De Cavaco a Guterres. A última experiência portuguesa com mudanças de hora

Entre 1992 e 1995, Portugal adotou a hora da Europa Central, tendo voltando depois ao Tempo Médio de Greenwich (GMT). Jornal espanhol relembrou situação e algumas das polémicas

Rui Salvador
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A consulta pública aos cidadãos europeus feita pela internet, relativamente ao fim da mudança da hora, contou com mais de 4,6 milhões de respostas, a grande maioria alemães. 84% declarou-se interessado em acabar com a mudança da hora e, em Portugal, foram 85%, o que corresponde, ao fim ao cabo, em 29 mil de 34 mil de portugueses votantes.

Com a questão das horas, dos fusos horários, dos relógios e da noite e do dia na ordem de trabalho desde há alguns dias, convém recordar a última "experiência" portuguesa com todos estes conceitos. De 1992 a 1996, a hora não deixou de mudar, mas Portugal adotou a hora da Europa Central, seguindo assim o meridiano de Berlim.

Decisão de Cavaco Silva, tinha como grande meta acertar a hora com outros países da Europa, para melhorar contextos negociais. Em 1996, foi já com António Guterres que Portugal voltou ao Tempo Médio de Greenwich (GMT).

O jornal espanhol El Mundo recorda a situação portuguesa e o "caos em Portugal quando adiantou o seu relógio para coincidir com Espanha". Recorda a mesma publicação que, no último domingo de setembro de 1992, "quando todo o mundo ganhou uma hora, Portugal absteve-se".

No entanto, o desfasamento em relação ao tempo solar era enorme - chegou a ser de duas horas e meia - o que muitas pessoas estranharam, levando a insatisfação. Isto porque no inverno, às nove da manhã chegava a ser de noite, enquanto de verão a noite parecia só chegar por volta das 23:00/24:00. Além disso, houve um aumento do número de ataques de ansiedade e muitas histórias de crianças que ainda iam dormir para a escola.

O "disparate cavaquista", como lhe chamou António Guterres, não duraria mais que os já referidos anos e, por exemplo, como refere também o El Mundo, o número de suicídios baixou cerca de 15%.

Rui Agostinho, diretor do Observatório Astronómico de Lisboa, afirma que Portugal deve manter a situação atual. "O atual regime da Hora Legal em Portugal com Hora de Verão é o melhor quando comparado com as possíveis alternativas. Os Estados membros da União Europeia tiram consequências positivas da existência do regime da Hora de Verão. Contudo, poderia ser melhorado. A União Europeia e o Estado português, com a sua representação nela, deveriam apoiar e aprovar a melhoria do regime atual da Hora de Verão [HdV], alterando para o último domingo de setembro o terminus do período da HdV. Este era o regime de Hora de Verão que se fazia até 1995 nos países do continente europeu, e mostra que sempre foi a escolha, ao longo de muitas décadas, com a qual todos os povos se sentiam relativamente bem", lê-se nas conclusões finais de relatório, a que o DN teve acesso e que foi enviado ao Governo no dia 29 de agosto.