"A riqueza do jornalismo está no trabalho em equipa"

Encontros Lusa Online arrancam esta terça-feira com a discussão sobre o teletrabalho no jornalismo. A diretora de informação da agência de notícias, Luísa Meireles, considera que trabalhar em casa é contra a natureza da profissão.

A jornalista Luísa Meireles é formada em Direito, exerceu advocacia 10 anos antes de entrar para a profissão, em 1989, no jornal Expresso. Saiu em 2018 para assumir a direção da Informação da Lusa. Considera-se um "bicho de redação", defendendo que a profissão deve ser exercida em convívio, o que é fundamental para uma troca de ideias, que deve ser transversal. Dinamiza a conferência online sobre o teletrabalho, esta terça-feira às 11:00, organizada pela agência de notícias Lusa em parceria com a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista e o Sindicato de Jornalistas. Serão apresentados dados de um estudo sobre o tema e dada a palavra a jornalistas e profissionais com especial responsabilidade do setor.

O jornalismo perde quando se está em teletrabalho?
Penso que sim, exatamente porque o jornalismo é por definição uma profissão exercida na redação, de convívio. Todos nós jornalistas, que trabalhamos numa redação, sabemos as discussões que surgem, o debate que se proporciona pela troca de ideias entre as várias secções e áreas. Sem uma redação presente, falta aquele sistema de autocontrolo, erros que se detetam, indicações que se dão, ideias que se trocam. A riqueza do jornalismo está no trabalho em equipa e na discussão que se processa numa redação, é uma discussão transversal.

De que forma é que o teletrabalho tem afetado a cobertura jornalística?
Obrigados a confinar por causa da pandemia, a tendência é para fazer um jornalismo de segunda mão, um jornalismo sentado. É importante ir ao local do acontecimento, observar, ver as reações, questionar, perguntar, caso contrário, é a transmissão da mensagem pura e dura sem que o jornalista a questione. A forma como nos relacionamos com a fonte, como ganhamos a sua confiança, é essencial no jornalismo.

E quando voltarmos às redações?
A ideia desta conferência começou com alguns de nós a questionar que tipo de trabalho estamos a fazer, uma vez que fomos todos para casa. Os jornalistas já perceberam que esta situação em que vivemos desde março se vai prolongar por algum tempo e, quando regressarmos, as redações vão ser diferentes devido às regras de distanciamento social. Por exemplo, na Lusa, estavam 90 pessoas no 1.º andar, com as novas regras caberão apenas 19 ao mesmo tempo, terá de haver uma reorganização. No teletrabalho, independentemente das condições e de haver situações em que este deve ser considerado, pelo menos de uma forma temporária como atualmente, não podemos viver permanentemente nesta situação.

Tem consequências a nível das relações profissionais?
Quando se está em teletrabalho, há uma tendência para haver uma maior hierarquização das relações de trabalho, normalmente, as pessoas contactam com o seu editor ou a sua equipa e, nesta pandemia, temos funcionado sobretudo em grupos. Isso impede que as pessoas saibam o que vai sair no jornal ou noutra qualquer publicação, não estão a par de tudo o que acontece. Comunicamos de forma muito diferente quando se comunica por escrito, ou mesmo por zoom ou qualquer outra plataforma, é muito mais difícil questionarmos as diretivas, é diferente, isso está mais que estudado. Uma comunicação mais efetiva, uma maior colaboração entre os trabalhadores de uma forma presencial, produz mais inovação, mais ideias.

Quando se fala em teletrabalho, fala-se nas condições laborais e de como terão sido agravadas com esta pandemia. O que acaba de dizer indica que essa não é a questão principal no jornalismo.
Também é, mas não se trata de ser a principal. Há duas dimensões: uma coisa é trabalhar mais e em que condições, outra é o tipo de jornalismo que estamos a fazer. São os dois assuntos que devem merecer atenção. Num estudo sobre o efeito da pandemia na profissão, coordenado por Felisbela Lopes [Universidade do Minho], 49,2 % do jornalistas reportaram que o trabalho feito a partir de casa teve um impacto negativo pela dificuldade em conciliar a vida profissional e familiar, é um mito quando se diz que o teletrabalho é bom para conciliar a vida profissional e familiar. Ao mesmo tempo, que outros 15,4 % referiram que teve um impacto negativo devido à dificuldade no acesso às fontes, o que me parece normal porque, muitas vezes, as pessoas atendem o telefone de X e não um número que desconhecem.

As redações também não estavam preparadas para uma transformação tão rápida.
Não estavam preparadas para uma situação de pandemia como esta. Como é que se vai conciliar isto tudo de modo a fazer um melhor produto. Se calhar, se estivéssemos todos na redação, há coisas que não seriam publicadas, questões que se colocariam, faz sentido esta notícia? Os primeiros tempos desta pandemia foram muito exigentes, os jornalistas responderam com uma grande disponibilidade, dispostas a trabalhar horas sem fim, mas, depois, o produto que fizemos não foi efetivamente melhor do ponto de vista do consumidor da informação.

Há órgãos de informação que convivem melhor com o teletrabalho, por exemplo, os digitais ou uma agencia noticiosa como a Lusa?
É mais fácil organizar o teletrabalho numa agência noticiosa ou num meio digital, há também órgãos que não podem ter teletrabalho, como as televisões e as rádios. O meu enfoque não é sobre a especificidade de cada meio mas no tipo de trabalho que realizamos e como é que vamos poder melhorar, sendo certo que vamos ter que viver nestas condições durante mais alguns meses, nem sei quantos. Se é verdade que o ser humano necessita de interação social, um jornalista como profissão ainda necessita mais, não vive sem interagir do ponto de vista social e uns com os outros.

Do que é que tem mais medo?
Tenho também algum receio que as pessoas se acomodem. A ideia que tenho é que primeiro estranhou-se e depois entranhou-se, há também aqui um lado de acomodação da situação que nos leva a ter tendência para fazer um jornalismo sentado, reportar a partir do que te dão e não do que se descobre.

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