Tirar lições da experiência

Somos levados em imaginação pelas páginas de Viagens na Minha Terra. Lembramos o testemunho inesquecível de Garrett: "Rodeámos o largo e fomos entrar em Marvila, pelo lado do norte. Estamos dentro dos muros da antiga Santarém. Tão magnífica é a entrada, tão mesquinho é agora tudo cá dentro, a maior parte destas casas velhas sem serem antigas, destas ruas moirescas sem nada de árabe, sem o menor vestígio da sua origem, mais que a estreiteza e pouco asseio." Segue a "triste e pobre Rua Direita", passa pela "curiosa Torre das Cabaças" e por São João do Alporão. "Amanhã iremos ver tudo isso de nosso vagar. Agora vamos à Alcáçova."

A antiga cidadela estava, porém, irreconhecível - "Que espantosa e desgraciosa confusão de entulhos, de pedras, de montes de terra e caliça! (...) Um labirinto de ruínas feias e torpes." Nesse encontro histórico de 1843 com Passos Manuel, então num exílio político na pátria, que serviu de pano de fundo ao romance e à deambulação, usufruímos de uma meditação séria sobre a nossa identidade - não fechada ou suficiente, mas exigente e crítica. E se lembramos esta passagem clássica, não esquecemos como o dramaturgo, o poeta, o romancista, o legislador, o parlamentar de exceção - como artífice da moderna coisa pública sempre soube ligar a democracia, a Europa e a cultura.

É verdade que hoje já não vemos o que Almeida Garrett viu - mas temos de estar atentos aos riscos e aos perigos que espreitam a cada passo. Há que respeitar as raízes, o património material e imaterial, os monumentos, os documentos, as tradições, a língua, o romanceiro... mas, mais do que isso, importa cuidar das pessoas, da liberdade e dos direitos humanos, da soberania do povo e de uma perspetiva autêntica de respeito mútuo e de paz. "Portugal na Balança da Europa" significa, aliás, o reconhecimento de que a nossa força não virá do fechamento ou de um passado inexistente, mas da voz que soubermos ter no presente e para o futuro e da capacidade criadora além das nossas fronteiras e dos nossos egoísmos, num esforço envolvendo todos "para salvar e reconstituir a pátria".

No momento em que se discute o futuro da Europa, quando Portugal exerce a presidência do Conselho Europeu, a cultura tem de ver reconhecido um lugar especial. Por isso, é fundamental que nas medidas do plano de recuperação económica, na sequência da crise pandémica que nos afeta gravemente, tenha lugar o apoio à atividade cultural, à preservação e à salvaguarda do património cultural numa aceção aberta e ampla. Daí a necessidade de definir prioridades e de haver um plano, com metas e prazos. Se lembramos Garrett é porque compreendeu bem a necessidade de haver cuidado com a criação e com o património, que não podem perder-se ou degradar-se, mas igualmente porque entendeu a necessidade de fazer da educação das e pelas artes um modo de valorizar o mais essencial da vida. Para que não assistamos a uma evolução pobre e ilusória, a economia humana e o desenvolvimento só podem responder aos desafios que nos estão lançados, se pudermos ligar educação, formação, ciência e criação cultural. A pandemia ensinou-nos que a ciência e a medicina só podem avançar se soubermos ligar a coesão social e o cuidado a quem precisa - mas tal obriga a um pacto social inovador, envolvendo as responsabilidades do Estado e da sociedade. Como dizia Abel Salazar: "Um médico que só sabe de medicina nem de medicina sabe..." A cultura permite vermos a realidade que nos cerca na sua complexidade - envolvendo razão e sentimento, informação, conhecimento e sabedoria. Eis por que razão temos de saber tirar lições dos riscos, dos erros e sobretudo da experiência.

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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