Uma casa no norte

Ter biografia é o mesmo que ver reduzir no horizonte o leque dos possíveis. Embaixador em vias de reforma, vejo um comentador considerar, com simpática ironia, que finalmente estou a libertar o animal feroz que há em mim ao escrever estes artigos. Tive a alegria de descobrir que, ao menos no Dr. José Miguel Júdice, tenho um leitor atento. Mas o animal feroz que estaria latente nas possibilidades irrealizadas da minha vida, confesso que não o encontrei ainda.

É verdade que por aqui quem não ruge não é respeitado. Mas eu serei talvez como aquele pobre leão do Feiticeiro de Oz que procurava aprender a rugir e a mostrar as garras, sem o conseguir, até ao final do livro (ou do filme, se preferirem). É quando fazemos a incómoda descoberta de que já temos biografia e que ela não corresponde, porque nunca corresponde, ao que nos sonhámos, que compreendemos aquilo que faltou. Somos esboços mal acabados de uma fantasia que fizemos à volta de nós próprios e não temos tempo já de corrigir o desenho. Daí a compulsão de escrever sobre esses rascunhos que deixámos da nossa vida.

Em 1995 fui a Vila Real, a fim de participar num grupo de tradução coletiva de uma poeta catalã, Maria Mercé Marçal, na presença da própria poeta. Eram encontros promovidos pela Casa de Mateus, no âmbito da sua riquíssima atividade cultural. Ouvíamos os poemas lidos pelo autor ou autora, era-nos dada uma tradução literal e trabalhávamos em conjunto para chegar a uma tradução desses poemas para a nossa língua que não nos envergonhasse. Uma coleção de livros, que eu muito gostaria de ver reeditada, documentou as muitas sessões que se realizaram e que duraram até hoje.

Voltei depois muitas vezes a Mateus. Uma vez para receber o Prémio D. Diniz, muitas outras para assistir ou participar nas variadas iniciativas culturais que a Fundação da Casa de Mateus tem vindo, incansavelmente e contra ventos e marés, a promover. Algumas vezes estive a título oficial, para a entrega do mesmo prémio D. Diniz que eu recebi, no meu tempo, das mãos do ministro Manuel Maria Carrilho; outras vezes para prosseguir com as traduções de poesia.

Já é suficientemente claro para os leitores que estas incursões biográficas servem apenas para não tornar num mero obituário o que quer antes ser uma homenagem pessoal e sentida a alguém que perdemos e nos faz falta, ao Fernando Albuquerque, a quem se deve, bem como à sua inteligente e ativa família, esse farol de cultura que tem sido, através de todos estes anos, a Fundação da Casa de Mateus.

A memória feliz de conversar à lareira naquela casa, pela noite fora, a jogar jogos de sala e de adivinhas, traz-me à lembrança o Vasco Graça Moura e o seu bom humor inabalável, a hospitalidade atenta e amiga da Maria Amélia e do Fernando, a alegria de uma sociabilidade intensa e viva, que agora vai desaparecendo com o convívio virtual e com a covid, fechados que estamos em casa e na nossa pequena bolha a dialogar com amigos, inimigos e indiferentes pelas redes sociais...

Esse valor de estarmos juntos e essa alegria de fazer coisas e de sustentar iniciativas fazia parte do modo especial como Fernando Albuquerque (tal como Fernando Mascarenhas, que o escreveu na belíssima Carta ao Meu Sucessor) concebia a posição e a responsabilidade social do aristocrata no mundo contemporâneo. A ideia que uma herança nos dá responsabilidades mais do que privilégios sintetiza uma moral que encontrei nos três nobres (em todos os sentidos do termo) de quem fui amigo: o Fernando Mascarenhas, marquês de Fronteira, o João Sá Coutinho, conde de Aurora, e finalmente o Fernando Albuquerque, conde de Mangualde. Um horror comum os ligava: o desprezo por todo o snobismo pequeno-burguês e pelo name dropping dos títulos, tal como o que eu acabei de fazer.

Uma casa no norte. Uma luz e uma lareira para resistir ao deserto do mundo. Obrigado, Fernando, a ti e à tua família, por nos terem dado esta barragem contra a indiferença niveladora e a barbárie da vulgaridade, que todo o gesto de cultura representa.

Diplomata e escritor

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