A ponte sobre o rio Coina é uma miragem

Barreiro e Seixal. Duas cidades que me dizem muito nestes anos de vida, apesar de ser em Lisboa que passo a maior parte dos meus dias.

Tenho, assim, muitas ligações à capital, profissionais - o jornal onde estagiei chamava-se exatamente A Capital, estava no Bairro Alto e ainda hoje há muitas recordações - e também pessoais. Mas o coração, dizem, tem às vezes razões que a razão desconhece. E é por isso que o Barreiro e o Seixal, mais a primeira cidade do que a segunda, têm primazia quando falo onde me sinto bem.

Ainda não tinha entrado na antiga escola primária e já morava no Barreiro. Anos mais tarde mudei-me para o concelho que estava do "outro lado". Ao contrário do que o leitor pode pensar não é Lisboa, mas sim o Seixal. Que, de facto, fica do outro lado do rio - mas do rio Coina, para quem não sabe. Em determinados pontos, quando a maré está baixa, até dá a ilusão de que se pode ir a pé de um lado ao outro. Não dá, mas às vezes apetece.

Principalmente quando se sabe que para ir de uma cidade à outra são 13 quilómetros a percorrer de carro. É por isso que sempre estive atento às notícias sobre a ideia de ser construída uma ponte a ligar as duas cidades na tentativa de substituir uma ligação ferroviária que existiu até 1969 quando o barco de carga Alger embateu na ponte e levou a que fosse desativada. Projetos para esta infraestrutura já houve alguns, cerimónias para garantir que desta "é que vai ser" também já foram várias. Quanto a promessas estamos, por isso, conversados.

Recentemente escrevi no DN que a ligação estava em stand by porque a Administração do Porto de Lisboa quer que o vão da ponte prometida e apenas pedonal e ciclável seja de 60 e não de 40 metros como as autarquias apresentaram. Logo se levantou a questão do financiamento - mais 1,5 milhões de euros elevando o custo para seis milhões de euros - e os responsáveis do Barreiro voltaram a defender que a via devia ser também rodoviária. Aliás, um plano que até se enquadra nos projetos de cidades ambientalmente sustentáveis, com redes cicláveis. Imagine-se até se podia apostar no turismo ambiental aproveitando o sapal de Coina e a Reserva Natural da Mata da Machada (Barreiro).

Mas fiquei a saber pelo jornal online Rostos que a autarquia barreirense não é favorável à construção da ponte pedonal, principalmente devido ao aumento das despesas de construção. Sei que o Barreiro defende a passagem para carros - até compreendo - mas já percebo menos o facto de se continuar a adiar uma ligação entre duas cidades que muito teriam a ganhar com essa aproximação com menos de um quilómetro. Assim, se quiser ir ver a família só me resta ir pela A33 ou a EN10. Bem, também posso apanhar o barco do Seixal para Lisboa e de lá o barco para o Barreiro. Ou então telefonar-lhes.

Tudo isto me faz lembrar o refrão da canção Ribeira, de um grupo chamado Jáfumega (lembram-se?): "A ponte é uma passagem/ prá outra margem/ A ponte é uma passagem / prá outra margem/ Desafio pairando sobre o rio/ a ponte é uma miragem".

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.

Premium

Marisa Matias

A invasão ainda não acabou

Há uma semana fomos confrontados com a invasão de territórios curdos no norte da Síria por parte de forças militares turcas. Os Estados Unidos retiraram as suas tropas, na sequência da inenarrável declaração de Trump sobre a falta de apoio dos curdos na Normandia, e as populações de Rojava viram-se, uma vez mais, sob ataque. As tentativas sucessivas de genocídio e de eliminação cultural do povo curdo por parte da Turquia não é, infelizmente, uma novidade, mas não é por repetir-se que se deve naturalizar e abandonar as nossas preocupações.