Um holocausto de Sally Rooneys canceladas

O nome pode não ser imediatamente reconhecível para toda a gente, ou será reconhecível apenas na mesma medida em que fenómenos recentes de dimensão comparável são reconhecíveis ("Ferrante", "Knausgaard"), mas é nesse perímetro de familiaridade que reside a sua mais-valia. "Sally Rooney" cumpre hoje a mesma função que "Jonathan Franzen" cumpria por volta de 2010. Ao nível mais elementar, as palavras designam a autora de três livros de ficção que atingiram níveis anómalos de sucesso crítico e comercial. Ao nível simbólico, são forçados a sustentar outros pesos.

Nos espaços cada vez mais exíguos onde uma monocultura de debate literário ainda finge existir, Sally Rooney é um interface atarefado entre a ideia de "literatura" como categoria cultural importante e todas as outras ideias muitíssimo mais urgentes que gostam (mais por hábito que outra coisa) de usar a literatura como trampolim. O "romance-evento" é uma categoria da qual o jornalismo cultural e a indústria de produção de opiniões não querem prescindir, mesmo que o usem predominantemente para falar de uma personalidade (reduzindo o autor a gerador de controvérsias, portador de roupas de marca, etc.), ou como pretexto para comentar preocupações mais actuais. Em 2010, "Jonathan Franzen" servia sobretudo para explorar a dicotomia elitismo/filistinismo (um tema patusco, muito popular na altura). Tudo isto - o "romance-evento", o escritor de ficção enquanto figura pública - pode parecer emblemas de uma paisagem semidesvanecida, tal como a própria ideia de uma monocultura, que foi mudando sem deixar de ser. Se hoje ainda existe, é menos nas oportunidades para falarmos todos ao mesmo tempo sobre o mesmo assunto e mais numa rotina circular em que todos os assuntos são falados exactamente da mesma maneira.

No fim-de-semana passado, o colunista do Guardian Nick Cohen publicou um artigo de opinião sobre Sally Rooney, que descrevia como a mais recente vítima da "cultura de cancelamento". As provas apresentadas por Cohen consistiam num extravagante total de um (UM) texto - outra coluna de opinião publicada uma semana antes num jornal australiano, cujo título perguntava "Será Sally Rooney a escritora mais sobrevalorizada da nossa geração?"

Esse terrível exemplo de cancelamento, que transmite a nítida sensação de ter sido pensado e escrito em menos de cinco minutos, é um corriqueiro exemplar da categoria "sou-só-eu-que-não-gosto-de-x?", à qual todos os fenómenos da dimensão de Sally Rooney são submetidos mais tarde ou mais cedo. Sem quaisquer pretensões de análise à obra em si, é mais um lamento superficial pela atenção mediática que ela mereceu, filtrado por um tipo de gramática operacional e dialecto especializado também familiares de outros debates para-literários: o livro Normal People é acusado de falta de "representatividade", de mais poder chamar-se White People, e de ser um repositório banal de preocupações irrelevantes para outras categorias étnicas e demográficas. Tudo isto é embrulhado num tom que tenta atabalhoadamente adoptar os ritmos e inflexões do humor online, em que as piadas não cortejam a gargalhada espontânea, mas sim o aplauso e concordância de quem já partilha o mesmo vocabulário: os livros de Rooney são comparados a um acessório de estilo, equivalentes a transportar "um exemplar de Infinite Jest em 1995" (sic) ou a "ouvir Sophie Ellis-Bextor num discman para parecer radical". Até aqui, a própria imaginação de estereótipos é tão rebuscada que acaba por não descrever ninguém.

A resposta a isto - um texto pateta e pueril publicado num jornal australiano, que passara quase despercebido até à coluna de Cohen - seguiu outro guião contemporâneo habitual: o guião "é-oficial-está-tudo-doido". As regras internas do género são simples: o opinador selecciona um qualquer fragmento de realidade mediada (uma imagem descontextualizada, uma notícia reciclada, um comentário online) e torna-o representativo de um fenómeno sociológico mais amplo. O resultado dessa irritação forma depois a substância da sua resposta, que é concluir que as coisas nunca foram tão graves como são agora.

