Um horroroso reality show

Após o inimaginável, a eleição da incompetência, da imbecilidade e de um desastre anunciado para o governo do Brasil em 2018, as duas metades que habitam um jornalista entraram em conflito.

A do cidadão comum, pensou: "Isto vai ser um horror." A do profissional, que põe as notícias à frente de tudo, contornou: "Isto vai ser uma experiência incrível."

Dois anos e meio depois, não há dúvidas de que, embora ambas certas, a previsão da primeira metade se sobrepôs à da segunda.

O profissional, mesmo assombrado por partilhar o país com 58 milhões de eleitores de um falso moralista, falso cristão e falso patriota, de um lendário preguiçoso, intolerante doentio e corrupto de trazer por casa, tentou pensar o Brasil dos próximos quatro anos como um grande reality show onde se realizaria a tal "experiência incrível".

Essa experiência consiste em juntar o pior de uma sociedade no governo de um grande e outrora feliz e criativo país: além do líder, que não merece mais adjetivos, um rapinador na economia, um alucinado nas relações exteriores, um analfabeto na educação, um devastador do meio ambiente no meio ambiente, um ignorante na cultura, um militar na Casa Civil, um racista no órgão de apoio aos negros e até um juiz que mandou prender o rival do chefe na Justiça.

Sim, a meio do caminho, esse juiz percebeu onde se tinha metido e pediu para sair da "casa mais vigiada do Brasil", assim como sairia, por exemplo, o ministro da Saúde, que, por ser médico, consciente e ouvir cientistas a sério e não cientistas de WhatsApp, não se enquadrou na finalidade do reality e foi expulso.

Saiu até um deputado que, mesmo sendo ex-ator pornográfico, se chocou com a obscenidade deste filme.

Como programa de televisão, este governo é, pois, um êxito de que não desdenharia a Endemol. Mas esta é uma novela da vida real - da vida real mesmo. Pelo que a previsão da metade cidadã do tal jornalista, ainda para mais em tempos tão desafiadores e trágicos, acaba por se sobrepor de forma cruel à da metade profissional.

Este Big Brother mói e mata. Banaliza a maldade e a estupidez, E, talvez pior, vence pelo cansaço.

No Senado, enquanto se discute a responsabilidade de um governo que fez tudo ao contrário na pandemia - errar todos erraram, talvez até a Nova Zelândia, mas fazer tudo ao contrário só está ao alcance de uma elite de estúpidos -, os parlamentares que ainda defendem o governo em troca de cargos e dinheiro, insistem e insistem e insistem na cloroquina como remédio salvador contra a covid-19, com base na tal ciência de WhatsApp.

"Há médicos que a defendem e vão ser chamados aqui", dizia noutro dia um dos senadores mais torpes. Claro que sim, há até cientistas a defender o terraplanismo (nem todos os apoiantes do governo são terraplanistas, registe-se, mas todos os terraplanistas brasileiros são apoiantes do governo).

E depois de um, o terraplanismo, e de outra, a cloroquina, vem aí outro debate burro: o regresso ao atrasado e vulnerável voto impresso em vez do rápido e seguro voto eletrónico, mais uma ótima conquista do outrora feliz e criativo Brasil que, conforme as regras deste reality, é necessário destruir.

Como não há os votos pelo correio, como no Big Brother do Trump, o voto eletrónico será o pretexto para se contestar uma provável derrota eleitoral em 2022, quando esta "experiência incrível", ou melhor, este "horror", finalmente terminar.

Até lá, à segunda metade do cidadão resta noticiar e à primeira aguentar firme.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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