Alimentação das cantinas escolares motivou 854 queixas este ano letivo

Foram servidas mais de 25 milhões de refeições aos alunos do 2.º e 3.º ano de escolaridade e ensino secundário de escolas cujas cantinas estão concessionadas a privados

As refeições escolares servidas aos alunos, este ano letivo, motivaram 854 queixas, sendo as principais causas de reclamação a falta de pessoal e a qualidade e quantidade dos alimentos, revela o relatório anual do Ministério da Educação (ME).

Ao longo do ano letivo, que agora terminou, foram servidas mais de 25 milhões de refeições aos alunos do 2.º e 3.º ano de escolaridade e ensino secundário de escolas cujas cantinas estão concessionadas a privados.

Segundo o relatório divulgado pela Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE), foram feitas 854 denúncias, principalmente por falta de pessoal (266 reclamações), por servirem refeições muito pequenas (263 queixas) e servirem alimentos sem qualidade (163).

Depois de mais um arranque de ano letivo marcado por críticas de alunos e encarregados de educação aos refeitórios, o ME desenhou e implementou um plano de controlo da qualidade das refeições.

Foram criadas equipas regionais de fiscalização que, ao longo do ano, realizaram cerca de 80 visitas a cantinas e provaram quase 165 mil refeições, tendo avaliado positivamente esses pratos.

Uma cantina da região de Lisboa e Vale do Tejo foi multada em 250 euros por falta de condições de higiene

O relatório conclui que a presença das equipas melhorou o serviço prestado e reduziu o número de queixas, destacando-se o Alentejo, onde deixaram de se registar reclamações em 57,1% das escolas que anteriormente tinham sido alvo de denúncias.

Curiosamente foi no Alentejo que se aplicaram mais multas, todas por falta de pessoal.

Uma cantina da região de Lisboa e Vale do Tejo também foi multada em 250 euros por falta de condições de higiene. Já as inspeções feitas no norte motivaram apenas 18 propostas de notificação de penalização.

As quase 165 mil refeições testadas pelas equipas de fiscalização tiveram uma avaliação média de "Bom" nos seis itens: confeção, qualidade dos produtos, apresentação do serviço e do pessoal, eficiência e higiene.

Há cinco mil escolas públicas e quase todas têm um refeitório: Dos 1.148 refeitórios nas escolas do 2º e 3º ciclo e secundário, mais de metade (778) é gerido por empresas

No entanto, a análise destas equipas não previa a avaliação do rácio de pessoal nem a quantidade dos produtos, as duas situações que provocam mais reclamações.

Em média, cada refeição servida nos 776 refeitórios concessionados pela DGestE custaram cerca de 70 cêntimos, já que as 26.514.879 (26,5 milhões) refeições tiveram um custo total de 37.846.835 (37,8 milhões) euros, segundo os números do relatório.

Os 776 refeitórios forneceram, em média, 170 mil refeições por dia.

Há cinco mil escolas públicas e quase todas têm um refeitório: Dos 1.148 refeitórios nas escolas do 2º e 3º ciclo e secundário, mais de metade (778) é gerido por empresas, sendo os restantes geridos pelas escolas (348) e autarquias (24).

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".