Gasolinas, Titó, Ruben e Rafa: quem eram os jovens que morreram no IC8

Minutos antes do acidente, um dos trabalhadores partilhou um post bem-disposto no facebook. Um dos colegas não foi trabalhar por estar doente e escapou

Poucos minutos antes do brutal acidente que lhe tirou a vida, esta manhã, Joel Aires, o "Gasolinas" (como é conhecido entre os amigos), 28 anos foi igual a ele próprio: no grupo "Operação Stop - Pombal", partilhou um post bem-disposto: "A medir o peso à malta...ponte Repsol." Queria ele dizer que a carrinha Iveco em que seguia com os colegas Cristóvão, Rafael e Ruben, tinha acabado de ser fiscalizada nas balanças da GNR, junto ao posto de combustível da Repsol, à saída de Pombal. Ironia do destino, esta, já que Joel tinha a alcunha de "Gasolinas", pois antes de se dedicar a assentar pavimentos, foi durante anos funcionário numa bomba de gasolina. Os amigos falam dele como "um tipo cinco estrelas, sempre bem-disposto". Era assim que estaria esta manhã, quando saiu de sua casa, em Carnide de Baixo, a dois passos da empresa Pavimilhas, onde trabalhava.

Na carrinha seguiam também Cristóvão Carreira, 24 anos, (conhecido por Titó), residente na vizinha aldeia de Bouchada, da mesma freguesia de Carnide; Ruben Ferreira, 25 anos, natural do Pinheirinho, a residir em Folgado, próximo de Pombal, e ainda Rafael Mendes, de apenas 21 anos, natural de Pombal. A carrinha foi pesada nessa ação de fiscalização, conforme haveria de confirmar mais tarde o tenente Daniel Matos, graduado da GNR que coordenou as operações no local do acidente.

Os quatro trabalhadores deixaram o IC2 (antiga estrada nacional 1) e seguiram em direção ao IC8, no meio de um nevoeiro cerrado, que não permitia ver mais que um palmo a quem conduzia esta manhã na zona de Pombal. Não se sabe ainda qual deles conduzia a carrinha. Ao que o DN apurou, poderia ser qualquer um dos quatro. Sabe-se apenas que ao km 34 do IC8, no sentido Pombal-Figueira da Foz, próximo da localidade de São João da Ribeira, a carrinha da empresa Pavimilhas terá saído da sua faixa de rodagem, embatendo violentamente numa outra carrinha ligeira de passageiros - que circulava em sentido contrário - igualmente de seis lugares, mas onde seguiam apenas dois ocupantes: Hélder Gomes, 36 anos, natural de Água Formosa, e Sebastião Miranda, cidadão brasileiro que reside na vila da Guia e do qual não conseguimos saber a idade. Os dois trabalhavam para a empresa de construção Ilhaugusto, com sede no Casal da Clara.

Cenário dantesco na estrada

Quando os bombeiros voluntários de Pombal chegaram ao local, depois do alerta dado pelas sete da manhã, encontraram um cenário dantesco. "Primeiro até pensávamos que era só uma carrinha, tal era a forma como ambas estavam enfaixadas", disse ao DN um dos 30 bombeiros que estiveram no local, apoiados por 13 viaturas, entre carros de desencarceramento e ambulâncias. Mas rapidamente "percebemos que não havia sobreviventes", disse mais tarde Paulo Albano, comandante da corporação. O que quer dizer que os seis ocupantes das duas viaturas terão tido morte imediata, tal a violência do choque frontal.

Quando recebeu a chamada para deslocar vários carros para o local, Eusébio Rodrigues não podia imaginar que iria encontrar entre os cadáveres os rapazes vizinhos. O antigo presidente da Junta de Carnide, proprietário da funerária Pombalense, acabaria por confrontar-se a frio com a realidade: "São trabalhadores da chapa, de uma empresa de Carnide", disse ao DN quando ainda estava no local, onde as autoridades tiveram dificuldade em identificar os corpos. Os trabalhos de desencarceramento das viaturas e remoção dos destroços demoraram toda a manhã, de modo que o IC8 só foi reaberto próximo das 13 horas.

O amigo que escapou

No centro da freguesia de Carnide chora-se a morte dos quatro jovens, enquanto a poucos quilómetros dali as autoridades tentam desimpedir a via e apagar do chão as marcas do terrível acidente. Até há pouco tempo estavam registadas 32 empresas similares à Pavimilhas, só naquela freguesia. Não admira por isso que a maioria dos jovens que não segue os estudos acabe a trabalhar "na chapa", a pavimentar ruas e estradas. "É um trabalho muito duro, de grande esforço físico, mas ganha-se muito bem", diz ao DN um dos habitantes da localidade.

No café do centro junta-se um grupo de jovens. Confortam-se uns aos outros, todos vizinhos ou amigos de Gasolinas, Titó, Ruben e Rafa. E confortam também João (nome fictício) um dos colegas que prefere não ser identificado, e que escapou à morte no acidente desta manhã, por estar de baixa.

Ainda não acredita. Chora de cada vez que alguém se aproxima. Mas o pior foi quando chegou Isabel Ferreira, mãe de quatro filhos, todos eles trabalhadores naquele ofício. "Já viu? Vão para governar a vida e encontram a morte", diz ao DN. "Podia ser o meu Gerson, no lugar deles", continua, referindo-se ao mais novo dos quatro rapazes - dois a trabalhar em França, dois em Portugal, para empresas da freguesia. Isabel soube da notícia quando saiu à rua, de manhã, e viveu minutos de sobressalto até perceber que a carrinha do acidente não era de nenhuma empresa dos filhos.

João, o colega e amigo, não pára de atender telefonemas. "Sim, o Rafa também. E o Ruben, e o Titó. E o Gasolinas." O mais novo era bem conhecido na cidade de Pombal, por ser filho dos proprietários da geladaria 2000, que há poucos dias estivera em festa, a comemorar 30 anos de existência. Rafael (Rafa) tinha apenas 21 anos e trabalhava há poucas semanas na empresa. Também Cristóvão se mudara há pouco tempo para a Pavimilhas, embora já se dedicasse a este ofício há mais tempo. Paralelamente, trabalhou na discoteca Palace Kiay, em Meirinhas, onde continuava a ser bastante estimado pelos proprietários. Já Ruben Ferreira tinha grande paixão por cavalos. O jovem preparava-se para ser pai, daqui a alguns meses.

Também Helder Gomes, 36 anos, deixa dois filhos menores, de 10 e 13 anos. As empresas onde trabalhavam as seis vítimas mortais não adiantaram o destino dos trabalhadores. Em cada uma delas o ambiente é de grande consternação, não sendo ainda conhecida a data dos funerais. Os corpos seguiram para o Instituto de Medicina Legal de Coimbra.

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