Transfusões de sangue velho

Em 2004, o escritor americano F. Paul Wilson publicou um (mau) livro de terror chamado Midnight Mass. A história era sobre uma infestação de vampiros que partiu do Empire State Building para dominar todo o continente americano, e sobre a equipa ad hoc que tenta fazer-lhes frente através de guerrilha terrorista: um padre católico pedófilo, uma lésbica vegetariana, e uma ex-freira equipada com um colete de explosivos. Os vampiros em questão eram feios, porcos e maus. A dada altura, um deles goza em voz alta com os estereótipos da sua espécie perpetuados pelos livros de Anne Rice: estetas eruditos, bonitos, e romanticamente atormentados.

Muitas coisas aconteceram aos vampiros desde Drácula, a principal das quais terá sido a gradual, mas inexorável transformação de um arquétipo de malignidade arcaica na imagem de um namorado potencialmente intrigante. Algo que permaneceu na mesma é a ideia de que uma história de vampiros nunca é realmente sobre vampiros: essa já faz parte integrante do glossário de teoremas críticos. Excepto em casos extremos de irrelevância cultural, o vampiro é sempre uma metáfora - para a pós-adolescência, para a alvorada feminista, para a corrupção (ou repressão) sexual, para a imunodeficiência adquirida.

Midnight Mass, a recente mini-série de Mike Flanagan para a Netflix, não é uma adaptação do livro de F. Paul Wilson. Na verdade, não é uma adaptação directa de coisa nenhuma, e nessa margem de manobra adicional pode estar a chave da estonteante subida de qualidade em relação aos projectos anteriores do criador.

A série passa-se integralmente numa pequena e moribunda comunidade insular, que recebe uma infusão de energia com a chegada de um padre novo à igreja local. Após alguns aparentes milagres, o espectador (e algumas das personagens) percebem que o novo padre é o antigo, suspostamente doente depois de uma peregrinação à Terra Santa, mas na verdade rejuvenescido pela intervenção sacramental do que ele acredita ser um anjo. A igreja enche-se de novos fiéis, o padre fala fervorosamente de uma nova aliança entre os eleitos de Deus, e o sangue do anjo é discretamente acrescentado ao vinho da missa para acelerar a renovação espiritual.

Midnight Mass preserva alguns dos defeitos das duas séries anteriores de Flanagan para a mesma plataforma (Hill House e Bly Manor): a pobreza da sua imaginação visual (o aspecto da "criatura" é tão familiar e pouco inventivo que podia passar despercebido no liceu da Buffy); e o excesso de glucose sentimental, tanto no texto de alguns monólogos, como no solícito acompanhamento visual e musical que lhes sublinham as intenções. Mas os impulsos menos interessantes de Flanagan são aqui subordinados a algo tematicamente coerente, que não precisa de forjar a sua originalidade na distorção temática dos materiais que adapta.

Entre outras proezas inesperadas, Midnight Mass será talvez o equivalente audiovisual mais fidedigno da experiência de ler uma história de Stephen King pela primeira vez, e funciona como uma "adaptação" da obra de King muito mais eficaz do que qualquer outra tentativa recente (incluindo as do próprio Flanagan). Tanto em estrutura narrativa como em atmosfera, é uma síntese de Salem"s Lot, Cycle of the Werewolf e Storm of the Century mas, mais do que pela reiteração de pontos narrativos específicos, é a maneira como o material se organiza que reproduz o efeito de o ler - a apresentação paciente de personagens numa atmosfera reconhecível mas ominosa, a falta de vergonha em usar estereótipos berrantes, a teatralidade de algumas interacções pessoais.

Se Salem"s Lot é a pedra de toque de Midnight Mass (ambas são histórias sobre o fanatismo como exaustão de alternativas, e sobre a facilidade com que uma comunidade pode ser facilmente dominada por aquilo que as suas vulnerabilidades específicas a querem fazer ouvir), as diferenças são igualmente elucidativas. Os vampiros de Salem (e, no geral, todos os monstros de Stephen King) são confrontados de forma mais eficaz não pelos que acedem a reservatórios teológicos, folclóricos ou antropológicos, mas sim pelos que demonstram fluência em cultura popular. Nos mundos de King, o adulto céptico e racionalista tem menos hipóteses de sobrevivência do que a criança que confia na "lógica das extremidades nervosas", porque leu toda a banda desenhada relevante e viu os filmes mais recentes.

Em Midnight Mass nunca ninguém viu um único filme de terror, mas o mais interessante é o modo como a série usa as convenções da televisão de prestígio - o mesmo rígido livro de estilo transplantado de produto para produto como uma marca de água - para dissimular a estrita obediência às convenções do outro género a que pertence. Os primeiros vinte minutos, com aquela palete tão familiar, e mesma solene sementeira de referências oblíquas à precariedade económica e social de séries como, por exemplo, Mare of Easttown, executam exactamente o mesmo truque dos inícios dos livros de King nos anos 70 - que podiam quase todos passar por primeiros capítulos de Sinclair Lewis ou qualquer neorrealista: criar uma ortodoxia plausível, antes de a espatifar com grand guignol.

A outra enorme vantagem é que, desta vez, Flanagan teve uma estrutura de esquisitice pré-construída onde pendurar tudo o que não fazia parte do enredo, o que lhe poupou trabalho a inventar um mundo plausível para decorar os intervalos da acção. O guião apoia-se muito (e bem) no denso formalismo católico, que usa quase como uma espécie de world building. Os adereços e protocolos da eucaristia, as minudências do calendário litúrgico (como a ideia de Tempo Comum), ou os esquemas cromáticos das casulas: tudo elementos com um exotismo embutido para a maioria dos espectadores, e que a acção usa precisamente para reforçar o seu naturalismo.

Flanagan não é, evidentemente, a primeira pessoa na história do mundo a perceber a facilidade com que o imaginário católico se presta à cooptação para narrativas de terror, e para um sub-género dessas narrativas em particular. Mas conseguiu intuir outra maneira de contar a história - tal como F. Paul Wilson antes dele, em resposta contraditória a um silencioso consenso prévio sobre arquétipos e sobre o que eles devem significar. Numa altura em que um dos problemas quase transversais à linha de produção de filmes de terror é a crescente assexualização do género (tanto no anti-séptico aspecto visual, como na falta de ousadia temática), é curioso ver uma elaboração tão competente sobre um arquétipo definido pela sua carga sexual que começa por lhe subtrair todo e qualquer elemento erótico. Não devia funcionar, mas funciona. Midnight Mass é um melodrama religioso, do princípio ao fim, mas não apenas sobre conceitos abstractos ou rotinas institucionais: o terror que extrai aos seus elementos genéricos é o mesmo que se sentiria em qualquer interacção genuína com o sagrado - o terror de uma experiência radical, dolorosa, transformadora e permanente.

Qualquer profissão de fé implica a obediente adesão a uma ortodoxia, um gesto que, para quem observa do exterior, pode ser ligeiramente ridículo, ligeiramente desconfortável, e ligeiramente ameaçador, tudo em simultâneo. A obediência às convenções do vasto edifício genérico a que chamamos "histórias de terror", bem como o intenso literalismo necessário para levar até ao fim as implicações das histórias que o género permite, acarretam o mesmo risco. Como Stephen King passou a carreira a demonstrar, é um género em que um apurado sentido do ridículo pode ser um defeito, e a capacidade para nunca sentir embaraço (por exemplo, do que já se fez antes) a maior das virtudes.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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