Última manhã de campanha marcada por demissão de May

Preocupação e "sinal dos tempos" difíceis que se avizinham para o Parlamento Europeu. Como os candidatos portugueses às europeias reagiram à saída da primeira-ministra britânica do cargo

O candidato socialista europeu Pedro Marques, que iniciou hoje o último dia de campanha na vila de Moscavide, mostrou-se preocupado com a possibilidade de os conservadores britânicos que defendem um 'Brexit' duro ganharem força com a demissão de Theresa May da liderança do Partido Conservador e do governo.

"Naturalmente preocupa-me que esta demissão de Theresa May possa significar que os 'hard brexitiers', dentro dos conservadores, as pessoas que querem um 'Brexit' duro, ganhem força", disse aos jornalistas, à chegada a Moscavide, onde inicia hoje o último dia de campanha.

Para o cabeça de lista socialista, a demissão de May significa que a Europa está "mais longe de um 'Brexit' com acordo", ainda que Pedro Marques tenha a "secreta esperança" de que o Reino Unido venha a permanecer na União Europeia.

Considerando que, agora, "a bola está do lado do Reino Unido", Pedro Marques lembrou que a Europa fez um acordo "muito extenso", propondo "várias modalidades", e disse esperar que, perante as "várias possibilidades", os britânicos não escolham o 'Brexit' descontrolado.

"Caso venham a decidir sair, que decidam por um 'Brexit' com acordo, que proteja as relações comerciais entre o Reino Unido e a Europa, a circulação das pessoas, dentro dos limites que estão estabelecidos, protegendo assim também os portugueses que estão no Reúno Unido e o turismo aqui no nosso país", concluiu.

Por sua vez, o cabeça de lista do PSD às europeias, Paulo Rangel, considerou que a demissão da primeira-ministra britânica, "aumenta a complexidade" do 'Brexit' e aconselhou Portugal a "manter a atitude de abertura e flexibilidade ao Reino Unido".

O candidato social-democrata, que falava aos jornalistas no Porto à margem de uma visita ao i3S - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, considerou que a "União Europeia tem tido um comportamento exemplar" nesta matéria, mas admitiu que a "imprevisibilidade britânica" pode "exasperar ou desesperar" alguns estados-membros.

"Há um ou outro estado-membro que, uma vez ou outra no discurso, se exaspera ou desespera com esta hesitação, esta constante imprevisibilidade britânica. Acho que devemos ter uma atitude como Portugal tem, uma atitude que o PSD apoia, de abertura e flexibilidade ao Reino Unido", referiu Paulo Rangel.

Para Nuno Melo, cabeça de lista do CDS-PP, esta demissão e o 'Brexit' são sinais "dos tempos" muito preocupantes e do que há a fazer na União Europeia (UE).

"O 'Brexit' é um sinal muito nítido de um momento muito preocupante", afirmou Nuno Melo, em Penafiel, distrito do Porto, minutos depois de ser conhecida a demissão de May, em Londres, à margem da primeira ação de campanha eleitoral para as europeia de domingo.

Sem comentar a situação interna no Reino Unido, o eurodeputado preferiu analisar a saída da primeira-ministra no contexto europeu e enquadrar o ´Brexit' no quadro das eleições para o Parlamento Europeu, que se realizam no domingo em Portugal.

"Essa demissão neste dia mostra e ajuda a perceber tudo aquilo que está em jogo nestas eleições europeias", disse, pelo impacto e "confusão" que o 'Brexit' terá, com um "impacto muito incerto quer para os britânicos quer, seguramente, para a UE.

E lembrou que o Reino Unido é um mercado com 70 milhões de consumidores, um aliado na Europa, "potência que ajudou à vitória das democracias", alertando para os extremismos que é preciso combater no continente europeu através do voto nestas eleições.

