Xi Jinping vai atender o telefonema de Biden?

No primeiro dia da viagem da semana passada do presidente chinês à Rússia, Xi Jinping esteve reunido com o seu homólogo, Vladimir Putin, durante quatro horas e meia.

Entretanto, segundo a Agência Reuters, o presidente norte-americano está desde o início de março a tentar falar por telefone com Xi Jinping, mas os diplomatas de Joe Biden que andam a tratar disso, até ao momento em que escrevo, ainda não conseguiram agendar uma data para a chamada.

A Reuters cita uma suposta fonte chinesa qualificada, não-identificada, que terá dito que "ainda não há interesse" nessa conversa.

Quanto ao encontro direto entre Xi e Putin, que referi, é óbvio que a sua duração é invulgar para conversas entre dois chefes de Estado de potências relevantes, normalmente bastante mais curtas pois, na prática, limitam-se quase sempre a sufragar algo que as respetivas diplomacias já negociaram ou, noutras circunstâncias, reforçam diretamente, de viva-voz, posições anteriormente já comunicadas.

Durante as quatro horas e meia esse diálogo teve, necessariamente, de possuir algo mais no respetivo conteúdo do que é habitual acontecer no protocolo rotineiro destas coisas.

Quanto ao facto de Joe Biden, o líder da potência mais poderosa do planeta, estar pendurado há semanas à espera de atendimento por parte de Xi Jinping, o líder da potência concorrente, é igualmente óbvio que há aqui um significado político de desvalorização, por parte da China, da importância dos Estados Unidos para os seus interesses.

Note-se que, pelo meio, os norte-americanos acusaram a China de ter balões-espiões em território norte-americano, lançaram a suspeita (e depois recuaram) de que os chineses estavam a entregar armas à Rússia, promoveram novas dúvidas sobre a origem chinesa da Covid-19 quando se conheceram novas provas sobre a sua origem animal, estão a tentar banir, por possível futura espionagem, a aplicação chinesa TikTok do mercado dos Estados Unidos (onde essa rede social tem 150 milhões de utilizadores) e viram a Arábia Saudita e o Irão a assinar um acordo de paz em Pequim, cuja negociação começou com a Rússia a mediar.

Entretanto, para além da guerra na Ucrânia, multiplicam-se os exercícios militares nos mares orientais, junto a Taiwan e ao Japão, com norte-americanos, chineses e russos a propagandearem os respetivos arsenais e a NATO, através do seu secretário-geral, a anunciar que pretende alargar a sua atividade à Ásia-Pacífico.

A Coreia do Norte também anda a lançar uns mísseis...

Esta nova relação de poderes no mundo parece não estar a construir a continuação do mundo unipolar dominado por Washington nos últimos 20 anos, mas também não parece estar a elaborar um mundo multipolar, de várias potências, reivindicado para o futuro da Humanidade por Pequim e Moscovo.

Ao que estamos a assistir, afinal, parece ser a uma paulatina recuperação do mundo bipolar do tempo da Guerra Fria, definido pelo poder económico e nuclear de duas potencias dominantes.

Com a União Europeia e os Estados Unidos a desenvolverem durante duas décadas, coordenadamente, políticas de confrontação que, como era linearmente previsível, atirariam necessariamente a Rússia para os braços da China, em vez de a ganharem para o lado Ocidental, a consequência é uma organização política do mundo dividida entre os que orbitam à volta das potências da Euro-Ásia, onde a China domina, e os que servem de satélites ao Ocidente Alargado, onde a Europa é, em cada dia que passa, reduzida a uma insignificância cada vez maior, quase com o estatuto de colónia dos Estados Unidos da América - mas, na realidade, é praticamente assim desde depois da II Guerra Mundial.

Parece que, para chegarmos à versão do século XXI da Guerra Fria só falta, como nos tempos dos blocos EUA/URSS, que seja montado um telefone vermelho, direto, entre a Casa Branca e Zhongnanhai para os dois presidentes falarem diretamente.

Pode ser que, assim, Xi atenda Biden mais depressa.

Jornalista

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG