Confissão de um arrependido. "Disse ao Fernando Mendes que aquilo nunca poderia ter acontecido"

O julgamento do ataque à Academia de Alcochete, do Sporting, tem início esta segunda-feira em Monsanto e decorre sob medidas de segurança apertadas. Bruno de Carvalho, Mustafá e Bruno Jacinto são acusados de serem os autores morais do crime, que ocorreu em maio de 2018.

O julgamento do processo do ataque à Academia de futebol do Sporting, em Alcochete, começa esta segunda-feira no Tribunal de Monsanto, em Lisboa, com 44 arguidos, entre os quais o ex-presidente Bruno de Carvalho. A audiência decorre sob medidas de segurança apertadas. Bruno Jacinto, antigo funcionário do Sporting, deverá ser o único a prestar declarações nesta sessão.

Alguns dos arguidos chegaram a tribunal com o rosto tapado pelo carapuço do casaco. O arguido e antigo líder da Juventude Leonina (JL), Fernando Mendes, foi o único que não compareceu em tribunal, por motivos de saúde.

O antigo presidente do Sporting não quis prestar declarações aos jornalistas à entrada do tribunal, apenas deixando um comentário: "não me vai dizer que também estou acusado de terrorismo, outra vez, ou vai?".

Antes, o seu advogado garantiu que Bruno de Carvalho iria falar na audiência. "Ele vai falar seguramente", disse Miguel Fonseca aos jornalistas. Mas não deverá ser nesta sessão. Questionado sobre aquilo que pretende expor em tribunal, o representante do arguido respondeu: "A verdade dos factos. É só para isso que eu estou aqui".

Já na sala de audiências, os 44 arguidos apresentaram-se, identificando dados pessoais como o nome, o estado civil, a naturalidade, a idade, a profissão e a morada. Questionado sobre a profissão que exerce atualmente, Bruno de Carvalho disse ser comentador desportivo, segundo o JN.

O processo pertence ao Tribunal de Almada, mas por "questões de logística e de segurança" realiza-se em Monsanto, em Lisboa, explicou anteriormente à agência Lusa fonte judicial. O julgamento é presidido pela juíza Sílvia Rosa Pires, tem como procuradora Fernanda Matias. Fátima Almeida e Dora Fernandes são as restantes juízas.

Bruno Jacinto sabia que "iam à Academia", mas não como

Bruno Jacinto, considerado um dos autores morais do ataque à Academia e conhecido como 'o arrependido', escolheu prestar declarações nesta audiência.

O ex-oficial de ligação aos adeptos do Sporting conta que teve "conhecimento que iam adeptos falar com jogadores a Alcochete por causa de um dos adeptos, tal como já tinha acontecido no passado". "Os maus resultados causaram um grande descontentamento entre os adeptos", recordou.

Contudo, segundo conta o Expresso, apesar de Bruno Jacinto ter tido conhecimento de que os membros da Juve Leo "iam à Academia", não sabia "de que forma iriam contestar a equipa". "O Tiago Silva [da direção da JL] não me disse quantas pessoas iriam a Alcochete. Do outro lado da rua estava o Fernando Mendes, mas não falei com ele. A conversa aconteceu junto do multidesportivo em Alvalade. Tentei falar uma segunda vez com o meu diretor, por diversas formas, mas ele não me respondeu." Por isso, por volta das 17:00, terá alertado o diretor de segurança da Academia, Ricardo Gonçalves: "Perguntou-me o que eles iam lá fazer. Disse-lhe que iriam questionar sobretudo os três jogadores que tiveram atritos no aeroporto, Acuña, Battaglia e Rui Patrício".

O antigo funcionário responsável pela ligação aos adeptos do clube disse ainda que informou o ex-diretor desportivo André Geraldes (fora do banco de réus) da visita do grupo à Academia, via WhatApp. Mas esta conversa nunca foi encontrada durante a investigação.

