Um problema de definição política

Num longo almoço em tempos pré-pandémicos, sentei-me à mesa e questionei um interlocutor sobre a possibilidade de Carlos Moedas -- à data administrador da Fundação Gulbenkian e ex-comissário europeu -- ser candidato à Câmara Municipal de Lisboa. O meu interlocutor descartou a ideia, quase que duvidando da minha lucidez. "Um gajo porreiro nunca é líder de nada", considerou. Eu, falhando em perceber o ponto, mudei de assunto e continuei a comer.

Dois anos mais tarde, contra tais vaticínios e piores probabilidades, Moedas foi eleito presidente da maior autarquia do país contra o incumbente, Fernando Medina, hoje ministro das Finanças. O seu discurso no congresso do PSD, que daria o tiro de partida para as eleições antecipadas de 2022, galvanizaria a sala e coroá-lo-ia com uma aura de incontornabilidade. Moedas passou a significar futuro sem ter de dizer uma palavra sobre o futuro. Nas diretas que confrontaram Luís Montenegro com Jorge Moreira da Silva, era o seu nome -- e não as ideias dos concorrentes -- que persistia nos jornais.

Mas a tal frase, do tal almoço, permaneceu comigo.

A controvérsia em torno de Carlos Moedas e do monumento a Vasco Gonçalves não é mais do que isso: uma controvérsia. Ir de "será sempre uma honra continuar a homenagear o general Vasco Gonçalves" e de "não sei se será uma estátua, se um busto, mas vamos trabalhar nesse sentido" para "nunca fiz promessa nenhuma de nenhuma estátua" não corresponde, obviamente, a um sucesso. Mas, mais do que os contornos cómicos ou culturais da peripécia, trata-se de uma ilustração perfeita da personalidade política do edil. É um homem que odeia a palavra "não". Por simpatia, feitio ou instinto, Moedas não diz "não". E esta não foi a primeira vez que isso lhe causou problemas.

Em abril do ano passado, na comissão de inquérito ao Novo Banco, seria o próprio a relatá-lo. "Eu disse simpaticamente ao presidente de um banco: 'Estou a ouvi-lo, dr. Ricardo Salgado'. Não lhe disse nem que sim, nem que não".

"A questão não é dizer que não, é não fazer", apontaria, em entrevista ao Observador, já em campanha. "Há pessoas que podem ser mais ou menos diretas no 'não'. Eu sou uma pessoa que, por natureza, não é direta no 'não'", assumiria sobre si mesmo. E foi isso que fez com que, "simpaticamente", não dissesse que não (nem que sim) a ajudar o BES e que tivesse de dizer que sim (e que não) à homenagem a Vasco Gonçalves.

Estaria o meu interlocutor certo, então, ao traçar o "porreirismo" de Moedas como uma lacuna política?

Aparentemente, sim.

Possivelmente, não.

Há uma grande diferença entre não querer enganar ninguém com falsas certezas ("Não sei onde vou estar em 2025", confessou, eleito há menos de um ano) e não querer comprometer-se com nenhuma posição ("nem que sim, nem que não"). O gelo fino em que Moedas patina é esse. Entre a autenticidade de alguém que, por exemplo, não garante ser recandidato à função que acabou de conquistar e a plasticidade de alguém que descarta propostas que o seu programa prometia. O teatro em cada freguesia, afinal uma metáfora, o desconto na EMEL, afinal não prioritário, a política acima dos partidos, afinal uma impossibilidade, são três exemplos de "sins" que se tornaram "nãos" ou de "nins" que não vão deixar de o ser.

Os eleitores compreendem que um mandato não se cumpre em um ano, muito menos sem uma maioria. "Eu sou humilde e reconheço que fui ouvir as pessoas", justificou, sobre a sua mudança de posição quanto à ciclovia na Almirante Reis. E talvez as pessoas se revejam nisso, nessa facilidade em reconhecer que não se é perfeito, que se erra e que até se muda de ideias.

Não se pode é deixar de ter uma.

O desafio de Carlos Moedas passa por aí: evitar que a sua simpatia se converta em indefinição política.

O Moedas comissário europeu, amigo de Marisa Matias no Instagram, é o mesmo que perde a paciência com as demonizações do Bloco de Esquerda. O Moedas que tudo fez para manter uma imagem de moderação é o mesmo que acusou Medina de ser cúmplice de Vladimir Putin. O Moedas que acusa a oposição de bloquear a governação da cidade é o mesmo que tem o PSD/Lisboa contra si na Assembleia Municipal. O Moedas que atira ao PS achar-se "dono disto tudo" é o mesmo que se identifica com "a forma de fazer política" de Pedro Nuno Santos. E no fim do dia, entre "sins" e "nãos", o político que significa futuro corre o risco de parecer não saber para que quer esse futuro.

Ser mayor de Lisboa é, sem sombra de dúvidas, o melhor cargo político para se ter num país onde o dinheiro é cada vez mais local -- as autarquias são o Estado que sobra -- e onde o escrutínio se fica ainda pelo nacional. Dito de outro modo: tem-se atenção quando se quer e não se tem atenção quando não se quer. António Costa, nos seus sete anos à frente da capital, aproveitou-o. Seria um desperdício, para a direita e para Carlos Moedas, perderem essa chance.

Nem que seja em nome dos "gajos porreiros" que ambicionam liderar alguma coisa.

Colunista

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