Cohen passa directamente de um único artigo num jornal australiano (a criticar uma escritora quase universalmente aclamada) para menções a uma "caça às bruxas", aos nazis e à Stasi. Estas escaladas retóricas grandiloquentes e historicamente iletradas são outra propriedade formal do género "está-tudo-doido". É um modelo de produção de grande sucesso na esfera anglo-saxónica, onde há sempre um tele-evangelista da Florida disposto a afirmar que os filmes da Disney são propaganda pedófila ou um professor-adjunto de Berkeley pronto a defender que os filmes da Disney promovem o genocídio racial. Antigamente, estas pessoas passavam uma vida inteira sequestradas nos seus inofensivos microcosmos, sem contribuírem para os ciclos de produção e consumo de opinião; agora podem ser promovidas a representantes de uma galopante ideologia totalitária.

O efeito multiplicativo histérico dos artefactos "está-tudo-doido" só é possível através da interposição de várias camadas de mediação, numa ecologia online em que é raro reagirmos a qualquer coisa, e muito mais comum reagirmos às reacções a qualquer coisa. Quando nos chega, qualquer notícia já vem preventivamente enquadrada pelas respostas de terceiros. Nenhuma das nossas reacções individuais pode ter uma importância equivalente ao impacto emocional acumulado das reacções que já gerou, portanto a hipérbole torna-se a única expressão adequada - não como tradução de um tumulto interior relevante, mas apenas como progressão aritmética. Quando as oportunidades para o martírio político são reduzidas, e a retórica inflacionada é tudo o que sobra, a consequência mais natural é que os desabafos apopléticos de homens adultos sobre a banda desenhada da sua infância adoptem o tom de quem está sozinho na Praça Tiananmen a imobilizar uma coluna de tanques.

O texto do jornal australiano não tem rigorosamente nada a ver com o fenómeno que Nick Cohen quer descrever, porque esse fenómeno é demasiado difuso para poder sequer ser plausivelmente encarado como tal. A "cultura de cancelamento" é nesta altura uma definição demasiado omnívora para não engolir e digerir tudo o que a rodeia - campanhas coordenadas de abuso, cínicas decisões de marketing corporativo, notícias antigas sobre igrejas canadianas, ou comentários online a insultar um vereador.

Um entendimento superficial do que significa a representatividade em obras de arte ou de entretenimento (que é um sintoma e não uma causa em si), aliado a um apetite adolescente por protagonistas com que nos possamos "identificar", talvez ande a encorajar ficções cujo modus operandi é caminhar nervosamente em bicos de pés à volta das auto-imagens de leitores imaginários. Se for uma "moda", é-o não porque as suas manifestações são agora mais numerosas, mas porque são mais visíveis: com uma amostra suficientemente vasta (chamemos-lhe "internet", para simplificar) qualquer trova do Bandarra parece uma profecia.

Mas todos os modos de leitura e interpretação são "modas" no mesmo sentido: são em simultâneo reacções individuais e sociais - moldadas pelas ideias partilhadas num determinado tempo e espaço. A diferença entre acreditarmos que são naturais ou historicamente contingentes depende muito do nosso investimento prévio nas respectivas ortodoxias.

O impulso para encaixar cada fenómeno social negativo, ou cada curiosidade noticiosa aleatória, na mesma história sobre uma ideologia monolítica é o reflexo do impulso para tratar cada obra de ficção como fake news, que precisa de ser submetida a um rigoroso fact checking ético: ambos se reduzem à procura de sinais visíveis de desordem, de palavras-chave que denunciem intenções secretas e corrupções sistémicas. Ambos promovem um único instrumento: a chave-mestra. Ambos se enclausuram num modo de olhar em que as convenções mais banais e as tradições mais antigas (romances autobiográficos, críticas negativas) são redescritas como alarmantes novidades: patologias irredimíveis ou impulsos totalitários. Ambas têm uma importância desproporcionalmente reduzida em relação à retórica hiperbólica que ajudam a produzir - e uma utilidade limitada, excepto na mais nobre das situações: quando há uma página para preencher e nenhum outro assunto à vista. Nesse aspecto, pelo menos, alguns de nós continuaremos imensamente agradecidos.

Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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