Yuri Gagarin. A história como a (maioria da) Europa não gosta de contar*

*O primeiro homem a ir ao espaço arriscou a vida de uma forma que era impensável para os padrões ocidentais, mesmo da época. Tudo em nome da propaganda política

A supremacia russa na fase inicial da chamada "conquista do espaço" do pós-Segunda Guerra é indiscutível. Foram os primeiros a colocar um satélite artificial em órbita, os primeiros a pôr um animal a realizar uma órbita completa à Terra (a pobre cadela Laika) e os primeiros a levar um ser humano ao espaço.

Mas a que preço?

Este é o pequeno detalhe que grande parte da Europa ocidental faz por esquecer, como se notou na maioria das comemorações dos 60 anos do acontecimento, esta semana. Mas que não devia.

Se é um manifesto absurdo olhar para o passado com os filtros do presente (como é agora moda, daí saírem disparates como acusarem de racismo o Padre António Vieira ou os Maias, de Eça de Queirós, só para dar dois exemplos recentes) é igualmente um profundo -- e perigoso -- erro branquear o regime soviético, com o que hoje sabemos que ele foi, e continuar a passar a ideia de que era apenas uma "alternativa económica" ao regime ocidental.

Nada mais errado. Com todos os seus defeitos -- e indubitavelmente inúmeros --, as democracias liberais têm uma superioridade moral perante todos os outros regimes até hoje inventados.

Perdoem-me o (já) lugar comum, mas não resisto a repetir a muito batida citação de Churchill, de 11 de novembro de 1947:

Many forms of Government have been tried, and will be tried in this world of sin and woe. No one pretends that democracy is perfect or all-wise. Indeed it has been said that democracy is the worst form of Government except for all those other forms that have been tried from time to time...

Sim, "muitas formas de governo foram tentadas e virão a ser tentadas neste mundo de erros e infortúnios. Ninguém tem a pretensão de que a democracia é perfeita e infinitamente sábia. Na verdade, já foi dito que a democracia é a pior forma de governo que existe, exceto todas as aquelas outras formas que têm sido tentadas de tempos a tempos".

O que é que isto tem a ver com Gagarin?

Yuri Gagarin era um piloto de testes da Força Aérea soviética. Voluntariou-se ou foi recrutado para ser o primeiro homem a ir ao espaço -- nunca saberemos exatamente. Nas Forças Armadas soviéticas, "voluntariar-se" para qualquer coisa nunca quis na realidade dizer fosse o que fosse. Convém aliás lembrar que, no cerco nazi a Estalinegrado, Estaline emitiu a Ordem 227 (28 julho 1942) que ordenava aos comissários políticos dos batalhões que criassem na frente de combate "destacamentos de bloqueio" que ficavam na retaguarda dos soldados e tinham ordens para matar todos os que mostrassem sinais de "pânico e covardia".

Os pais de Gagarin eram camponeses (mas também, poucos não o eram na Rússia soviética), que souberam pela rádio que o filho estava no espaço. Aliás, numa primeira fase, pensaram tratar-se de um outro Yuri Gagarin qualquer, segundo contou esta semana à BBC uma sobrinha-neta. Só dias mais tarde alguém no Partido Comunista se deu ao trabalho de os informar que o filho, de facto, tinha ido ao espaço, para honra do povo (deles próprios, no fundo).

Tudo foi feito no maior secretismo, como era habitual no regime. Se o foguetão tivesse explodido, se algo tivesse corrido mal, quem sabe que história teria sido contada aos enlutados pais?

É indiscutível a coragem de Gagarin. Aceitou (assumamos que tinha hipótese de não o fazer e manter a vida que conhecia) entrar numa cápsula mal-testada -- já cá voltamos -- ser colocado no topo de um míssil intercontinental Vostok 1 -- exatamente no mesmo local onde é instalada a ogiva nuclear -- e ser lançado.

A prioridade russa era pôr um homem no espaço antes dos Estados Unidos. O timing foi decido politicamente, não por razões científicas ou técnicas.

A cápsula Vostok 3KA que transportou Gagarin tinha um escudo de calor extraordinariamente reduzido, era incapaz de controlar o rumo e orientação de reentrada e obrigava o passageiro a suportar forças entre 8 a 9G (oito a nove vezes o seu próprio peso).

Para chegar à Terra intacto, Gagarin teve de se ejetar da cápsula e usar um paraquedas pessoal.

Qualquer comparação com o que a NASA preparava no projeto Mercury, em que a principal preocupação era não apenas levar os astronautas ao espaço, mas trazê-los em segurança de volta à Terra dentro da cápsula protetora, é mera coincidência.

Aliás, esta diferença de mentalidade (moralidade será melhor palavra) não se resume à vida humana. Na realidade, os cientistas russos não sabiam que efeitos teria a "ausência de gravidade" no corpo de Gagarin. Só Tinham feito o teste de enviar um cão -- a pobre cadela Laika -- no Sputnik II, um mês depois, apenas, de terem colocado o primeiro satélite artificial em órbita.

O animal foi enviado sem qualquer plano de retorno: apenas foi possível retirar alguma telemetria (reduzida, tendo em conta a tecnologia da época). O bicho morreu sufocado, em órbita. Mas, claro, demonstrou a supremacia soviética perante o mundo. Um nobre sacrifício, um mártir que com certeza compreendeu a causa vermelha por que deu a vida...

Nenhum outro teste -- zero G, microgravidade, raios cósmicos, etc. -- foi realizado. Para os russos, foi com Gagarin que se descobriu que de facto o corpo humano pode viver sem gravidade. Sorte a dele, aparentemente.

Estou a ser irónico.

A humanidade já tinha descoberto (os russos também, porque aproveitavam da transparência do conhecimento científico ocidental) que os primatas não apenas sobrevivem como conseguem funcionar com todas as capacidades mentais normais no espaço. Como? A NASA enviou, a 31 de janeiro de 1961, o chimpanzé Ham ao espaço (tinha-o treinado para fazer várias ações, o animal quase conseguia pilotar a cápsula), trouxe-o de volta em segurança e analisou-o.

Isto é ciência. O caso da Laika é (má) política assassina.

Gagarin foi, e bem, recebido como um herói da nação. Como disse a referida parente à BBC, "transformou-se numa estrela, tinha acesso direto a ministros"!

Nunca mais voltou ao espaço. Retornou às suas funções de piloto de testes.

A sua vida de VIP do regime, no entanto, não durou muito. Morreu cerca de sete anos depois. Oficialmente, foi um voo de testes que correu mal.

Curiosamente, ainda hoje, passados 60 anos, continuamos sem saber exatamente o que é que correu mal.

Curiosamente.

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