Um pensamento em forma de assim

Conhecemos esse vício cultural muito português em que, por vezes, conscientemente ou não, participamos. Chamemos-lhe a continuada promoção de alguns dos nossos artistas como figuras obrigatórias de uma galeria de "heróis" - sempre que possível para delirante consumo mediático. Os prémios internacionais e, claro, a morte servem para inflacionar tal vício. Exemplo? Em alguns casos, a cegueira militante contra a filmografia de Manoel de Oliveira deu lugar à sua compulsiva e gratuita celebração como "mestre"...

Nada disso, entenda-se, decorre do facto de poderem existir perspetivas menos entusiastas, totalmente legítimas, sobre a obra de Oliveira (ou seja de quem for). A questão que coloco é outra. É, sobretudo, de outra natureza. A saber: no limite das nossas atribuladas relações com as expressões artísticas de alguns criadores portugueses, deparamos com universos que sabem questionar e desafiar a nossa "portugalidade".

Assim acontece no trabalho de João Botelho, cineasta em que encontramos ecos muito diretos das heranças literárias de autores como Almeida Garrett (Quem És Tu?, 2001), Eça de Queirós (Os Maias, 2014) ou Fernando Pessoa (O Ano da Morte de Ricardo Reis, 2020); a sua primeira longa-metragem (Conversa Acabada, 1981) nasce mesmo do diálogo, literário e simbólico, português e universal, de Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.

Com Um Filme em Forma de Assim, agora estreado, Botelho confronta-se com Alexandre O"Neill (1924-1986). E vale a pena não banalizarmos essa ideia de confronto, quanto mais não seja porque o espaço da comunicação "social" passou a estar dominado pela doença infantil do confronto, isto é, a promoção do conflito - como bem sabemos, basta um penalty num jogo de futebol para instalar o conflito e, com ele, durante uma semana, definir os parâmetros com que (não) pensamos o nosso quotidiano viver.

Que confronto é este, então? Pois bem, exatamente o contrário do modelo mais medíocre - e também culturalmente mais poderoso, não tenhamos ilusões - de abordagem da obra literária (ou de outra natureza) de quem quer que seja. Não se trata de "ilustrar" essa obra, porque este é um cinema que sabe que não há ilustração possível: imagens e sons são um novo território da nossa experiência intelectual e sensorial.

O confronto enraíza-se na certeza, de uma só vez pedagógica e lúdica, de que o filme se apropria das palavras de O"Neill, deslocando-as do seu primeiro habitat, condensando-as em novos arranjos de linguagem - de outra linguagem. Será preciso recordar que deslocação e condensação são duas componentes essenciais do trabalho do sonho segundo Sigmund Freud?

Sonhar não é, por isso, em Um Filme em Forma de Assim, uma fuga à realidade. É mesmo um modo de interrogar as matérias, fronteiras e valores daquilo a que damos esse nome, tão seguro e tão incerto, de realidade. Daí que Botelho celebre as palavras de O"Neill como "coisas" que apelam à música e ao espetáculo, transfigurando qualquer hipótese de naturalismo, devolvendo-nos as palavras como cenário amargo e doce do ser (ou não ser) português.

Com Um Filme em Forma de Assim, João Botelho inspira-se em Alexandre O"Neill para encenar o ser (ou não ser) português.

Há, por isso, uma dimensão escandalosa em Um Filme em Forma de Assim que, mais do que nunca, importa reconhecer e celebrar. Qual é o escândalo? O de não procurar fechar os significados da identidade portuguesa num qualquer "destino" oficialmente consagrado, a ser cumprido num futuro supostamente redentor, antes expondo essa identidade como matéria do presente - deste aqui e agora - em que nos redescobrimos vivos, apesar (ou através) da transparente certeza da morte.

Como o próprio O"Neill escreveu em Mesa dos Sonhos, poema de 1958, do livro No Reino da Dinamarca (ed. Relógio D"Água): "Mesa dos sonhos no meu corpo vivem / Todas as formas e começam / Todas as vidas // Ao lado do homem vou crescendo // E defendo-me da morte povoando / De novos sonhos a vida".

Povoar de novos sonhos a vida poderá ser uma boa expressão para definir o que é filmar. Com este comovente objeto que é Um Filme em Forma de Assim, Botelho reafirma-se como um cineasta português, obviamente (ia a escrever tragicamente...) herdeiro da saga de Oliveira, resistindo à preguiçosa formatação de todas as linguagens audiovisuais e, desse modo, pensando que ainda possa haver espetadores que não se fiquem ofendidos por o cinema apelar à sua inteligência. Enfim, é apenas um pensamento.


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