Alunos do Porto contestam cortes e duvidam que vagas para o Interior sejam preenchidas

Federação Académica defende que objetivo de qualificar mais portugueses não será alcançado retirando oferta em Lisboa e no Porto, onde existe "capacidade instalada e corpo docente"

Pedro Sousa Tavares
© Rui Oliveira / Global Imagens

O presidente da Federação Académica do Porto (FAP), João Videira, critica a redistribuição de vagas promovida neste ano pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, que retirou 1066 lugares a nove universidades, institutos politécnicos e escolas superiores de Lisboa e do Porto. Em declarações ao DN, O dirigente estudantil defende que "não será a retirar vagas a instituições de Lisboa e do Porto, onde existe capacidade instalada e corpo docente, que serão alcançados os objetivos de aumento de qualificação dos portugueses". O estudante do Instituto Superior de Engenharia do Porto garante ainda que muitas das instituições que foram beneficiadas neste concurso nacional de acesso "não vão conseguir" preencher os novos lugares que criaram, por falta de procura.

"No caso das instituições de Coimbra, Aveiro e Braga, acredito que [os novos lugares] sejam preenchidos", admite. "Mas as outras cerca de 500 vagas afetadas às instituições mais do Interior não o serão claramente", aposta. Para ilustrar essa convicção, o estudante dá o exemplo de instituições agora beneficiadas com aumentos de vagas que, em concursos anteriores, têm ficado longe de preencher todos os lugares na 1.ª fase, como "A Universidade do Algarve, a Universidade de Aveiro e o Politécnico de Bragança".

Muitas instituições acabam por preencher os lugares não colocados na 1.ª fase através de outros concursos, nomeadamente o destinado a maiores de 23 anos, e João Videira admite que possa ser esse o destino de muitos dos lugares agora transferidos. O problema, defende, é que o sistema "não está preparado" para trabalhar convenientemente com estes alunos, "geralmente trabalhadores estudantes", como demonstram os resultados. "Há um relatório da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e da Ciência que indica que, ao fim de três anos, 50% dos que ingressaram através do regime para maiores de 23 anos abandonaram."

Admitindo a "relevância" de se promover o desenvolvimento do interior do País, o dirigente da FAP considera também que isso "não foi feito" nestas vagas, "já que cerca de metade dos mais de mil lugares retirados a Lisboa e Porto foram para outras instituições localizadas no Litoral do país". Em todo o caso, defende, se o objetivo era fazer discriminação positiva, esta deveria ter acontecido permitindo a criação de novas vagas e não eliminando de um lado para criar no outro". Quanto ao argumento do governo de que mais de 70% dos estudantes do superior estão em Lisboa e Porto, João Videira considera que o impacto desta medida "é residual" nesse campo.