Ângela e Francisca. Foram vítimas de violência doméstica e gritaram pelas que morreram

Apitos, sirenes, buzinas e palmas. "Um minuto de barulho pelas mais de 30 vítimas que morreram no silêncio" - uma campanha que levou ao centro de Lisboa milhares de pessoas contra a violência doméstica.

Em dia cinzento, até a chuva parou de cair. Esta quarta-feira à tarde cerca de três mil pessoas, muitas mulheres, homens, entre eles figuras públicas como Rosa Mota ou Maria de Belém Roseira, fizeram-se ouvir. O mote da iniciativa "Um minuto de barulho pelas mais de 30 vítimas de violência doméstica que morreram no silêncio" levou para a rua os trabalhadores da Altice - que lançou a campanha -mas também duas mulheres que decidiram dar o rosto pela iniciativa. Francisca e Ângela foram vítimas de violência doméstica. Ao seu lado, Amélia Santos chorava ao recordar a filha, assassinada pelo marido em 2014.

Ângela Pica tem 49 anos e não tem vergonha de mostrar o rosto, dizer a idade ou contar que durante uma década sofreu "violência psicológica e sexual" às mãos do então marido e pai de um dos seus filhos. Foram dez anos em silêncio, por isso hoje gritou em nome de todas aquelas que não se queixaram nem pediram ajuda ou para quem esta já não chegou a tempo.

O minuto pedido pela campanha acabou por se estender a mais de um quarto de hora em que as sirenes dos carros dos bombeiros e da PSP - que se juntaram à iniciativa - ajudaram a fazer barulho, mesmo muito barulho, em frente à sede da empresa, na Avenida Fontes Pereira de Melo, em pleno centro de Lisboa - mas a campanha aconteceu também em outros 18 municípios.

Na estrada, os carros circularam mais lentos, houve palmas e acenos, gritos de "coragem", buzinas a acompanhar o ruído que se fez alto contra o silêncio das vítimas. "Que nenhuma se cale, que ninguém permita que se alguém as cale", também se foi ouvindo.

Fugiu com a mãe e o filho para uma casa abrigo

Ângela conseguiu quebrar o silêncio porque uma amiga - a única que conhecia o seu caso - não ficou calada e denunciou. Saiu de casa, da sua casa, "com a roupa do corpo", o filho na mão e a mãe ao lado rumo a uma casa abrigo da UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta.

Não saiu antes por todas as razões que as vítimas conhecem: dependência económica do marido, porque mesmo que conseguisse um emprego sabia que o salário nunca chegaria para pagar uma renda, alimentação, tudo o que uma criança precisa. Encontrou na UMAR quem lhe dissesse que conseguia e que a ajudou a conseguir. Hoje, é um exemplo. Por isso dá a cara, para provar que "a idade não é obstáculo, ter um filho especial não é obstáculo, ser cuidadora informal não é obstáculo. Viver é a minha prioridade", afirma.

E faz um apelo a todas as vítimas: "Temos de desconstruir o mito de que a casa abrigo é um presídio: a mulher tem de perceber que se não sair de casa vai morrer em casa. Mesmo que não tenha ajuda logo no primeiro apelo, que continue a pedir ajuda. Desistir nunca", diz, convicta.

Francisca de Magalhães Barros tem 29 anos, é escritora e pintora, uma mulher bonita e jovem. Casou com um homem mais velho e teve uma filha - tem, aliás, uma menina, hoje com três anos. Foi à frente da criança - ainda bebé - que o ex-companheiro lhe deu um murro na cara. Foi perseguida dezenas de vezes, teve medo por si e pela filha, o que lhe valeu foi a rede de amigos e a família.

"No namoro começaram os insultos, mas é muito difícil perceber que estamos a ser vítimas de violência psicológica quando esta acontece", explica. É uma teia que enreda, e Francisca vivia enredada. Até que percebeu que aquela não era vida para a filha e divorciou-se. A violência não parou.

O ex-marido acabou por ser condenado, mas a uma pena suspensa. Nunca esteve de facto preso e quer a guarda partilhada da filha. A luta de Francisca agora é esta: que o homem que lhe deu um murro na cara e que tentou provocar um acidente levando-a a sair da estrada com o carro, que não use a filha de ambos para a atingir. Francisca conta que nunca se calou e hoje deu a cara por todas as mães e filhas que já não se podem fazer ouvir.

Ex-genro matou-lhe a filha e o filho. A avó que "virou leoa"

Mesmo sem ser um dos rostos da campanha, Amélia Santos não aguentou as lágrimas. Há cinco anos perdeu o filho e a filha - ela assassinada pelo ex-marido, atualmente preso depois de condenado a vinte anos pelo homicídio da ex-mulher. Amélia sabe que o seu filho também foi morto pelo ex-genro, mas não há provas - o corpo nunca foi encontrado. Tem três netos, são todos órfãos, dois de pai e o mais novo da mãe. A culpa de tanta tragédia será só de um homem.

"Nunca me pediu perdão. Ao juiz disse que matou a minha filha por amor", conta. Há cinco anos que Amélia não se cala. "Se não lutar, eu morro. Mataram os meus dois filhos, virei leoa", garante. Hoje fez barulho pelas mais de 30 vítimas só este ano.

A iniciativa organizada pela Altice contou ainda com a presença da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, Federação Portuguesa de Futebol, Cruz Vermelha Portuguesa, Associação Portuguesa dos Contact Centers e da Liga dos Bombeiros Portugueses. Rosa Mota, João Gil, Luís Represas, Sílvia Rizzo, Iva Domingues, entre outros, também se juntaram à multidão que pediu "1 Minuto de barulho pelas mais de 30 vítimas que morreram no silêncio"

Os números oficiais da Procuradoria-Geral da República (PGR) apontam para que 31 pessoas tenham morrido, só em 2019, vítimas de violência doméstica.

No entanto, há casos que não são de imediato identificados como violência doméstica e as autoridades ainda continuam a investigar para tentar concluir se os mesmos aconteceram, ou não, neste contexto.

"Existem outros casos, designadamente com vítimas mulheres, que ainda não é possível assegurar com a necessária segurança que as mortes ocorreram em contexto de violência doméstica, aguarda-se que as investigações esclareçam os exatos contornos", afirma a PGR.

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