Borba: "Já viu o sofrimento em que a família está? Quer fazer o luto"

De dia e de noite. Urge drenar água e afastar pedras.As motobombas, com capacidade para retirar 500 mil litros de água por hora, não conhecem tréguas. E sobra pedra e a água barrenta para dificultar o trabalho às equipas de resgate.

De um ponto alto com vista generosa sobre as duas lagoas da pedreira - uma mais pequena onde está o corpo do segundo trabalhador e uma maior onde estarão duas viaturas e os três desaparecidos - percebe-se que o movimento é intenso. Há bombeiros, elementos da GNR e Marinha, equipas de busca e resgate em estruturas colapsadas. Também entram em cena as equipas cinotécnicas, que descem pela rampa íngreme até a zona colapsada, e os próprios trabalhadores das pedreiras.

"Não perdemos o dia de trabalho. Andamos aqui há muitos dias e muitas horas por dia. Deixe lá ver até onde isto vai chegar", diz quase um surdina um dos empregados da indústria do mármore, antes de entrar na pedreira A.L.A. Almeida, onde a estrada entre Borba e Vila Viçosa abateu para ir estender mais umas centenas de metros de tubagem.

É preciso insistir na drenagem como, aliás, não se tem cansado de repetir o comandante distrital de Operações de Socorro de Évora, José Ribeiro, sem perder de vista a "complexidade" da operação, no terreno hostil, onde, de quando em vez, surgem novas derrocadas. O perigo espreita e não há margem para um passo em falso.

Já antes tinha chegado uma carrinha com combustível para abastecer os geradores. E as tubagens. De regresso ao ponto onde a grua vai retirando pedras. Parecem placas de esferovite sujo de barro, mas são blocos de mármore que pesam toneladas. Há quem falem cinco, dez 15 toneladas.

Do final do dia de ontem vinha a notícia de que os cães pisteiros teriam localizado o corpo de João Xavier, o trabalhador da pedreira que estava com o colega Gualdino Pita (o primeiro corpo a ser resgatado tendo sido já sepultado), a laborar com a retroescavadora a meio da escarpa, quando o talude aluiu. Hoje os cães voltaram a confirmar o odor do cadáver e esta tarde seria de expetativa quando a grua fez descer à pedreira um contentor similar ao que transportou o corpo de Gualdino. Mas até agora não há notícias do resgaste pelo que anseiam os familiares de João Xavier.

"Já viu ao tempo que estamos à espera? Já viu o sofrimento em que a família está? Quer fazer o luto, precisa muito de ter descanso deste pesadelo", lamenta-se Rosária Xavier. O corpo do cunhado tinha sido localizado logo após a tragédia, mas os vários deslizamentos de terra e queda de pedras ocultaram o cadáver. As autoridades sabem agora onde está, mas o acesso mantém-se difícil, não havendo uma estimativa de quando tempo poderá demorar o resgate na lagoa mais pequena.

No poço de maiores dimensões, onde se insiste nos esforços na drenagem de água, os trabalhos decorrem à "boleia" do sonar da Marinha, que tenta mapear lagoa na ​​​​​​​perspetiva de detetar alguma viatura em leitura vertical. Haverá dois veículos e três vítimas mortais.

Mas os trabalhos estão a confirmar as dificuldades admitidas pela Marinha antes de chegar a Borba. É a primeira vez que o submarino é utilizado numa zona tão confinada como uma pedreira, com agravante da água estar barrenta perante uma profundidade de 40 metros, o que também está a praticamente a inviabilizar o papel dos mergulhadores da GNR ou da Força Especial de Bombeiros. O sonar foi reposicionado durante a tarde depois da uma primeira tentativa.

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