Aprender português num país "very good"

Há casais e famílias inteiras a aprender a nossa língua na Escola Secundária de Caneças, integrados no programa Português para Todos. Nesta turma maioritariamente indiana, uma das motivações dos alunos é aprender para melhor falar com os clientes que vão às suas lojas

Graça Henriques
Suba Singh Bhanga, indiano de 59 anos, gosta da expressão portuguesa "por favor" | foto Orlando Almeida / Global Imagens
Nesta aula, a professora Sandra Almeida passa em revisão os verbos irregulares | foto Suba Singh Bhanga
Hardeep Kaur e o marido Jaimal Singh, ao fundo, têm um minimercado em Odivelas  | foto Orlando Almeida / Global Imagens
A sala está cheia é uma paleta de cor dos saris e das dupattas que as mulheres indianas vestem  | foto Orlando Almeida / Global Imagens
Exercícios de revisão para o exame final de dia 18 | foto Orlando Almeida / Global Imagens
Os verbos irregulares são um desafio para os imigrantes que aprendem português | foto Orlando Almeida / Global Imagens
A jovem Kamaljit, ao centro, é a tradutora de serviço da turma | foto Orlando Almeida / Global Imagens
A Escola Secundária de Caneças acolhe a cada ano letivo 120 formandos nas aulas de português para estrangeiros | foto Orlando Almeida / Global Imagens

À medida que a sala começa a encher-se vai ficando mais e mais colorida: as mulheres indianas vêm vestidas a rigor com os sáris, os homens sihk trazem os turbantes em tons garridos, como o laranja e o azulão... Entram com aquela alegria miudinha, a sorrir com o olhar. Na sala de aula da professora Sandra Almeida a maioria dos alunos são indianos, do Punjab, paquistaneses ou ucranianos. Todos têm um desejo comum: aprender a falar e a escrever português. A maioria quer conhecer a língua para melhor conversar com os clientes portugueses que procuram os seus estabelecimentos - lojas de fruta, de conveniência, de artigos eletrónicos - mas se conseguirem o certificado podem também usá-lo no processo de aquisição de nacionalidade.

A Escola Secundária de Caneças acolhe a cada ano letivo 120 formandos nas aulas de português para estrangeiros, em regime pós-laboral, integrado no programa Português para Todos. Nesta turma há 25 imigrantes. Muitos vêm em casal, como Balvir Singh, indiano, que sai a meio da aula porque tem de ir trabalhar para o restaurante no Cais do Sodré - fica a mulher, Manjit Kaur, que ao chegar a Portugal ficou muito surpreendida por não haver lixo no chão.

Hardeep Kaur e o marido, Jaimal Singh, vieram da região indiana do Punjab e vivem em Odivelas, onde exploram um minimercado. "A minha terra não tem futuro, não tem gente nova", conta Jaimal que queria comprar "com muito gosto" o apartamento onde vivem. "O banco não empresta, só 25, 30 mil euros no máximo... Paguei 1600 euros de IRS, mas não empresta."

São adultos e têm os objetivos bem definidos, uma motivação diferente

Há mais casais. Umair Ali Khan, motorista, volta nesta noite a ter como parceira na sala de aula a mulher, Shumaila, que deu há luz há menos de uma mês. A bebé dorme no carrinho, num dos corredores da escola, à guarda de um amigo. A mãe quis regressar às aulas para se preparar para o exame final, marcado para dia 18. É este empenho que a professora sublinha. "São adultos e têm os objetivos bem definidos, uma motivação diferente." Essa motivação traz também à sua sala famílias inteiras, como a do ucraniano Oleksandr que, nas duas noites que têm aula, vem acompanhado da mulher, do filho e da namorada deste.

A matéria da aula não é fácil para quem fala línguas tão diferentes. É noite de revisões porque se aproxima o exame que lhes poderá dar o certificado de aptidão em Português iniciação A1+ A2. Os verbos irregulares no pretérito perfeito é a matéria que estão a praticar. E, para os formandos, não é fácil perceber que o pretérito de "trazer" se transforma de "traz" para "trouxe" - o X complica a grafia e a fonia. Mas com o tempo, esforço e a olharem para o caderno, os exercícios vão sendo feitos milagrosamente. Pronunciar é a tarefa que se revela mais difícil e que até dá azo a algumas risadas.

Quando a comunicação se torna mais difícil - a professora fala muitas vezes em inglês mas nem sempre é compreendida - para fazer de tradutora para a maior parte da turma, está lá a jovem Kamaljit Kaur, de 20 anos, que fala urdu, inglês e alguma coisa de Português. E que, mesmo não conhecendo a nossa língua fluentemente, já usa os diminuitivos como "muleta". Põe "inhos" e "inhas" em tudo o que diz. "Conheço lojas de telemóveis, o meu pai tem uma loja, e muitas coisinhas assim". Nos exercícios que junta as conjugações verbais e a descrição de uma visita de estudo ao Castelo de São Jorge, Kamaljit não resiste: "Ficámos meia hora, observámos a baixinha..." Ou seja, a baixa pombalina.

A língua pode não ser fácil de aprender mas é bonita, dizem. Alguns já conseguem assinalar a sua palavra preferida. Suba Singh Bhanga, indiano de 59 anos, é uma figura que mete respeito pelas suas longas barbas brancas e turbante, tradições sikh. "Por favor", porque significa educação, é a sua palavra de eleição; o paquistanês Umar Ali Khan prefere "olá", porque facilita a comunicação; "maravilhoso" porque é bonita, é a palavra eleita pela ucraniana Natalia Steshyna enquanto Kamaljit Kaur prefere Deus, porque é isso mesmo, "god".


A aula acaba antes das 23 horas, mas antes há um intervalo para jantar. Muitos trazem iguarias da sua terra e não se esquecem da professora, querem que ela conheça a sua gastronomia. "Há semanas em que não faço almoço nem jantar. Até aprendi a gostar de picante", diz Sandra Almeida.

As mulheres portuguesas são simpáticas, sorriem muito e vestem roupas bonitas

No bar há uma mesa de mulheres. Nitu, 30 anos, é a mais conversadora, está ansiosa para falar da cultura do seu país, mas acaba por se perder na apreciação àsmulheres portuguesas que "são simpáticas, sorriem muito e vestem roupas bonitas". Ela, que não traz sári, considera que as portuguesas são "mais modernas, mais fashion". A jovem Kamaljit entra na conversa. "Na nossa terra temos que usar dupatta", diz enquanto pega no lenço que lhe cobre o pescoço e fala das roupas curtas das ocidentais. "Não acho mal, mas nunca usei... As mulheres portuguesas são mais independentes porque trabalham. O meu pai deixa trabalhar, mas agora estou concentrada nos estudos", acrescenta.

Nitu, que na Índia era professora primária (o marido é engenheiro mas aqui é pintor) sente precisamente falta de ter uma atividade que a tire do aborrecimento que é estar fechada em casa. Mesmo não falando bem português - "nunca podemos perder a esperança..." Essa mesma esperança que a trouxe à procura de um futuro melhor, como aos seus colegas de turma. Porque, dizem, "Portugal is very good"!