Esqueçam o museu Salazar. O que vai nascer vai "incomodar" os salazaristas

Quem for ao futuro Centro de Interpretação do Estado Novo, em Santa Comba Dão, à espera de uma apologia do regime de Salazar vai sentir-se, "mais do que desiludido, incomodado". Rede de centros nasce no interior do país.

Acossada pela polémica, a Câmara Municipal de Santa Comba Dão recusou que tivesse a intenção de fazer um museu Salazar. O presidente da Junta de Freguesia de Óvoa e Vimieiro, Rui Oliveira, explicava ao DN que ali, na antiga escola-cantina Salazar, "nunca" existirá "um oratório de Salazar". Agora, com o aval científico, sabe-se que quem for ao Centro de Interpretação do Estado Novo, a instalar naquela freguesia de Santa Comba Dão, à espera de uma perspetiva apologista do regime liderado por Salazar vai sentir-se, "mais do que desiludido, incomodado".

A afirmação é de um dos coordenadores científicos do projeto, João Paulo Avelãs Nunes, que explicou: "Quem for ao Centro de Interpretação do Estado Novo numa perspetiva de apologia do Estado Novo, diria eu que vai sentir-se, mais do que desiludido, incomodado, porque, normalmente, pessoas que têm essa visão não gostam de um discurso historiográfico sobre o Estado Novo." Ao DN, Avelãs Nunes reiterou: "Não será um mausoléu."

No dia em que foi divulgada a vontade de criar uma Rede de Centros de Interpretação e Memória Política da I República e do Estado Novo, dentro de dois anos, João Paulo Avelãs Nunes vincou em declarações à agência Lusa que as pessoas que têm uma visão positiva do Estado Novo gostam de um discurso laudatório em torno do regime, que "nunca será o caso" do projeto a criar. "Não será laudatório, nem condenatório. Como é óbvio, quando se caracteriza uma ditadura, para quem gosta de ditaduras, a caracterização [que será feita no centro] será antipática", apontou.

O projeto de Santa Comba Dão será incluído na referida rede que contará com mais quatro espaços distribuídos por outros tantos concelhos da região das Beiras (Penacova, Carregal do Sal, Tondela e Seia), com o objetivo de promover o conhecimento e o aprofundamento da democracia.

"Não será laudatório, nem condenatório. Como é óbvio, quando se caracteriza uma ditadura, para quem gosta de ditaduras, a caracterização será antipática."

Após uma notícia que antecipava o arranque de obras na Escola-Cantina Salazar, que deverá ocorrer nas próximas semanas, para aí instalar o Centro de Interpretação do Estado Novo, surgiram petições contra a iniciativa, uma delas com mais de 15 mil assinaturas, endereçada ao primeiro-ministro, António Costa, que atribuía ao espaço o nome de museu Salazar, que os promotores rejeitam.

A Câmara Municipal de Santa Comba Dão esclareceu, no dia 24 de agosto, que nunca teve intenção de criar um museu dedicado a Salazar, referindo que o Centro de Interpretação do Estado Novo estará integrado na tal rede de centros, com consultoria científica do CEIS20.

João Paulo Avelãs Nunes vincou que, numa sessão de apresentação da rede em julho, foi dito "expressamente" que, ao contrário de outros espaços, como a Casa-Museu Aristides de Sousa Mendes, a 22 quilómetros, o do Vimieiro "nunca seria uma casa-museu".

Um centro de 1926 a 1974

Segundo o historiador com vários trabalhos publicados em torno do Estado Novo, o Centro de Interpretação vai abordar todo o período entre 1926 (quando se instaura a ditadura militar) e 1974, caracterizando o regime, comparando-o com outras "soluções políticas ditatoriais na Europa e no mundo" naquele período, sejam elas ditaduras de tipo fascista ou de tipo comunista.

"Falaremos da época dos fascismos, do período da Guerra Fria, da Segunda Guerra Mundial, da Guerra Colonial, da crise de 1969, da repressão, da resistência, das grandes estruturas e organizações da sociedade portuguesa e da sua relação com o regime, falaremos dos ditadores - Salazar e Marcelo Caetano -, falaremos das outras elites do Estado Novo, dos conflitos entre elites, das correntes modernizadoras, conservadoras e tradicionalistas. Falaremos disso tudo", esclareceu.

