Virgem aos 40

Numa rápida pesquisa na net anterior a 2020 logo se tropeça em títulos como "Hospital de Setúbal recusou ambulâncias por sobrelotação da Urgência" (Outubro de 2019);"Pediatras do Hospital de Évora alertam para "ruptura" da Urgência Pediátrica" (Março de 2018) "Urgências no Barreiro estão sobrelotadas com o dobro dos doentes" (Março de 2019); "Direcção clínica e diretores de serviço do Hospital Amadora-Sintra demitem-se" (Junho de 2017). Meros exemplos. A lista é longa, quase tão comprida como as esperas no SNS e tão antiga quanto os seus problemas. Ou seja, muito antes da covid, os graves défices de meios e de profissionais já existiam. Sempre que chegava a gripe, rebentavam.

Porém, em 2020 e início de 2021, a comunicação social não parou de noticiar a ruptura do Serviço Nacional de Saúde, supostamente consequência da covid. Reportavam o armagedão, o dia do juízo final, com filas de ambulâncias à porta de hospitais sem resposta, enfermarias sobrelotadas, escassez de recursos, como se tudo fosse inédito, inopinado e inesperado. Pior ainda: à distância de um clique, quem quisesse consultava o número de utentes nas várias urgências públicas, constatando que a maioria estava completamente vazia, posto que as pessoas receavam infectar-se nesses meios, muitas acabando por falecer em casa com AVC"s, enfartes, descompensações diabéticas. Realmente, observava-se que algumas tinham maior afluência, resolúvel com gestão, encaminhado para as disponíveis. Ou seja, a covid não apenas tinha derrocado a memória colectiva como tinha também causado cegueira. Ou ingenuidade. Ou pior.

Certo é que quem estava nessas linhas da frente, os verdadeiros bravos do pelotão◘- jamais foram compensados. Houve umas palmas à janela e uma Liga dos Campeões, mas aquilo que conta - boas remunerações, mais contratações, mais meios e capacidade - ficou por entregar. Com uma agravante - foi-se acumulando o cansaço nos operacionais, enfermeiros, médicos (também apelidados pelo primeiro-ministro de cobardes), e foram-se empilhando consultas por marcar, exames por fazer, novos cancros e outras doenças deixadas para trás. E assim chegámos a Outubro de 2021, com os hospitais a esbarrondar - e ainda nem sequer veio a nova vaga sazonal de infecções respiratórias. A crise no Hospital de Setúbal, com a demissão em bloco de quase 90 médicos, o alerta do Centro Hospitalar do Algarve, de Beja ou Torres Vedras, as contestações dos enfermeiros, etc., são sinais que mostram como este governo não quer saber nem do SNS nem da saúde dos portugueses. Os serviços de saúde estatais deveriam ter sido super-reforçados nestes meses de calor para dar resposta ao que se acumulou gritando intervenção, e para preparar o Inverno, que não será fácil. Nada disso sucedeu. No meio de uma crise de saúde pública, o governo marimbou-se. Deu desprezo. "Hospital de Setúbal recusou ambulâncias por sobrelotação da Urgência" (Outubro de 2019). Na verdade, o Executivo nunca quis saber do SNS nem antes, nem durante, nem depois da covid. Em pouco mais de 40 anos, o Partido Socialista ergeu a saúde pública para depois a destruir. Ficará para a história como o obreiro e o coveiro do Serviço Nacional de Saúde. É dose.

Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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