Uma catastrófica falha moral: uma pandemia, dois futuros

"Fará sentido começar a vacinar cidadãos jovens e saudáveis dos países ricos, antes de o garantir a todos os profissionais do setor da saúde e aos cidadãos idosos dos países pobres?" Esta pergunta foi feita pelo diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), numa sala "virtual" repleta de líderes políticos internacionais, no âmbito da reunião sobre resiliência e acesso equitativo à vacinação que organizei, nesta semana, na OCDE.

A pergunta ficou sem resposta e nesse silêncio assenta a essência da terceira vaga das desigualdades entre países.

Logo no início da pandemia, alertámos para as enormes vulnerabilidades dos sistemas de saúde dos países em vias de desenvolvimento (numa altura em que ainda se deparam com ébola, tuberculose, VIH, hepatite e malária) e para a quase impossibilidade de adotarem soluções de confinamento e de distanciamento social. Essa foi a primeira vaga de desigualdades.

Depois, fomos apresentando os dados da OCDE que comprovavam a desproporção dos efeitos sociais e económicos da pandemia nos países mais pobres. Só em 2020, mais de cem milhões de pessoas foram atiradas para a situação de pobreza extrema e o flagelo da fome atingiu mais 270 milhões de pessoas. As necessidades de financiamento anual desses países dispararam para 4,2 biliões de dólares.

Sem margem orçamental, esses países não puderam ir além de quatro dólares, per capita, nas despesas de proteção social durante a pandemia (enquanto nos países da OCDE esse valor atingiu 695 dólares). O período de aulas perdidas (por impossibilidade de ensino à distância com recurso a tecnologias digitais) nos países mais pobres cifrou-se em 16 semanas, enquanto nos países mais ricos não foi além de seis semanas.

Paradoxalmente, os países mais ricos foram capazes de, em poucas semanas, mobilizar 14 biliões de dólares de pacotes de apoio às suas economias, mas não foram capazes de corresponder ao pungente apelo, dos ministros das Finanças de África, de mobilizar cem mil milhões de dólares adicionais e de avançar para programas de perdão de dívida. Estes factos documentam a segunda vaga de desigualdades.

E agora, na fase de vacinação global, estamos, como afirma o líder da OMS, perante desigualdades que traduzem "uma catastrófica falha moral". Atentemos nos factos que constam de dois relatórios da OCDE que lancei nesta semana: 94% das vacinas foram ministradas nos países mais ricos e 55% concentraram-se em apenas dez países.

Por outro lado, ainda que a coligação de vacinas (COVAX) tenha desempenhado um papel notável na aceleração da investigação, do desenvolvimento e da produção das vacinas, continuam a faltar cinco mil milhões de dólares para assegurar a distribuição de mil milhões de vacinas aos 92 países de rendimento baixo ou médio. Sem mais solidariedade internacional, apenas um em cada dez cidadãos dos países mais pobres terá acesso à vacinação contra a covid-19 e aqueles países terão de esperar por 2024 para ter toda a população vacinada.

Ora, este nacionalismo das vacinas, além de moralmente reprovável, é absolutamente irracional no plano sanitário e económico. Primeiro, com aquilo que já se conhece sobre a propagação do vírus, conclui-se que, quanto mais tempo ele circular, maiores serão os riscos de mutações. Logo, enquanto não estivermos todos vacinados, ninguém estará seguro. Segundo, o atraso na vacinação nos países em vias de desenvolvimento produzirá um prejuízo de 9,2 biliões de dólares na economia mundial e o investimento de 27 mil milhões de dólares, necessário para o reforço dos sistemas de testagem e de tratamento nos países mais pobres, terá um retorno de 166 vezes na economia global.

Uma pandemia, dois futuros? Por que insistimos em não valorizar os factos que demonstram que estamos verdadeiramente interdependentes à escala global e que alguns muros da soberania já foram derrubados?


Diretor da Cooperação para o Desenvolvimento da OCDE e presidente da Plataforma para o Crescimento Sustentável

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