha há 16 anos, que a última coisa que ganhou foi em 2002, com o dr. Dias da Cunha, tenha tanta gente nova. A maioria nunca viu o Sporting ser campeão. A minha filha tem 20 anos e não se lembra. Mas o sofrimento daqueles miúdos, o amor deles pelo clube, provam que o Sporting, apesar de não ganhar continua a ter gente fantástica."

O almoço já se foi e dispensamos as sobremesas com pedidos de cafés. Pergunto-lhe o que faz para se distrair e confessa uma atividade que hoje muitos não veem com bons olhos: a caça. "Hoje já há, por parte das associações, a preocupação de explicar que quem conserva melhor as espécies de caça são os caçadores, porque não se tem muita consciência disto. Mas, por exemplo, para ter perdizes vermelhas, que são dos animais mais típicos da Península Ibérica, é preciso gastar muito dinheiro a fazer searas, a controlar predadores, a ter guardas contra caçadores furtivos, a dar-lhes remédios contra doenças, a arranjar bebedouros e comedouros... Se não houvesse caçadores já não havia perdizes na Península Ibérica." Caça no Alentejo e em Espanha e não tem dúvidas numa coisa: "O campo em Portugal é incomensuravelmente mais bonito. Na zona onde se caça mais em Espanha, Castilla la Mancha, parece que se está na lua, é um deserto, nem se compara com Alcoutim, Mértola, aquela zona ali à volta do Guadiana... Às vezes caço em sítios por onde entram os braços do Alqueva e é uma mistura extraordinária. Temos dos campos mais bonitos do mundo."

Lamenta por isso que se tenha deixado desertificar o interior - "está bastante maltratado do ponto de vista económico" - e louva os esforços que têm sido feitos, nomeadamente por Jorge Coelho, para que volte a haver ali gente nova e desenvolvimento económico. Mesmo porque a agricultura começa a ser uma oportunidade. "Se eu tivesse dinheiro para isso e fosse novo, achava super desafiante ter uma propriedade e ser agricultor."

Está a ponto de me confessar outra paixão que admite poder ser contraditória com a caça: a ornitologia. "Desde criança que crio canários, tenho um viveiro em casa, em Cascais, e já fui vice-campeão do mundo duas vezes", orgulha-se. Conhece o tema a fundo. Conta-me que há em Portugal cerca de 15 mil federados, e todos os níveis e especificidades dos diferentes níveis de competição. "A categoria de canto é dificílima, porque as aves têm de ter um mestre, não se podem ver umas às outras, têm de estar ali em condições especialíssimas, mas depois cantam verdadeiras estrofes!" Também há concursos de forma, mas ele compete na de cor. "Muitas destas espécies estão homologadas há mais de 50 anos e no campeonato do mundo há 60 mil raças. Isto é feito normalmente em janeiro, que é quando a ave está no seu auge - e só podem concorrer os pássaros do ano. É uma loucura em muitos países: em Espanha há 500 mil federados, em Itália, na Holanda, na Bélgica é uma atividade extremamente popular. Eu hoje sou capaz de tirar uns 400 pássaros por ano; fico com os melhores - uns são bons para criar outros para ir a concurso -, outros vendo."

Licenciado em Sciences Economiques Appliquées pelo Instituto de Administração e Gestão da Faculdade de Ciências Económicas, Políticas e Sociais, da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, o primeiro emprego de José Maria Ricciardi foi no final da década de 1970, no Banco Inter-Atlântico do Rio de Janeiro. São tempos que recorda com saudade e continua a ter pelo Brasil um carinho que não disfarça.

"Gosto imenso do Brasil, é um país fascinante, apesar de ter criado um problema que nunca pensei que fosse tão profundo - espero que aqui nunca chegue àquele ponto, em que a classe política está atravessada de ponta a ponta pela corrupção, misturada com poder económico." Teme que o país acabe por cair numa solução populista ou de intervenção militar se não se recompuser em breve, mas não consegue ser duro com o povo brasileiro. "Têm um espírito muito positivo, tenho uma grande admiração pela alegria natural dos brasileiros."

Do tempo em que lá viveu, guarda algumas das melhores memórias. Como o Bar do Rio, ali entre a Lagoa Rodrigo Freitas e Ipanema, onde por vezes ia com amigos e apareciam a altas horas da noite para se divertir, cantar e dançar Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso... "Era uma época extraordinária." Recorda também outro momento que o marcou: quando desfilou no Carnaval do Rio. "Desfilei na Portela e ganhei! A Portela é a única agremiação do mundo que tem como símbolo uma águia que eu amo." Ri-se, antes de contar o que sentiu no desfile do dia seguinte à vitória. "Entrar na avenida com as 4500 pessoas da escola, com o dia a começar a nascer, a ver-se os recortes dos morros, a bateria começa a tocar, sentir o chão a tremer e ouvir dezenas de milhar de pessoas a cantar aquele samba criado para aquele dia de Carnaval é uma coisa incrível. Essa experiência já ninguém me tira."

