Ex-comandante das forças terrestres contra regresso do Serviço Militar Obrigatório

General questiona se a solução é "voltar a apostar em quantidade, com pouca qualidade" do que em militares com formação

O general Faria de Meneses, ex-comandante das Forças Terrestres, recusa o regresso do Serviço Militar Obrigatório (SMO) e defende mudanças no atual modelo com incentivos à permanência dos militares na carreira.

O regresso do SMO "como panaceia para a falta de efetivos não é boa solução sem esgotar as soluções adotadas" no atual momento, afirmou Faria de Meneses ao intervir na escola de quadros da Juventude Popular (JP) em Peniche, Leiria, convidado a falar sobre os desafios da Defesa Nacional, e em resposta a uma pergunta de um participante.

O general questiona se a solução é "voltar a apostar em quantidade, com pouca qualidade" do que em militares com formação, dado que as Forças Armadas podem não necessita de 30.000 militares, mas podem minorar os problemas com cerca de 2.000.

Para Faria de Meneses, o atual modelo, baseado no profissionalismo, "tem sido testado ao limite", atrai pouco os jovens e a solução poderia passar por uma criação de quotas, na função publica ou nas forças policiais, para quem queira fazer carreira militar.

Uma "opção política clara", afirmou, que tem de ser tomada "pelo Estado como um todo", não só quanto às reformas necessárias para atrair militares para a carreira, como quanto ao aumento dos com gastos com a Defesa a que Portugal de comprometeu junto da NATO.

Olhando os números, lembrou que 1,3% do PIB pode representar "quase metade do orçamento da saúde".

"O Estado tem que assumir" essa opção, que "tem um custo político", disse.

Em julho, o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, admitiu discutir o SMO, depois de visitar a Lituânia, país que tem um modelo em que 3.000 a 3.500 passam pelas forças armadas por períodos de nove meses.

A posição valeu-lhe críticas da parte da Juventude Socialista, que se bateu pelo fim do Serviço Militar Obrigatório, em 2004.

Em setembro, Azeredo Lopes afirmou que "não está no horizonte próximo" do Governo essa discussão.

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