Bispo diz que Fátima "não é nenhuma sociedade secreta"

O reitor do Santuário garantiu esta tarde aos jornalistas que os 14 trabalhadores despedidos na sequência da pandemia o fizeram num plano amigável. Mas entre os que fizeram rescisões por iniciativa própria, contratos não renovados e outros que se aposentaram, serão cerca de 50, no total. E a questão das contas que o santuário não presta desde 2006 voltou à baila, sem data para serem reveladas

Desde 2006 que o Santuário não presta contas do dinheiro que entra em Fátima. Com a pandemia - e o anúncio recente de uma restruturação que levará à dispensa de várias dezenas de trabalhadores -, o assunto voltou à ordem do dia. E dominou a conferência de imprensa desta segunda-feira, a propósito da peregrinação internacional aniversária.

"Sem peregrinos perdemos receita. Até final de setembro, o santuário teve uma quebra de 56,6%. Os donativos tiveram uma quebra de 46,9%. Temos de ter a consciência de que os recurso não são inesgotáveis. E por isso avançámos com o plano de reestruturação, quando percebemos que esta crise não seria passageira", disse o padre Carlos Cabecinhas, sublinhando que a última medida foi a dispensa de colaboradores.

"Para evitar despedimentos tivemos de equacionar ajustamentos, como qualquer instituição criteriosa faria". O reitor falava em linguagem empresarial, dando conta de que no meio dessa reestruturação "chegámos a 14 acordos amigáveis de rescisão". De resto, o padre Cabecinhas deixou a nota de que esse processo decorreu sempre depois de "reuniões em grupo, e foi sempre o próprio colaborador que veio ter connosco e não o contrário". E para fazer prova desse pano de fundo amigável, revelou ainda que "vários inscreveram-se como voluntários do Santuário e estão a participar como acolhedores nesta peregrinação". A esses juntam-se, no último ano, 15 demissões por iniciativa do trabalhador, 18 contratos que não foram renovados, e ainda quatro funcionários que passaram à reforma.

Acontece que em maio último, no mesmo lugar, o bispo de Leiria-Fátima (que ladeava esta tarde o reitor, bem como D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa) dava a garantia de que não haveria despedimentos. "É um ponto de honra", disse, na altura. E por isso os jornalistas - que se organizaram para apenas seis das dezenas que hoje estão no Santuário a acompanhar as celebrações - confrontaram-no com a realidade dos últimos tempos. "Mantenho essa frase. Não houve nenhum plano para despedimentos, é uma restruturação", disse D. António Marto.

Já Carlos Cabecinhas, visivelmente incomodado com a questão, recuperou a intervenção do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Hoteleira e similares, que em setembro passado denunciou pressões junto dos trabalhadores. "O sindicato não nos confrontou, levantou calúnias", disse o reitor, insistindo que as questões levantadas "são mera especulação. Procurámos responsavelmente fazer uma redução de custos tendo em conta a drástica redução de receitas", justificou.

A verdade é que o tema das rescisões entre os trabalhadores do Santuário surgiu a reboque de um outro, recorrente nas conferências de imprensa: desde 2006 que a instituição não presta contas, por decisão do Conselho Nacional, sendo que nos últimos dias o reitor, por um lado, e o presidente da Conferência Episcopal, por outro, prestaram declarações contraditórias.

D. António Marto, acredita que "deve haver divulgação de contas aos fiéis, pois Fátima não é nenhuma sociedade secreta", mas remete para a comissão paritária a decisão desse anúncio, que se arrasta desde então. Mas D. José Ornelas faz a ressalva: "Quando se fala de prestar contas não quer dizer colocar na praça pública. Os paroquianos têm o direito de saber, numa diocese como numa paróquia. Também no santuário é importante que isso se faça". Mas o responsável da Conferência Episcopal diz que esse é um processo em curso, que há de acontecer. Só não diz quando.

O padre Carlos Cabecinhas esclarece que, do ponto de vista jurídico, é o conselho nacional que deve tomar essa decisão, há muito em agenda.

E para descansar os fiéis, D. José Ornelas acrescenta que "as contas são auditadas pelas melhores empresas". "Estamos à espera que aconteça. A comissão paritária está há anos para o dizer", rematou D. António Marto.

Mas se o próprio papa incentiva à prestação de contas, não deveria ser em primeiro lugar uma obrigação interna, e um direito das comunidades conhecerem o destino dos seus dinheiros, perguntou o jornalista António Marujo, um dos que em Portugal acompanha há mais anos a vida religiosa de Fátima. "É uma coisa que se vai fazendo", respondeu o bispo.

Redução drástica de peregrinos

Desde que foi revelado o plano de contingência do Santuário para as celebrações deste 13 de outubro - que assinala a sexta e última aparição de Nossa Senhora aos pastorinhos - e que a DGS fixou em seis mil o número máximo de peregrinos no recinto, a maioria dos que fazia o percurso a pé decidiu fazê-lo antecipadamente. No domingo, por exemplo, o Santuário atingiu essa lotação. E por isso, tal como era já expectável, a esplanada do Santuário permanecia com muito pouca gente, ao final do dia de hoje.

"A falta de peregrinos afeta não só a vida do Santuário como toda a vida da cidade de Fátima e suas imediações", disse o reitor, enquanto dava conta dos números mais recentes: "este ano, entre março e setembro, tivemos 436 grupos cancelados", sendo que outubro era o mês das peregrinações internacionais, ao contrário de maio, que sempre foi dominado pelos peregrinos nacionais.

Para esta peregrinação estão inscritos 11 grupos de Portugal, 4 de Itália, 4 de França, 2 da Alemanha e 1 da Bélgica. No ano passado foram 1530 os que vieram de todo o país (363 em maio). Mas os dados do Santuário mostram uma outra realidade, que deixa perceber com clareza o que está a acontecer com a hotelaria local: os estrangeiros foram, no ano passado, 2854 grupos inscritos, dos quais 452 em maio e todo o resto em outubro. Há um ano, esta peregrinação contava com 733 grupos (559 estrangeiros e 174 portugueses), num total de 100 mi peregrinos inscritos. Esta noite serão, no máximo, seis mil.

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