Para João Paulo Avelãs Nunes, o projeto vai "ocupar o espaço simbólico com um discurso interpretativo e de fomento da democracia na localidade onde nasceu o principal ditador do Estado Novo".

Sobre o perigo de a localidade se transformar em local de romaria, o historiador vincou que o saudosismo quanto ao Estado Novo em Santa Comba Dão "não é fenómeno de massas", resumindo-se a umas dezenas de pessoas por ano que vão à terra natal de Salazar em homenagem do ditador.

Para além disso, João Paulo Avelãs Nunes apontou para o exemplo de Predappio, em Itália, a terra natal do ditador fascista Benito Mussolini, onde há "manifestações gigantescas, duas vezes por ano", em homenagem ao fascismo italiano, numa terra onde "ainda hoje o Partido Democrático tem maioria nas eleições".

"Para combater essa conquista desse espaço pela extrema-direita, o presidente da Câmara encomendou à Universidade de Bolonha, ao seu Departamento de História, um Centro de Interpretação sobre o Fascismo Italiano. Não o fez para criar manifestações ou para vender Predappio turisticamente", vincou, salientando que é isso que o CEIS20 está a fazer em Santa Comba Dão, com a vantagem de se estar num país em que a extrema-direita "tem menos de 1% [dos votos] e as pessoas que vão ao Vimieiro são algumas unidades por ano e não centenas de milhares", como no caso de Itália.

" Jamais se deve fazer um museu de Salazar"

O fundador do CEIS20 e conselheiro na rede de centros interpretativos, Luís Reis Torgal, recorda que a ideia de um espaço de interpretação do Estado Novo em Santa Comba Dão surgiu nos anos 1990, sendo que a sua posição não se alterou desde então: "Jamais se deve fazer um museu de Salazar, mas deve-se fazer aquilo que se chama agora de Centro de Interpretação do Estado Novo." Nessa década, chegou a ser contactado pela autarquia, mas abandonou a colaboração com o projeto do presidente da câmara municipal da altura, quando a iniciativa "descambou para uma ideia salazarística".

Sobre as opiniões e petições que circulam sobre o projeto atual (que não está relacionado com o dos anos 1990), Luís Reis Torgal notou uma falta de sentido crítico. "As pessoas não têm tempo para ver o que está por trás daquilo [das petições]. As pessoas não vão ver os documentos. Quem é que leu a nota que vinha no site do município de Santa Comba Dão?", questionou, referindo que a maioria das pessoas que assinou as petições - contra e a favor de um dito museu de Salazar - assinou "sem espírito crítico".

Em 24 de agosto, o presidente da Câmara de Santa Comba Dão, Leonel Gouveia (PS), garantiu em comunicado que a autarquia que lidera "jamais teve intenção de promover a criação do denominado museu Salazar".

O autarca justificou o esclarecimento "em nome da verdade" e consciente das notícias, "muitas delas descontextualizadas", que davam como certa a criação, em Santa Comba Dão, de um museu dedicado a António de Oliveira Salazar, contrapondo que a intenção do município é criar este Centro de Interpretação do Estado Novo, hoje apresentado.

Para além do Centro de Interpretação do Estado Novo, em Santa Comba Dão, a rede integra ainda o Centro de Interpretação da Primeira República/Casa-Museu António José de Almeida (Vale de Vinha, Penacova), Centro de Interpretação do Antissemitismo e do Holocausto/Casa-Museu Aristides de Sousa Mendes (Cabanas de Viriato, Carregal do Sal), Centro de Interpretação da Estância Sanatorial do Caramulo (Guardão, Tondela) e o Centro de Interpretação da Primeira República/Afonso Costa (Seia).

Os centros de Santa Comba Dão, Carregal do Sal, Penacova, Tondela e Seia terão consultoria científica e tecnológica do CEIS20, num projeto que junta cinco câmaras municipais e a ADICES (Associação de Desenvolvimento Local). Para a iniciativa, será criado um conselho consultivo, para o qual serão convidadas entidades como o Museu da Presidência, o Instituto de História Contemporânea, outras unidades orgânicas do ensino superior e associações cívicas, por forma a garantir que os objetivos iniciais de cada um dos projetos não serão adulterados.

