Uma festa não é uma revolução

Dizer que uma multidão é incontrolável é óbvio. Na verdade, as multidões são incontroláveis, porque a psicologia das massas está mais do que estudada e se, ainda por cima, #onde vai um vão todos, eufóricos, felizes, livres, irresponsáveis, nem os polícias, GNRs, guardas-florestais, polícias marítimos, inspetores do SEF e por aí fora chegavam para enfrentar as massas.

Mas conter, controlar, dirigir, encaminhar não é o mesmo que enfrentar. Se é verdade que o que falhou, antes de mais, foi a responsabilidade individual de cada um, não podemos fazer de conta que as «autoridades» - nesse sentido lato, para que todas elas possam acusar a outra «autoridade» e ninguém assuma responsabilidades de nada - estiveram à altura. Não estiveram. E o Estado, sempre lesto a cobrar impostos pornográficos a quem trabalha, sempre controlador e burocrata, sempre afoito a criar problemas, foi, quando deveria ter intervindo, foi facilitista, imprudente, laxista, irresponsável e curto.

E, mais. Uma festa não é uma revolução.

Milhares de pessoas na rua para derrubarem um regime ou protestarem contra um ditador, são incontroláveis; milhares de adeptos de um clube, qualquer que seja, no meio de uma pandemia, com um país semifechado, gente sem trabalho e na miséria, é despudor.

E incompetência do Estado, do governo, das "autoridades".

Às onze da manhã já havia milhares de pessoas concentradas em Alvalade; às três da tarde já eram mais de 50 mil e a PSP pedia "responsabilidade", uso de máscaras e proibição do consumo de álcool. Tudo o que não aconteceu; às nove da noite, a polícia interveio, sem forças, sem autoridade e sem poder para controlar o que quer que fosse. E se é verdade que dos muitos milhares que lá estavam - a propósito, alguém sabe ao certo quantos cidadãos estiveram entre Alvalade e o Marquês - só meia dúzia de arruaceiros, os do costume, é que desafiaram, ao limite, a (falta de) autoridade, a imagem de uma cidade sem lei, sem regras, sem distâncias, sem máscaras devia deixar "as autoridades" envergonhadas.

Parece que não.

A PSP diz que não "aconselhou" a festa fora do estádio; o Governo manda "abrir inquérito", claro, à polícia, que vai acabar por ser o ele mais fraco, porque o Diretor Nacional está debaixo de fogo do ministro por antecipar o fim do SEF e por ter ido a Belém num domingo; Cabrita tarda, mas não falha; Marcelo diz que não houve "prevenção", mas não diz de quem. O Sporting lava as mãos; e a claque descobriu uma lei de 1975 que não permite a proibição de manifestações.

Grande país este, em que o secretário de Estado do Desporto avisa que isto não é nada com ele, em que o primeiro-ministro diz que tem um "excelente" ministro da Administração Interna e em que a polícia, que esteve no terreno a ser insultada, apedrejada, desautorizada e enxovalhada vai - aposto - arcar com as culpas.

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