"Quem valoriza quem somos, quem aposta neste espaço comum, que é de partilha de livre circulação de bens, pessoas, capitais, de oportunidades, de fim de fronteiras, tem mesmo que votar e é por isso que eu também digo quem quer combater o extremismo não se pode abster, porque os extremismos estarão todos nas urnas", disse.

Também Vasco Santos, cabeça de lista do Movimento Alternativa Socialista (MAS), comentou a notícia da demissão de May que está a marcar a atualidade esta manhã. "O 'Brexit' era apoiado em populismo e demagogia", vincou, à margem da greve climática estudantil que decorreu em Lisboa, acrescentando que "é verdade que quem escolheu [a saída do Reino Unido da União Europeia] estava perante uma campanha feita até pela própria extrema-direita".

O primeiro candidato do MAS nas eleições para o PE onsiderou que, no que diz respeito ao referendo para o 'Brexit', foi apoiada "uma sensação popular de que esta Europa não funciona, esta Europa não serve os seus interesses". "Esta extrema-direita quer nos levar para um problema ainda maior", sublinhou.

Ainda assim, o cabeça de lista do MAS considerou que "os povos devem ter direito à escolha do seu destino", mas que, no caso do 'Brexit', "não é uma solução quando é apoiado nesta demagogia".

A solução é uma reforma da UE que crie "uma Europa para os povos e que serve os povos" e que "esta não serve os interesses da maioria [da população]".ntro do Governo e de deputados até agora fiéis, devido à perspetiva de o acordo de saída da União Europeia (UE) ser chumbado no parlamento por uma quarta vez.

O PAN também reagiu, pela voz do cabeça de lista do partido, Francisco Guerreiro, que considera que a demissão da ministra britânica mostra que "será muito difícil" concretizar o 'Brexit' e que o referendo "não apontava claramente para uma saída".

"O que se viu neste processo do 'Brexit' foi uma onda de populismo em torno de problemas falsos que depois levaram a uma escolha, que é justa, mas que não apontava claramente para uma saída", sublinhou Francisco Guerreiro, à margem da greve climática estudantil, que decorreu em Lisboa.

A primeira-ministra britânica, Theresa May, anunciou hoje que vai demitir-se da liderança do Partido Conservador, desencadeando uma eleição interna cujo vencedor vai assumir a chefia do governo.

Demissão de May deverá tornar-se efetiva a 10 de junho

May mantém-se em funções até que o partido tenha eleito um novo líder, o que não deverá acontecer até ao final de julho, incluindo durante a visita de Estado do presidente dos EUA, Donald Trump, entre 03 e 05 de junho.

Enquanto primeira-ministra, não pode renunciar até que esteja em posição de dizer à rainha Isabel II quem esta deve nomear como sucessor.

A demissão da liderança deverá tornar-se efetiva a 10 de junho, iniciando os procedimentos, que passam, numa primeira fase, por uma série de votações dentro do grupo parlamentar que eliminam progressivamente os vários candidatos a apenas dois, que depois serão sujeitos ao voto de todos os militantes do partido.

May já tinha prometido em março que iria sair, mas na altura pediu para "acabar o trabalho", assumindo como missão implementar o resultado do referendo de 2016 que determinou o 'Brexit'.

Mas a pressão sobre Theresa May aumentou nos últimos dias, incluindo dentro do Governo e de deputados até agora fiéis, devido à perspetiva de o acordo de saída da União Europeia (UE) ser chumbado no parlamento por uma quarta vez.

Apresentada na terça-feira, a nova proposta de lei para o 'Brexit' estava prevista para ser votada a 07 de junho e incluía como novidade a possibilidade de voto sobre um novo referendo, o que desagradou a vários ministros.

As três anteriores propostas de 'Brexit' negociadas pela primeira-ministra britânica com Bruxelas foram rejeitadas por maiorias parlamentares, conduzindo a um impasse que obrigou Londres a prolongar o prazo de saída da União Europeia até 31 e outubro.