Discussão até novembro, rede em dois anos

O projeto, neste momento, até novembro, está em fase de discussão das linhas orientadoras de produção de conteúdos, que serão aprovadas pelas entidades que encomendaram o projeto ao CEIS20 e, posteriormente, pelo conselho consultivo, que será criado em breve, explicou Avelãs Nunes.

Dentro de dois anos deverá nascer a rede. O projeto foi iniciado pela ADICES, com sede em Santa Comba Dão, em parceria com três municípios e o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20) da Universidade de Coimbra, que presta consultoria científica, tecnológica e deontológica, aos quais se juntaram as autarquias de Seia e Penacova.

"Há sensivelmente três anos que temos vindo a trabalhar num projeto que entendemos como da máxima importância para o território, através da criação de uma rede de centros interpretativos, onde está em causa o holocausto, em Cabanas de Viriato, associado à figura de Aristides Sousa Mendes, mas também a estância sanatorial do Caramulo, no Guardão (Tondela), e o Estado Novo", explicou à agência Lusa João Carlos Figueiredo, coordenador da ADICES.

O objetivo da associação "era mostrar a importância da região na história do século XX". "E quando estabelecemos contacto com o CEIS20 da Universidade de Coimbra, apercebemo-nos de que eles próprios também estão a trabalhar num projeto muito parecido, nomeadamente com o Centro Interpretativo da I República, em Penacova [António José de Almeida], e com o Afonso Costa, em Seia."

"Ao longo da construção deste projeto, percebemos que havia a necessidade de construirmos uma base científica e histórica que suportasse, de uma forma isenta, todo um projeto que se pretende que seja objetivo, em que não há mestres, não há ideologias", sublinhou João Carlos Figueiredo.

Centros serão atração para os territórios

A rede, que terá uma fase posterior com Tomás da Fonseca e Branquinho da Fonseca no Centro Interpretativo da Literatura do Século XX, pretende ser um motivo de atração para os seus territórios, conjugando-se "com potencialidades que já existem ou que venham a existir, como é o caso da Ecopista do Dão, que é também uma mais-valia da região, e a Ecovia do Mondego que está em fase de arranque".

"Esta é a nossa visão no sentido do desenvolvimento que queremos que seja integrado, equilibrado. Obviamente, não procurando fama nenhuma, nem exaltar ideologias e fazer apologia do que quer que seja, que não seja obviamente a história que não se apaga", reiterou.

António Rochette, coordenador do CEIS20, salienta que este projeto "está inserido dentro de uma estratégia do próprio Centro de Investigação que já vem de muito longe, de desenvolver trabalhos sobre a I República e o Estado Novo, o que se reflete claramente naquilo que é o plano estratégico para a próxima década".

"Nós não queremos que [os centros] sejam quatro paredes, mas que cada um destes locais, muitos deles até isolados, tenham uma dinâmica pedagógica para as novas gerações, ou seja, que tenha uma vertente de educação a trabalhar para o esclarecimento e para a formação das novas gerações, para que aquilo que aconteceu de bom se repita e o de mau não se repita", frisou.

O coordenador do CEIS20 salienta que o projeto trabalha ao nível da componente cultural, política e das "componentes ligadas a vivências de um território de baixa densidade", abrangendo lugares que "95% dos portugueses não sabem onde é que ficam".

"Nós estamos a trabalhar numa lógica daquilo que é um dos grandes desígnios portugueses, que é a manutenção de população em territórios de baixa densidade, tentando chamar gente para esses mesmos territórios e promover também algum desenvolvimento desses mesmos territórios que estão nessa situação", enfatizou António Rochette.

Segundo João Paulo Avelãs Nunes, os cinco centros de interpretação "têm temas atuais, realidades que aconteceram no passado, património e possibilidades de reutilização no presente, quer para o debate cívico, sempre de reforço da democracia e de qualificação dos territórios e das pessoas que vivem nos territórios".

O académico, diretor do departamento de História e Estudos Europeus, Arqueologia e Artes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, salientou que, "aqui, o papel da historiografia e das outras ciências sociais não é determinar o que as pessoas devem pensar, mas propor análises, comparações que depois as pessoas utilizarão como cidadãos".

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