É por sentir o Brasil tão próximo que tem mais pena que o país não seja capaz de resolver os seus problemas. E insiste: "Espero que nunca caiamos tão baixo. Uma vez, o Alexandre Soares dos Santos (Jerónimo Martins) disse-me que o pior destes casos é que a população depois fica a pensar que somos todos assim..."

Com os segundos cafés na agora única mesa ocupada do restaurante, pergunto-lhe se ele próprio foi vítima desse preconceito. Admite que sim, apesar de ter denunciado assim que soube o que se passava no BES. "O que me fere mais é que ainda haja pessoas - cada vez são menos, porque a justiça vai circunscrevendo, mas ainda as há - que dizem, "ah estava lá e não sabia... que esquisito... Não estou a desculpar-me, mas eu não estava fisicamente no Banco Espírito Santo. Passava duas semanas por mês fora, ia lá um dia... E só entrei para a administração em 2012 - em 2013 já estava a fazer o documento para tirarem de lá o meu primo. Isto não é fácil, e muito menos quando envolve a família. Mas quando me comecei a aperceber das poucas vergonhas que ali havia, das liberalidades, comecei a atuar: falei com o Banco de Portugal, disse que não ficava se ele ficasse, pediram-me sempre que tivesse calma, que não se tirava pessoas do cargo com essa facilidade. Eu enfrentei o senhor completamente sozinho, ninguém abriu a boca - e ele, como tinha muito poder, vendia isso como se eu quisesse tomar o lugar dele, o que não era verdade."

Acredita que se Ricardo Salgado, seu primo e então presidente do BES, tivesse saído logo em 2013 o banco ainda existia, ainda que o grupo pudesse ter falido. "E não tínhamos tido este prejuízo brutal no país, não tínhamos causado este problema aos lesados, aos funcionários que perderam o emprego, aos investidores que acreditaram em nós. Na minha família, cortaram relações comigo porque achavam que eu me devia calar a ver se passávamos entre os pingos da chuva... mas eu não podia, era minha obrigação agir e fi-lo. Por isso fico magoado."

Divide os administradores do BES, nesse tempo, em três categorias: "O primeiro é aquele que liderou as fraudes e incompetências e crimes, coadjuvado por um conjunto de pessoas; o segundo é o dos que se calaram quando souberam e não fizeram nada, o que em termos de lei é pelo menos negligência; e o terceiro que é quem agiu, tentou combater, denunciou e arriscou a pele: eu." Conta ainda que houve duas tentativas para o demitirem dos cargos que ocupava no banco e por tudo isso, por ter "passado as passas do Algarve", não aceita o que vê como uma injustiça. "Não sou a Madre Teresa, mas em termos profissionais nunca fiz nada fora da linha. Não quero fazer unanimidade, mas tenho a consciência tranquila."

O tempo acabou, ainda assim, por amaciar as coisas e já tem sido abordado por pessoas que confiam nele, que dizem sabê-lo gente séria. Admite que talvez pudesse ter estado mais atento, que até havia indícios. "Talvez aí tenha pecado, mas estava concentrado a desenvolver o banco de investimento internacionalmente e com sucesso - era o único que tinha ido a sério para o Reino Unido, para os EUA, fazia cocktails em Nova Iorque e vinham os banqueiros todos, em Londres até membros do governo." Isso é o que acha mais penalizante: que um banco que era "a melhor marca do país, que demorou 150 anos a construir, tenha sido destruída em dez ou 15 anos por uma pessoa que enlouqueceu, que não tinha necessidade disto".

É por isso que assume que, se ainda tiver uns anos de vida ativa, quer lançar a recuperação do nome da família para as próximas gerações. "Dizem-me que não me meta, mas eu não tenho medo e meto-me. Não vou confundir 150 anos de história com 15. No mundo inteiro, o Espírito Santo era o único nome conhecido das finanças empresariais portuguesas. Isso é mais-valia que se perdeu e a maneira como se conduziu o processo foi má - o que não desculpa num milímetro as fraudes, aldrabices e confusões alegadamente graves... Mas devia ter-se agido doutra maneira. A resolução foi um erro. Fez-se porque o BCE queria, mas então porque não se fez na Grécia, onde os bancos estavam dez vezes piores do que o BES e nunca se resolveu um único banco? É por isso que digo que foi o coração da nossa essência que foi atingido. E nas minhas possibilidades tentarei repor isto no caminho certo."

Recorda que também no 25 de Abril a família perdeu tudo, mas admite que é mais difícil recuperar a reputação do que o dinheiro. "Mas não é irrecuperável."

Estamos a ponto de nos despedirmos mas resta-me uma pergunta: se falaria ao primo, Ricardo Salgado. "Não. Nem posso, ele está proibido. Nem tenho vontade nenhuma. Não tenho qualquer consideração por ele, ele não tinha o direito de fazer o que fez."