Bruno Jacinto erá chegado a Alcochete pelas 17:26, quando vê "um grupo de pessoas". "Vi quem eram, eram cinco elementos da Juve Leo, Fernando Mendes, Nuno Torres, Joaquim Costa, Sérgio Santos... Foi então que comecei a perceber a situação. Os tais elementos da JL foram para a zona de formação, que é visível a todos. Falei com eles para perceber o que se tinha passado. Disse ao Fernando Mendes que aquilo nunca poderia ter acontecido e eles garantiram que tinham entrado, todos, de cara descoberta."

De acordo com o ex-funcionário, ficou por ali durante 40 minutos, viu William de Carvalho a parar o carro e a conversar com eles. Viu ainda a GNR, "que nada fez". "Se a GNR não fez nada ao grupo de cinco elementos da Juventude Leonina, quem sou eu para o fazer", justifica-se.

Acrescenta que foi ele próprio quem deu autorização para que o carro de Nuno Torres entrasse no estabelecimento. "O Nuno Torres perguntou-me se lhe podia dar boleia até ao carro dele. Dei-lhe boleia. Perguntou-me se podia usar o meu carro para entrar na Academia, já durante a viagem. Perguntei a outro funcionário da Academia, o Ricardo Vaz, se era possível a portaria dar autorização para o BMW azul do Nuno Torres entrar. Era para ir buscar outros elementos. Fomos até ao Montijo, onde estava o carro dele. Eu segui, depois, para a Ponte Vasco da Gama. Não fiquei admirado por ver aquelas pessoas na Academia".

Dois arguidos em preventiva

A 1 de agosto, o juiz de instrução criminal Carlos Delca pronunciou (decidiu levar a julgamento) todos os arguidos nos exatos termos da acusação do Ministério Público (MP), deduzida pela procuradora Cândida Vilar, depois de vários arguidos requererem abertura de instrução, fase facultativa que visa decidir se o processo segue e em que moldes para julgamento.

Na decisão instrutória, este juiz determinou que todos os arguidos que se mantinham em prisão preventiva passassem para prisão domiciliária (OPHVE), exceto o líder da claque Juventude Leonina, 'Mustafá', que continua em prisão preventiva.

Com Obrigação de Permanência na Habitação, com Vigilância Eletrónica (OPHVE), permanecem 36 dos 44 arguidos, depois de Elton Camará ter cortado a pulseira eletrónica, o que levou um juiz a ordenar a prisão preventiva deste arguido.

Bruno de Carvalho, que até esse dia estava sujeito à medida de coação de apresentações diárias às autoridades e ao pagamento de uma caução de 70 mil euros, passou a estar obrigado a apresentar-se quinzenalmente.

A acusação do Ministério Público (MP), assinada pela procuradora Cândida Vilar, conta que, em 15 de maio de 2018, a equipa de futebol do Sporting foi atacada na Academia do clube, em Alcochete, distrito de Setúbal, por elementos do grupo organizado de adeptos da claque Juventude Leonina e do subgrupo Casuais (Casuals), que agrediram técnicos, jogadores e staff.

Todos os crimes de que estão acusados

Bruno de Carvalho, Mustafá e Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação aos adeptos, estão acusados, como autores morais, de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo. Os três arguidos respondem ainda por um crime de detenção de arma proibida agravado e Mustafá também por um crime de tráfico de estupefacientes.

Aos arguidos que participaram diretamente no ataque à Academia, o MP imputa-lhes a coautoria de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo.

Estes 41 arguidos vão responder ainda por dois crimes de dano com violência, por um crime de detenção de arma proibida agravado e por um crime de introdução em lugar vedado ao público.

Para a procuradora Cândida Vilar, que viu a acusação do MP confirmada pelo juiz de instrução criminal Carlos Delca, o então presidente do clube, Bruno de Carvalho, Mustafá e Bruno Jacinto estavam a par do plano e "nada fizeram" para impedir o ataque.

"Bruno Jacinto, Bruno de Carvalho e Nuno Mendes [Mustafá] conheciam o plano delineado pelos restantes primeiros 41 arguidos e determinaram-nos à prática dos crimes de ameaça, ofensa à integridade física e sequestro", lê-se na acusação.

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