Em 1939 "o calor chegou a valer" e até o burro bebeu do mesmo chafariz que os lisboetas

O que se noticiava a 11 de julho de 1939 podia ser escrito hoje: "Tardou mas chegou a canícula portuguesa". Uma notícia ilustrada com uma fotografia em que um burro bebia água no mesmo chafariz onde as pessoas enchiam as suas garrafas.

João Céu e Silva
Em Lisboa, os populares deixaram o burro beber da sua água conforme prova a foto de primeira página do DN de 1939 | foto Arquivo DN
Os homens juntavam-se na rua em grupos durante as noites quentes de 1939 | foto Arquivo DN
1939: nas noites muito quentes, o povo ia para a rua apanhar ar fresco | foto Arquivo DN
Agosto de 1940, as lisboetas vieram para a rua refrescarem-se | foto Arquivo DN
As crianças tomavam banho na rua em 1962 | foto Arquivo DN
Os piqueniques eram uma alternativa popular à praia em 1940 | foto Arquivo DN
"32,6 graus à sombra", lia-se na primeira página do Diário de Notícias de 21 de junho de 1939 | foto Arquivo DN
A 11 de julho de 1939 o Diário de Notícias titulava: "33 à sombra" | foto Arquivo DN
"As delícias da frescura nas tardes e noites de calor ardente", na edição de 20 de agosto de 1940. | foto Arquivo DN
"Ontem, primeiro domingo de verão - Lisboa ficou deserta e as praias estiveram à cunha", lia-se na edição de segunda-feira, 25 de junho de 1962 | foto Arquivo DN

"32,6 graus à sombra" era o título da notícia da primeira página de quarta-feira 21 de junho de 1939, o primeiro dia em que os portugueses sofreram a sério naquele ano com a vaga de calor que iria manter-se por várias semanas. A notícia avança uma sentença: "O calor foi a valer." Uma constatação que no dia 11 de julho seguinte mantinha-se e confirmava-se da pior forma, pois os graus que estavam no título tinham subido quatro décimas: "33 à sombra."

A situação era tão grave que os lisboetas suspiravam de calor, mas tal desespero não faziam com que tratassem mal os animais. Daí que a fotografia que ilustrava o artigo fosse a de um burro a beber água num chafariz enquanto duas crianças enchiam as suas garrafas com o mesmo líquido. A legenda da foto era esclarecedora: "Até os animais sentiram os efeitos do calor."

Ao fim desse dia, os lisboetas puderam respirar de alívio por uma hora: "As temperaturas baixaram e quase que se chegou a sentir frio. Mas foi apenas uma brisa breve, que os lisboetas aproveitaram para sair de casa e passear à noite pelos jardins, à beira-rio, às avenidas e a ver o movimento da cidade." Houve até quem fosse pescar no rio Tejo durante a madrugada. O calor não se verificava apenas em Portugal e logo aqui ao lado, em Salamanca, o calor era tanto que um paiol de pólvora explodiu e matou mais de cem pessoas.

A 20 de agosto de 1940, a situação não era melhor, mesmo que o título fosse mais poético: "As delícias da frescura nas tardes e noites de calor ardente". O texto mostra que a realidade era antes mais dura: "Portugal continua encalorado e os termómetros marcam temperaturas de forno. Por Lisboa, as colunas de mercúrio subiram aos 36 graus." Mas, logo ao lado, os efeitos do calor eram mais trágicos, pois em Aregos o fogo destruíra vários olivais e pôs em risco algumas casas. A sorte, explica a notícia, foi que "acorreram numerosos populares que conseguiram extinguir o fogo", apesar de as "altas labaredas terem ameaçado vários prédios rústicos", como foi o caso do pertencente a um tenente reformado e família que ficaram sem habitação.

As fotografias que ilustram essa primeira página de 20 de agosto de 1940 mostravam vários lisboetas a aproveitar as esplanadas e três crianças a beberem água de um chafariz. Uma notícia entre elas que seria normal em 1940 chama a atenção: "Hitler partiu de Berlim para um destino desconhecido." Admitia-se que o führer se dirigisse para o quartel general do Sara Ocidental.

Em 1962 o calor também chegou forte a 24 de junho, e no dia seguinte uma grande fotografia ilustrava a primeira página do DN em cima do título "Primeiro domingo de verão - Lisboa ficou deserta e as praias estiveram à cunha". O calor não trouxe problemas, mas era definido como "forte, dominador, vitorioso e implacável, e vai marcar despoticamente os próximos três meses ". Uma temperatura que afligia os lisboetas do modo que a reportagem do DN relatava assim: "Trabalham de camisa aberta, sem gravata (onde lhe permitirem)", por exemplo.

Dois anos mais tarde, a situação era bem diferente e o título da edição de 3 de agosto afirmava: "Vaga de calor em Portugal". Em Lisboa fazia 37,3 graus e em Coimbra subia aos 39,7. A previsão era "continuação de tempo quente" e uma análise das altas temperaturas por todo o país que permitia escrever: "A temperatura esteve insuportável por toda a parte, sem se pressentir uma mudança." Até nas Penhas Douradas, na serra da Estrela, uma das localidades mais frias de Portugal, a situação era alarmante.

A reportagem fotográfica era ampla, com cinco fotografias, entre as quais se destacava a de várias banhistas numa das praias da Linha, com a seguinte legenda: "Bikinis. A cosmopolita praia do Estoril apresentava ontem os últimos modelos de fato de banho". As restantes documentavam as enchentes na praias de Santo Amaro de Oeiras; em Carcavelos, onde os toldos não foram suficientes para tanta solicitação de sombra, bem como várias crianças a tomarem banho junto a um chafariz de um bairro popular de Lisboa e na Piscina Municipal do Alvito.

Mas nem tudo era positivo e ao lado destas fotografias está uma notícia sobre as "consequências trágicas do calor": dois homens mortos quando tomavam banho. Com mais destaque estavam agora os incêndios no interior, um na serra do Picoto em que quatro bombeiros ficaram intoxicados no combate ao fogo durante o combate feito por doze corporações. As altas temperaturas provocaram ainda muitos outros incêndios de norte a sul, conforme davam conta as informações enviadas pelos correspondentes locais do jornal.

Desde a década de 1940, altura em que os registos meteorológicos diários passaram a existir, os piores momentos resultam das ondas de calor que atingiram o país em junho de 1981, julho de 1991, agosto de 2003 e junho de 2005. O ano 1997 e 2017 foram dos mais quentes nos últimas décadas,. A temperatura mais alta de sempre em Portugal verificou-se em 2003 na Amareleja, onde estão instalados os medidores de temperatura, e atingiu os 47,4 graus.